Polêmico Filmefobia chega aos cinemas

Vencedor do Festival de Brasília, filme de Kiko Goifman dá um nó entre ficção e documentário e pergunta: você tem medo de quê?

Por Anna Virginia Balloussier Publicado em 01/05/2009, às 01h09

Fobia de lesma

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Com expressão de derrota, o homem deixa o corpo se espatifar em um sofá do lobby do Hotel Nacional, onde imprensa e convidados foram hospedados para o 41° Festival de Brasília. Bebe um gole no gargalo de sua cerveja e desabafa: "Foi uma merda!". A cena aconteceu na madrugada de 20 para 21 de novembro, e o rapaz que sintetizava o conceito de frustração atende por Kiko Goifman.

Na noite anterior, o documentarista de mão cheia (33, Atos dos Homens e Morte Densa) havia apresentado a uma plateia lotada seu auto-declarado "primeiro longa de ficção", Filmefobia, que chega ao circuito nesta quinta, 30. Lotada a princípio, por assim dizer. Aos poucos, alguns presentes iam pedindo arrego e deixando a sala. Boa parte dos que se sujeitaram aos 80 minutos de fita ficou. Para vaiar. Os aplausos não deram conta de disfarçar a espinafração de parcela da audiência.

Naquele dia, o diretor mineiro afogou suas frustrações em louras geladas. Mas os louros da vitória vieram dias depois, quando Filmefobia lambeu o prato no Festival de Brasília - levou cinco troféus Candango, inclusive o de melhor filme.

Pondo no mesmo balaio documentário e ficção, a obra coloca atores e não-atores em confronto com suas maiores fobias, num "unidunitê" entre o que é real e o que não é - dos medos mais "pop", como de sangue ou morte, a bizarrices de quem hiperventila só de pensar em anão, botão de roupa ou ralo de banheiro.

A proposta do enredo é a seguinte: um documentarista, vivido pelo lendário estudioso de cinema Jean-Claude Bernardet, vai filmar uma obra para comprovar sua tese: "a única imagem verdadeira é a de um fóbico diante de sua fobia". O que nós, aqui do lado de fora da tela, acompanhamos é o suposto making of desse documentário, que expõe pessoas a seus maiores medos - para que, assim, a essência verdadeira de cada uma delas saia do armário. Um filme dentro do filme.

Pois Bernardet, já no Distrito Federal, deixou bem claro achar balela a tese ("um fóbico diante da fobia...") que leva seu personagem a submeter voluntários a situações que fariam Marquês de Sade dar pulinhos de alegria. Em sua opinião, a verdade tem muitas formas - ou nenhuma. O que importa mesmo é a autoficção, ou seja, a realidade que cada sujeito constrói para si como se dissesse: "essa verdade é minha e ninguém tasca". Não à toa, jamais ficamos sabendo quem é intérprete e quem não é. No set, nem sempre os profissionais recebiam o cronograma do dia e acabavam pegos de surpresa, garantiu o cineasta.

Na fita, o diretor de mentirinha também se chama Jean-Claude, também está ficando cego (na vida real, consequência da aids, com a qual convive há duas décadas) e também está petrificado com a possibilidade de nunca mais ver cores, imagens em uma tela de cinema ou estampas da gravata dos amigos. E é exatamente essa a jogada de Goifman que, como Jean-Claude, encarna um temeroso no filme - após a sessão, garantiu à repórter que desmaiou três vezes para rodar as cenas em que seu personagem se vê frente à frente com aquilo que lhe dá mais arrepios: sangue. O diretor/ator teve de suportar o líquido girando em torno dele, escoado por tubos em uma das geringonças criadas pela artista plástica Cris Bierrenbach.

As máquinas de Bierrenbach, elaboradas com orçamento de até R$ 2 mil, contribuíram para cenas impagáveis, como a da frota de carrinhos comandados por controle remoto, com vibradores acoplados à garupa, acelerando rumo a uma mocinha, filha de ginecologista e cheia de dedos para fazer sexo. Mas renderam também a tal polêmica que fez muita gente abandonar a sala antes de os créditos subirem - e não só no Brasil. À Folha de S. Paulo, Goifman contou que foi obrigado a erguer o escudo ante à aversão de muitos norte-americanos pela fita, que por lá foi exibida em dois festivais. "Eles ficaram chocados. Muitos saíram na metade do filme, dizendo que era tortura. Não é, porque os fóbicos aceitaram participar do filme. É apenas um acordo entre pessoas."

É este pêndulo entre o sadiano Jogos Mortais e Jogo de Cena (em que Eduardo Coutinho já havia jogado, de forma mais sagaz, com o mix entre realidade e ficção, ao embaralhar atrizes e não-atrizes) que guia Filmefobia. Mas é em O Despertar da Besta, filme de José Mojica Marins vetado pela ditadura e lançado anos mais tarde em DVD, que a peripécia experimental de Goifman encontra paralelo de maior fôlego.

Na película de Mojica - que não por acaso sempre se confundiu com seu alter ego, Zé do Caixão -, um psiquiatra, interpretado pelo diretor, quer estudar o efeito de drogas sob pessoas submetidas à influência da imagem do coveiro. A partir daí, o rolo de filme é tomado por "viagens" que se revelam antro de perversão, sadismo e... fobia. Tudo ao melhor estilo Zé do Caixão.

Só depois (e pule este parágrafo caso você não queira saber como termina a fita) o tal psiquiatra revela aos participantes da experiência que jamais lhes administrou tóxicos, e sim uma solução de água e açúcar. Em resumo: a imagem do fóbico diante de sua fobia. Consciente ou não, a influência está lá, e só é reforçada pela aparição de Mojica, símbolo do terror nas décadas de 1960 e 1970, na produção do mineiro.

Numa das edições mais mornas do Festival de Brasília, Filmefobia acabou premiado sobretudo por sua ousadia. Um bom ponto de partida para um filme que, no entanto, tem menos pujança cinematográfica que sua sinopse dá a entender. No final das contas, Goifman mantém antenas em riste e capta debates para lá de interessantes - real vs. ficção, a paralisia do medo; o radicalismo dessa "terapia de choque". Mas, ousadia à parte, encontra filmes (os de Mojica e Coutinho, por exemplo) que trataram dos assuntos para além do choque inicial. A ideia soa mais experimental e "choque-me se for capaz" no papel.