Porto Musical 2011

Evento em Recife discute a presença da música brasileira no mercado internacional em conferências e showcases

Por Antônio do Amaral Rocha, de Recife Publicado em 27/02/2011, às 18h49

Lucas Santtana foi uma das atrações do Porto Musical 2011, em Recife

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Em quatro dias deste final de fevereiro, de 23 a 26, quando a cidade já respira o clima carnavalesco, Recife promove o Porto Musical, evento que nesta quinta edição, uma iniciativa da produtora cultural Melina Hickson, se compõe de 26 conferências e 14 showcases, divididos em três grandes plataformas: a Go Brazil!, tratando do mercado nacional; a Go Digital!, sobre a interação entre música e tecnologia e da indústria criativa e a GO internacional!, com temas ligados à exportação da música brasileira.

O antigo prédio dos Correios, recuperado e transformado no Centro Cultural dos Correios, no Recife Antigo, centro da cidade, é o palco das conferências. Na noite do dia 23, quarta-feira, dia da abertura oficial, o público pôde apreciar o trabalho de dois power trios, cuja performance vem a se somar à nova cena musical do Recife, que se transformou, nos últimos anos, no novo lugar de criatividade da música brasileira. A banda Wassab apresentou um som contemporâneo que rompe barreiras entre a música tradicional e moderna, com uma performance marcada pelo experimentalismo, baseado em baixo, guitarra e percussão bem marcada. A segunda banda a se apresentar, e que vem a comprovar a criatividade da cena recifense, foi o Treminhão, outro power trio que apresenta sonoridades que vão do rock, música erudita, passando pelo jazz, somado à música regional pernambucana. A música do Treminhão se baseia em violão de 12 cordas, guitarra, baixo bem marcado, flautas e bateria.

Na quinta-feira, 24, iniciou-se o ciclo de conferências, a partir das 11 horas da manhã, atendendo às três plataformas propostas: a primeira delas, "Toque no Brasil", apresentou um novo site de relacionamentos envolvendo a música, como um lugar onde o artista poderá divulgar e fazer o marketing do seu trabalho, a partir das ferramentas possíveis na web 2.0, no mesmo formato das redes sociais.

Simultaneamente, a palestra Arpub x Ebu trouxe o encontro da experiência da União das Rádios Europeias com a Associação Brasileira de Rádios Públicas, delineando a divulgação da música brasileira aqui e no exterior, com destaque para os artistas locais, respeitando a diversidade regional e se contrapondo aos pressupostos das rádios comerciais.

Entre as décadas 50 e 70 existiu em Pernambuco uma gravadora regional, a companhia Rozemblit. O seu rico catálogo, hoje fora de mercado, está sendo recuperado através da iniciativa de três pessoas: Frank Hessing (Alemanha), David Buttle (Inglaterra) e Lula Côrtes (Brasil). Este foi o tema de mais uma palestra deste primeiro dia. O público, além de ficar conhecendo uma bela história, pode se divertir com o bom humor do palestrante Lula Côrtes.

A penetração da música brasileira no mercado latino americano, a partir de 1968, se deu através de um show, hoje histórico, de Caymmi, Quarteto em Cy e Vinicius de Moraes na cidade de Buenos Aires. O conferencista argentino, Victor Ponieman, como essa tese, abriu um bem humorado papo, mostrando que para um artista brasileiro conseguir penetrar em outros países de língua espanhola tem que primeiramente ser aprovado pelo público portenho, pois a cidade, desde aquela época se transformou num pólo consumidor da música brasileira de todos os gêneros.

Uma curiosidade foi a apresentação do francês François Pachet demonstrando o software Continuator, que propõe o ensino da música através dessa plataforma. A partir de uma sequência de acordes, o programa é capaz de improvisar o restante e dar continuidade aos acordes propostos.

O músico e curador Benjamin Taubkin relatou a sua experiência exitosa na área de curadoria musical e criação de projetos. Enfatizou de maneira peremptória que o trabalho do curador, que não se ensina em nenhuma escola, nada tem a ver com o trabalho do produtor musical.

Betina Schasse de Araújo deu conferência sobre os pontos fracos e fortes na denominação dos dados usados no mundo musical moderno, abordando as possibilidades de incremento dos metadados, além do nome, gênero e duração, como ponto forte para melhor divulgação e venda.

À noite, no palco armado também no Recife Antigo, na Praça do Arsenal, com um público estimado de cinco mil pessoas, houve a continuação dos showcases, apresentando-se a banda recifense Fim de Feira, com seus cocos, emboladas e repentes eletrificados e bem-humorados. Depois foi a vez da banda carioca Do Amor, com suas referências tropicalistas e rock dos anos 80. O terceiro show da noite trouxe Lucas Santtana, que representa atualmente uma renovação na cansada música baiana, fora dos axés.