Por que o último show de Mick Jones com The Clash terminou em fiasco? Entenda

A banda tocava no US Festival - e ficou transtornada com os cachês altíssimos de David Bowie e Van Halen

Redação Publicado em 17/02/2020, às 15h21

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Paul Simonon, Mick Jones, Joe Strummer e Topper Headon (Foto: AP Images/David Handschuh)

Steve “Woz”  Wozniak foi um dos co-fundadores da Apple, ao lado de Steve Jobs, em 1976. O cara nadava em grana - e era um amante de música. Por isso, em 1982, quando os ânimos da nação estavam apurados pela crise econômica no país, o norte-americano resolveu criar o festival US (ou Unite Us in Song - Nos una na música) - queria que fosse “o Super Bowl dos shows de rock”.

Para a primeira edição, Woz convidou os maiores atos que conseguiu encontrar: The Police, Talking Heads, The B52s, Oingo Boingo, Tom Petty and the Heartbreakers, Pat Benatar, Fleetwood Mac. Mas as maiores atrações do ano tinham seu preço. O ingresso saia a US$ 37,50 (quase US$ 100 hoje). Quase ninguém foi assistir.

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Mesmo assim, Woz não queria desistir. Em 1983, fez mais uma edição do US. Dividiu, dessa vez, os dias em estilos.O primeiro, new wave; o segundo, metal; completando e fechando o festival, rock. The Clash era headliner no primeiro dia. 

Artistas ricos e exigentes

Van Halen era uma das principais bandas do heavy metal em 1983. A década, embora seja totalmente do estilo, ainda veria crescer muita gente. Mas se você quisesse o melhor festival do estilo, não tinha como não ter os Van Halen.

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Por isso, Woz e os organizadores do US não pouparam esforços para levar o quarteto a headliners. Ofereceram a quantia exorbitante de US$ 1 milhão - na época, o cache mais alto da história. Fizeram um acordo, ainda: ninguém ali podia ganhar mais que eles. Por isso, quando David Bowie também recebeu US$ 1 milhão, Van Halen embolsou um cheque adicional de US$ 500 mil.

Foi uma pena que não fizeram por merecer: David Lee Roth chegou três horas atrasado ao festival, extremamente bêbado. Caindo pelos palcos, não conseguia nem cantar direito.

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Em contrapartida, outro astro bem caro: David Bowie. Foi escalado por amor e insistência de Woz. ”Tínhamos todos os horários,” explicou Barry Fey, promotor, ao Far Out. “E Van Halen tinha uma cláusula de contrato que dizia que tinham que ganhar mais que todos. Mas Steve veio e disse: ‘Deus, Barry, eu realmente amo David Bowie.’ Disse que não tinha espaço, para deixar para lá. E ele: ‘Bom, amo o David. Você pode tentar? É meu dinheiro e meu festival.” 

Tentou, tentou, e conseguiu. Não com facilidade: David Bowie estava em turnê pela Europa promovendo o disco Let’s Dance e não voltaria para os EUA em meses. “David me disse 'Teríamos que interromper a turnê, contratar um boing 747 para levar a gente e o equipamento e trazer de volta logo depois,” explicou Fey, “e eu disse para o Steve: ‘David vai te custar US$ 1,5 milhões.’ Ele encolheru os ombros e disse ‘e daí?’. David nos custou US$ 2 milhões.”

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E The Clash?

The Clash enfrentava, em 1983, o dilema de muitas bandas de punk: como conseguir fazer uma grana com o trabalho (de sucesso e consolidado), mas não ser um “porco capitalista”? Para eles, uma solução era participar de eventos em que todo artista doava uma porcentagem do cachê para a caridade. 

Pediram US$ 500 mil para tocar. Então, descobriram que Van Halen e Bowie receberiam três vezes isso, cada um. Transtornados, exigiram que a Apple doasse US$100 mil para caridade, em compensação aos cachês astronômicos. Se não, não tocariam.

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Mesmo assim, subiram ao palco decididos a fazer a pior performance possível - e mais provocativa. A começar pelo atraso de duas horas. Vestiam-se e agiam, também, como quem quer brigar - totalmente hostis. 

O ápice, porém, não foi nada disso: The Clash conseguiu, durante a montagem de palco, projetar em uma tela (algo não combinado com os organizadores) as palavras “THE CLASH NÃO ESTÁ À VENDA.” Era uma crítica ao Bowie -  mas, principalmente, ao Van Halen, que “venderam o rock.”

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Tudo o que conseguiram foi irritar os organizadores e levá-los ao limite. Provocados, quiseram dar o troco. Projetaram, então, uma imagem do cheque de US$ 500 mil que The Clash recebeu para tocar.

Depois disso, veio o caos. Os integrantes da banda ficaram furiosos. Pararam de tocar e foram bater no pessoal que trabalhava no evento - montadores, assessores, todos.

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Quem mais perdeu, porém, foi The Clash. A banda estava em ânimos apurados, e não conseguiu se recuperar do fiasco da apresentação. Quatro meses depois, Mick Jones sairia da banda depois de brigar com Joe Strummer. 

Sendo os “dois cabeças” da banda, não demorou para que tudo desmoronasse. The Clash tentou substituir Jones e Topper Heddon, o baterista que havia saído alguns meses antes. Não deu certo, e a banda acabou de vez em 1986. Em 2002, houve uma reunião - Strummer morreu algumas semanas depois disso.

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Quanto ao US Festival, nunca teve uma terceira edição. Steve Wozniak perdeu US$ 20 milhões nas duas edições do evento - “o backstage pass mais caro da história,” como definiu Berry Fey.