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Por que é extremamente problemático que o rapper T.I verifique anualmente a virgindade da filha? [ANÁLISE]

O músico faz questão de controlar a virgindade de Deyjah Harris em visitas anuais ao ginecologista. Durante os exames, marcados por ele, obriga a filha a compartilhar resultados

Camilla Millan Publicado em 17/11/2019, às 14h00

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Rapper T.I. e filha Deyjah Harris em 2014, no Tony Awards (Foto: Dennis Van Tine/Geisler-Fotopres/picture-alliance/dpa/AP Images)

Na última semana, no dia 5 de novembro, o rapper T.I. declarou algo - no mínimo - polêmico. Durante o podcast Ladies Like Us with Nazanin and Nadia, o músico afirmou que quer assegurar a virgindade de Deyjah Harris, filha de 18 anos dele. Para isso, leva-a ao ginecologista todos os anos para garantir que seu “hímen esteja intacto."

A adolescente ficou bastante constrangida com a situação. Não fez declarações sobe isso, mas deixou de seguí-lo nas redes sociais e curtiu comentários críticos à atitude do músico. No podcast, porém, o rapper garantiu que a menina não se importa que o médico diga se ela é virgem ou não - ele pergunta para ambos se tá tudo bem. Se ela aceita de boa vontade ou pressão momentânea, não se sabe.

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E o mais contraditório nas declarações do rapper são as medidas tomadas em relação ao outro filho dele, de 15 anos, o King. Porque, basicamente, nem há medidas. O garoto - sexualmente ativo - não é alvo da atitude controladora do pai - muito pelo contrário. A justificativa da diferença? "Definitivamente, me sinto diferente em relação a um garoto e a uma garota. Essa é apenas a verdade honesta. Eu não acho que exista um pai por aí que diga algo diferente."

É um dos aspectos mais sexistas de T.I. Mas não é surpresa que ele seja machista - e tenha atitudes erradas em relação a mulheres. É só um reflexo do que acontece em vários locais sociais: fazer o sexo ser, para a mulher, algo vergonhoso, e para o homem, algo necessário. 

Comecemos pelo início: o machismo na música. As próprias letras dão vários exemplos disso. De curtas palavras (como xingamentos do tipo "b*tch," ou "v*dia" em português) à frases inteiras de apoio ao machismo (como o trecho de uma música de Eminem, divulgado esta semana, no qual ele apoia Chris Brown depois de ter espancado Rihanna), a estereotipação e sexualização da mulher estão presentes em diversos estilos musicais.

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Muito além da música, o machismo está na estrutura social há vários séculos. Simone de Beauvoir, filósofa social, explicou isso em 1949, quando definiu a mulher como "o outro" dentro de uma sociedade onde tudo é controlado por homens, e eles também mandam em tudo. Então, é habito retratar o homem como alguém, de fato, e a mulher como algo que não faz parte, ativamente, da estrutura; isso estabelece um falso papel secundário à imagem feminina.

Dessa forma, as ideologias conservadoras e machistas de tratamento à mulher mantém-se vivas. Assim, muitas vezes, expressões culturais refletem esses atos preconceituosos, mesmo que de forma mascarada e escondida: comentários "inofensivos" ("você é inteligente para uma mulher"), piadas de mau-gosto ("loira burra" ou "é culpa da TPM"), palavras ofensivas normalizadas ("p*ta que pariu"), etc.

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No entanto, em declarações como a de T.I., o machismo é explícito e direto. E pior? Dirigido à própria filha. Como se não bastasse, as atitudes do músico caracterizam uma relação abusiva, contando com chantagens emocionais e abuso psicológico.

Não foi justo e nem respeitoso como ele divulgou em detalhes a intimidade da filha, e ainda descreveu como funcionam as consultas médicas feitas anualmente - logo após o aniversário de Deyjah Harris -  para "checar seu hímen." Ele narrou o que acontece: "Vamos até lá, nos sentamos. O médico entra no consultório, mantendo um alto nível de profissionalismo. Ele diz que Deyjah precisa assinar um documento permitindo que ele divulgue as informações do exame para mim. Então eu digo: 'Deyjah, você pode assinar. Tem algo que você não quer compartilhar comigo, por acaso?'"

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Apesar do médico explicar para T.I. que há várias maneiras de se romper o hímen, o rapper não deixa de aplicar o exame rotineiro - e cria desculpas quaisquer para isso: “[Quando eles] dizem: 'Bem, só quero que você saiba que há outras maneiras além do sexo de romper o hímen, como andar de bicicleta, atletismo, cavalgadas e apenas outras formas de atividade física atlética' digo : 'Olha doutor, ela não anda a cavalo, não anda de bicicleta, não pratica esportes. Basta verificar o hímen e devolver meus resultados com rapidez."

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Fora todas as polêmicas que envolvem as declarações do músico, podemos citar as consequências psicológicas devastadoras que o controle sexual pode causar em Deyjah. Marleide Rocha, psicóloga formada pela PUC-SP,  deu uma entrevista à Rolling Stone Brasilsobre os efeitos que essa relação abusiva e controladora entre pai e filha podem acarretar.

Segundo a profissional, todos os extremos entre pais e filhos são nocivos: “Pais extremamente permissivos ou os super controladores tiram do jovem a capacidade de se tornarem indivíduos autônomos, responsáveis por suas escolhas.” 

Marleide também citou outras consequências desse tipo de relação: “O excesso de zelo prejudica o desenvolvimento das noções de certo e errado, escolhas e consequências, compromete a autoestima, gera insegurança, dificuldades nas relações interpessoais, dificuldade na expressão de sentimentos, dentre outros fatores.”

Além disso, ela detalhou a importância de um tratamento adequado. Ao contrário, as consequências podem gerar traços que se repetirão em outras situações: “As experiências vivenciadas no ambiente familiar na infância e na adolescência ficam como uma nota de rodapé da nossa história. Se vivemos relações disfuncionais é bem provável a reprodução desse modelo nas demais relações construídas ao longo da vida.”

Para além de consequências psicológicas, a atitude de T.I. pode afetar uma futura vida sexual de sua filha, Deyjah Harris. Como ponderou a profissional, atitudes como a do rapper podem modificar a compreensão dela acerca do sexo: “[Ela pode entender o sexo] como algo errado, feio, pecaminoso, por exemplo. A dificuldade em impor limites a quem terá acesso ao seu corpo, neste caso, desrespeita a individualidade, a intimidade. O corpo tratado como propriedade do outro com o direito de checá-lo. Ou ao contrário, não permitir a aproximação de parceiros por temer a reprodução do comportamento controlador do pai.”

Tais relações de controle dentro do ambiente familiar não devem ser ignoradas simplesmente por estarem em um círculo íntimo. A maneira como se define a figura de autoridade na família deve ser problematizada e os limites dos papéis, questionados. Como explicou  Marleide, “comportamento agressivo, ameaças, pressão psicológica, falas depreciativas são indícios de que é necessário intervir.”

Estar um relacionamento extremamente tóxico é difícil, mas há soluções. "Primeiro, tentar o diálogo, se for impossível, buscar ajuda especializada. O importante é saber que não se está sozinho e envolver outras pessoas no trato da situação: outros familiares, amigos, terapeuta, escola [...] Para casos mais graves vale a denúncia e busca por atendimento psicológico ou psiquiátrico," finalizou Rocha