MGMT, At The Drive-In e Death Cab for Cutie, juntos em São Paulo, transitam entre sonoridades e popularidades distintas

Entre momentos de chuva e sol, as atrações levaram para o público a psicodelia, o pós-hardcore e o indie rock

Igor Brunaldi Publicado em 16/11/2018, às 11h22

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Ben Goldwasser e Andrew VanWyngarden do MGMT (Foto: Fabricio Vianna)

Aconteceu na última quinta, 15, a sexta edição do Popload Festival. Realizado no Memorial da América Latina, em São Paulo, o evento reuniu em um único dia chuva forte, garoa fina, sol intenso e uma ampla diversidade musical. Ao longo do período central da tarde, subiram ao palco as bandas At The Drive-In, Death Cab for Cutie e MGMT.

Agressividade e velocidade 
Pela primeira vez no Brasil, o At the Drive-In subiu ao palco do festival determinado a testar os limites dos amplificadores e a própria fama em território nacional. As guitarras carregadas de distorção disputavam destaque com a voz de Cedric Bixler-Zavala (também vocalista do The Mars Volta), que por si só exalou tanta energia quanto os poucos que se sentiram incitados a pular e se mexer durante o show.

Desde o início de "Arcarsenal", escolhida para ser a música de abertura, até o final do show com "Enfilade", Cedric, vestido todo de preto como todos os outros integrantes da banda, jogou e chutou o microfone, rodou e bateu o pedestal no chão, subiu e pulou da bateria e interagiu de forma peculiar com o público.

Apesar da agressividade e explosividade do som do quinteto — que basicamente implorava por um bate-cabeça — , poucas pessoa pareceram entrar no clima e de fato simular algo que pode ser descrito como leves empurrões no amigo ao lado ou sequer pular durante a apresentação, e isso ficou claro para o vocalista, que não segurou as alfinetadas. "Os seus rappers favoritos daqui a pouco estão aí. Eu também amo vocês. Ah, vocês não me amam? Não tem problema, eu não ligo", ele disse para si mesmo em um só fôlego, quase que como em um monólogo esquizofrênico.

O setlist de apenas oito faixas passou também por músicas atuais, como "Governed by Contagions" e "No Wolf Like the Present", do disco In•ter a•li•a (2017), além de algumas mais antigas, que fazem parte do repertório que antecede as idas e vindas dos integrantes, como "Enfilade", e "Invalid Litter Dept." (ambas do álbum Relationship of Command, de 2000).

"Para alguns de vocês, obrigado. Para outros, vocês podem ir se foder". Após essas palavras, e depois de jogar o microfone no chão, Cedric, Omar Rodríguez-López, Paul Hinojos, Tony Hajjar e Keeley Davis deixaram o palco.

Cedric Bixler-Zavala do At the Drive-In (Foto: Fabricio Vianna)

 

Suavidade e introspecção 
Death Cab For Cutie
foi a banda seguinte a se apresentar no palco principal do festival, mas não antes de dar um susto nos fãs: faltando minutos para o show, uma integrante da produção do evento foi até o microfone para dizer "um comunicado importante do DCFC". Mas antes que desse tempo da frustração se disseminar, ela tranquilizou o público e continuou, dizendo que o vocalista Ben Gibbard havia sofrido um acidente e tocaria sentado.

“Várias primeiras vezes hoje: tomei duas injeções cinco minutos antes do show e pela primeira vez vamos tocar no Brasil”, contou ele já acomodado em sua cadeira e com a guitarra no colo, de onde conduziu toda a apresentação que, apesar da sonoridade muito mais introspectiva em comparação à banda anterior, arrancou muitos gritos e balanços corporais.

Um dos maiores exemplos de interação com o público foi durante "I Will Follow You Into the Dark" (Plans, 2005), momento em que Ben ficou no palco acompanhado apenas pelo violão e pelo coro de vozes e palmas que percorreram toda a duração da música, e que só perdeu em potência para a força com que o público vibrou em "Transatlanticism", música final do show.

Nick Harmer e Ben Gibbard do Death Cab for Cutie (Foto: Fabricio Vianna)

 

Psicodelia e hits
Liderado pela dupla Andrew VanWyngarden e Ben Goldwasser, o MGMT subiu ao palco no momento em que uma fina garoa começou a cair sob a plateia, mantendo a tradição de fazer shows no Brasil debaixo de chuva.

Com sua psicodelia pop carregada de sintetizadores e uma apresentação peculiar, a banda percorreu um setlist balanceado entre sucessos do primeiro disco Oracular Spectacular (2007) e faixas do mais recente, Little Dark Age (2018), intercaladas com uma ou outra dos dois trabalhos que se encaixam no meio da discografia.

Se movimentando com a calma de quem parecia estar em um ensaio ou na passagem de som, Andrew (o único integrante a de fato andar pelo palco e a puxar palmas e acenos coordenados) cantou acompanhado de uma multidão de vozes os hits de 2007 "Time To Pretend", "Kids" e "Electric Feel", faixas responsáveis pela decolagem da fama do grupo.

Leia nossa conversa com o vocalista do MGMT, na qual ela conta porque não odeio a música Kids

Com o guitarrista vestindo nada mais que um chapéu de mago, uma camiseta preta e cueca boxer, a banda também apostou bastante nos singles do novo disco, como a gótica "Little Dark Age", a progressiva e niilista "When You Die", o pop direto dos anos 1980 "Me and Michael"  e a carinhosa "James".

Durante toda a apresentação, dois telões (um grande de fundo e outro menor logo atrás do vocalista) exibiam animações lisérgicas, nonsense e até cômicas, que acompanhavam de modo coordenado cada uma das músicas.

O show terminou com a garoa um pouco mais apertada, e com a música "The Youth", que fala sobre a mudança da juventude e coincidentemente tem o verso "And in spite of the weather, we can learn to make it together" (independente do clima, podemos aprender a fazer isto juntos).

James Richardson e Andrew VanWyngarden do MGMT (Foto: Fabricio Vianna)