Pimenta brasileira

O catarinense Mauro Refosco, integrante da banda de apoio do Red Hot Chili Peppers, conta sobre as “brasilidades” introduzidas por ele no grupo californiano: de groove de zabumba ao interesse de Flea em ver um jogo de futebol na passagem pelo país

Stella Rodrigues Publicado em 20/09/2011, às 12h01 - Atualizado em 01/11/2013, às 12h44

Mauro Refosco
Foto: Reprodução/Facebook oficial

“Pegou meio mal com os fãs, né?”, pergunta Mauro Refosco. Ele fala à Rolling Stone Brasil de um quarto de hotel na Alemanha, um dia após o show do Red Hot Chili Peppers que foi transmitido ao vivo para 900 salas de cinema ao redor do mundo, inclusive no Brasil.

O músico é integrante da banda de apoio dos Chili Peppers, e, sendo assim, ganhou por aqui esse apelido de “pimenta brasileira”. Participou da gravação do novíssimo álbum I’m With You e faz parte da turnê do grupo, que passa pelo Brasil nesta semana. A frase dele, sobre ter se queimado com uma comunidade brasileira de fãs do Red Hot Chili Peppers, faz referência a uma entrevista em que declarou que não conhecia muito a banda antes de ser chamado para integrá-la. A declaração foi encarada quase como uma blasfêmia. “É claro que eu sabia o que era Chili Peppers, de ouvir no rádio, ver clipe, mas nunca tinha comprado um disco, só isso. Justificando um pouco, acho que músico escuta música de um jeito diferente. É um lance mais objetivo, ouço para estudar. Em 1992, quando o Chili Peppers estourou mesmo, estava em uma onda de jazz, música brasileira, fazendo meu mestrado”, explica. “Com certeza, o Anthony Kiedis não sabe quem são Cartola e Tom Jobim”, complementa, se referindo ao líder da banda.

Formado pela Manhattan School of Music, o percursionista Mauro Refosco mora em Nova York desde o início da década de 90. Já tocou com Bebel Gilberto e integra a banda de apoio de David Byrne, além de manter o projeto Forro in The Dark. Não fossem projetos o suficiente, pertence também ao Atoms for Peace, grupo composto por Thom Yorke, vocalista do Radiohead, o agora companheiro de Red Hot Flea, o produtor Nigel Godrich e Joey Waronker.

Foi no Atoms que conheceu Flea. “A gente se deu super bem, fazemos aniversário no mesmo dia, gostamos da mesma música, deu certo”, conta Refosco. “Fiquei duas semanas em Los Angeles participando das gravações de I'm With You e depois passei mais um dia fazendo overdubs. Acho que eles gravaram 50 músicas, eu fiz umas 25 e 14 ficaram na seleção final”, conta, sobre a gravação de I’m With You, álbum do Red Hot Chili Peppers lançado no final de agosto.

Agora, ele excursiona ao lado do quarteto e estará nos dois shows que serão realizados no Brasil. “Tocar no próprio país é sempre especial. Já fui com o David Byrne e com a minha banda, o Forro in the Dark. E no Rock in Rio é mais legal ainda. É engraçado que quando estava gravando o disco, no dia quando conheci o Anthony, uma das primeiras coisas que ele me falou foi ‘uau, a gente vai tocar no Rock in Rio!’. Foi algo marcante.”

Bastidores

Nessas duas apresentações, enquanto o público brasileiro se espreme em frente ao palco e aguarda a entrada do grupo, Refosco dá a dica de o que eles estarão fazendo no camarim. Drogas? Mulheres? Não, jogo de xadrez. “É uma forma de desconcentrar, na verdade. O Flea é o mais apaixonado pelo xadrez. O Josh [Klinghoffer] joga também, é algo legal da banda. Usamos um aplicativo do iPhone que se chama “Chess With Friends” [“xadrez com amigos”], que dá para disputar online, a gente mantém uns jogos. Mas também tem as partidas no backstage, no tabuleiro normal.”

Já nos bastidores da gravação do disco, a participação de Mauro Refosco foi outra. Ele não atuou como oponente no xadrez, mas sim como uma fonte de inspiração para que os músicos investissem em sonoridades diferentes na percussão. “Dance, Dance, Dance’ foi uma das primeiras faixas que a gente gravou. Quando escutei a batida que o Chad [Smith, o baterista] fazia, um bumbo reto de dance, comecei a fazer um groove de zabumba, bem de baião, que encaixou bem. E eles curtiram e já gravaram de primeira. É algo muito diferente ter zabumba em uma gravação de rock como essa”, conta ele, empolgado com a inovação - que não foi a única.

“Em ‘The Adventures of Rain Dance Maggie’, uso uma máquina de tamborim, que são oito tamborins que são tocados ao mesmo tempo, e coloquei uma batida de samba que casou com o rock da música. Fiquei feliz de colocar uma assinatura brasileira.”

Mas essa não é a única marca verde-amarela que o encontro entre Mauro e os Chili Peppers está deixando. O catarinense aprendeu a amar futebol e música ao mesmo tempo, conforme conta: “Era criança e pirava no samba da torcida do Joaçaba Futebol Clube, com sua música variando da tensão ao alívio, conforme o time jogava”. A diferença é que na época, como mascotinho, ninguém deixava que ele chegasse perto dos instrumentos. Crescido e músico profissional, agora carrega o esporte ainda preferência nacional para onde quer que vá. “Nunca entendi qual é a de futebol americano. Nesse sentido, dá muita saudade do Brasil”, conta, discutindo a rodada anterior do Brasileirão. “Estou combinando com o Flea de a gente ver um jogo do campeonato quando estivermos aí, vamos ver se dá certo.”