Placebo é pragmático, mas mostra laço emotivo inquebrável entre público e artista

Vocalista Brian Molko não faz estripulias no palco do Citibank Hall, mas garante um bom espetáculo para 4 mil fãs em São Paulo

Pedro Antunes Publicado em 15/04/2014, às 02h23 - Atualizado às 15h28

Placebo em São Paulo

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Bastou a silhueta de Brian Molko surgir das sombras para o público de 4 mil pessoas que se aventuraram a ir ao Citibank Hall nesta fria noite de segunda-feira, 14, gritar com força dobrada. Tímido, o músico belga não é de trocar gracejos com público quando está no palco. Não precisa. A ligação se estabelece a cada verso confessional cantado por ele e acompanhado pelos fãs – muitas vezes, estes com mais entusiasmo do que o próprio autor.

Veja as fotos do show do Placebo, em São Paulo.

Na ativa desde 1994, o Placebo sempre foi marcado pela figura andrógena de Molko, a voz singular dele, as guitarras entorpecidas de distorção, mas ainda melódicas, e letras agridoces. Eles formaram um trio esquisito nas paradas de sucesso do fim dos anos 1990 e na década seguinte. Embora não fossem presença constante nos topos das listas, eram marcantes para alguns, pessoas que dividiam as angústias e sentiam-se acolhidas por toda aquela esquisitice, gente que enfim tinha uma tribo.

A nova era, desde a saída do baterista Steve Hewitt, em 2007, foi difícil para o Placebo. Mesmo que Battle for the Sun (2009) tenha trazido uma surpreendente luz de otimismo à escuridão de Molko, e Loud Like Love (2013) tenha garantido uma boa avaliação entre a crítica ao trazer uma melancolia mais contemporânea, como em “Too Many Friends”, na qual ele critica as redes sociais por distanciar as pessoas mesmo com o intuito de aproximá-las, a banda se apresentou para um público visivelmente reduzido em São Paulo – era possível encontrar pontos vazios na pista premium ou na comum.

O fato de que, em 2010, quando esteve em São Paulo pela última vez, a banda ter levado a mesma quantidade de pessoas ao Citibank Hall (novo nome do Credicard Hall), ou seja, 4 mil, de acordo com a organização do evento, poderia mostrar que o grupo pode não ter garantido um crescimento na base de fãs. É preciso avaliar as condições da performance, contudo, já que talvez o público ainda estivesse com uma ressaca financeira pós-Lollapalooza (realizado dois fins de semanas antes, nos dias 5 e 6 de abril), amedrontado pelos valores dos ingressos (de R$ 180 a R$ 450) ou ainda pouco disposto a ir até a casa de shows afastada do centro, localizada na zona sul da capital paulista, na noite de segunda-feira.

O Placebo não é uma banda que se prende aos sucessos do passado, então, o público sabe que não encontrará um show “greatest hits” como bandas com mais de duas décadas de carreira costumam mostrar em palcos brasileiros. Se em 2010 foram nove canções de Battle for the Sun, o mais recente na ocasião, em um set de 20 músicas, desta vez Molko e companhia mostram sete faixas de Loud Like Love - “Too Many Friends”, “Scene of the Crime”, “A Million Little Pieces”, “Rob the Bank”, “Purify”, “Loud Like Love” e “Exit Wounds”.

Costurando as canções dos discos de 2009 (“For What It's Worth”, “Speak In Tongues”) e de 2013 logo no início da apresentação, Molko disputou bem o cabo de força entre a safra recente e o desejo pelos hits. Infelizmente, “Every You Every Me”, do segundo álbum da banda, Without You I'm Nothing (1998) e extremamente popularizada ao entrar na trilha sonora do filme Segundas Intenções, ganhou uma performance bastante desinteressada da parte de Molko, principalmente em comparação às novas canções.

Relembre como foi a passagem do Placebo por São Paulo em 2010.

O single “Loud Like Love”, por sua vez, impressionou pela quantidade de cartazes levantados pelo público durante a apresentação (cada um na fila do gargarejo parecia ter a sua cópia, produzindo um bonito paredão com a mensagem "loud like love" para Molko). O vocalista e guitarrista pouco pareceu comovido com a ação, mas tudo bem, não é o jogo dele.

Molko foi a voz da angústia em estado puro. No momento mais introspectivo da apresentação, iniciado a partir de “Space Monkey”, ele mostrou o gogó e as letras invejáveis. Experimental, a canção de Meds (2006) se diferenciou do restante escolhido para o setlist, embora deliciosamente explosiva.

O show engrenou com as lamúrias do vocalista. “Blind” e “Meds” exploraram um Molko dilacerado, de coração e mente, em uma espiral depressiva lírica curiosamente contrastada com a animação do público presente. O adeus raivoso ganhou forma em “Song to Say Goodbye”, seguido pela angústia de lidar com as cicatrizes e rastros deixados por ele, com “Special K”. Enfim, tudo se tornou um passado amargo com “The Bitter End”. A apresentação chegou ao fim, assim como o roteiro desta alma atormentada.

Ele agradeceu ao público paulistano “incrivelmente maravilhoso”, segundo palavras dele, ditas rápidas e quase protocolares. Ao final de uma hora e meia de show, Molko deixou o palco e o restante da banda, formada ainda por Stefan Olsdal (guitarrista original), Steve Forrest (baterista desde 2008) e os integrantes de turnê Bill Lloyd, Fiona Brice e Nick Gavrilovic fizeram a diversão daqueles ainda presentes com acenos e sorrisos. O vocalista voltou, surpreendentemente, para um agradecimento usual do teatro com a banda reunida. O público vibrou como se a performance acabasse de começar.

Ainda que Brian Molko já não seja mais aquela alma atormentada, como em “Teenage Angst” (de 1996), escolhida para abrir o bis, e hoje, aos 41 anos, ele se assemelhe mais à versão ouvida nas faixas de Loud Like Love, a força daquelas canções ainda criam um laço inquebrável entre público e artista.

Setlist do show de São Paulo:

“B3”

“For What It's Worth”

“Loud Like Love”

“Twenty Years”

“Every You Every Me”

“Too Many Friends”

“Scene of the Crime”

“A Million Little Pieces”

“Speak In Tongues”

“Rob the Bank”

“Purify”

“Space Monkey”

“Blind”

“Exit Wounds”

“Meds”

“Song to Say Goodbye”

“Special K”

“The Bitter End”

Bis:

“Teenage Angst”

“Running Up That Hill” (cover de Kate Bush)

“Post Blue”

“Infra-red”