Produtor de Bruce Springsteen detalha High Hopes, novo disco do músico

“O fato de serem músicas antigas não diminui a genialidade do álbum”, diz Ron Aniello

ANDY GREENE Publicado em 05/01/2014, às 12h16 - Atualizado às 12h20

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Roberto Larroude

Bruce Springsteen trabalhou com um número pequeno de produtores durante os 40 anos de carreira, então Ron Aniello mal pôde acreditar na sua sorte quando, há alguns anos, foi escolhido para produzir Wrecking Ball, lançado em 2012. Ele ficou igualmente animado quando Bruce o escolheu para avaliar uma pilha de músicas da última década da carreira dele para ver se eles poderiam reuni-las em um álbum.

A Rolling Stone EUA conversou com Aniello (junto ao próprio Bruce) sobre o nascimento extremamente incomum do álbum High Hopes, que chega às lojas dia 14 de janeiro.

Conte sobre a história do disco. Sei que começou como um projeto um pouco diferente.

Eu me lembro que Bruce me ligou no meu aniversário, então foi em 9 de dezembro de 2012. Ele me disse: "Eu tenho algumas músicas. Quero reuni-las". Conhecendo Bruce, achei que fosse apenas conversa. Ele não faz as coisas sem pensar, então eu só concordei: "Ok. Vou pegar as músicas e ouvi-las". Eram demos que ele tinha feito com Toby Scott, músicas mais antigas que tinham sido feitas há um tempo, das quais ele realmente gostava. Ele disse: "Nós vamos colocá-las em forma e ver como ficam". Foi assim que começou, mas o obstáculo maior foi a turnê Wrecking Ball. Ele estava viajando na maior parte do tempo, de modo que não conseguimos nos reunir para resolver tudo. Tudo aconteceu de uma maneira muito incomum. Mas uma vez que começamos e ele começou a descobrir exatamente o que era... Ele levou a maior parte do ano para resolver. Eu não tenho certeza do que ele tinha em mente no início, mas foi com isso que acabamos.

Quando você diz “incomum”, você quer dizer que gravou em intervalos?

Foi incomum o fato de ele estar em turnê. Houve várias conversas na Europa e eu fiz um pouco da gravação via iChat, quando a banda estava na Austrália. Nós não tínhamos a mesma quantidade de tempo que tivemos para Wrecking Ball. Tínhamos intervalos de tempo para fazer e não havia consistência. Fizemos durante as pausas dele. Acho que em algum momento ele estava na Europa há três meses consecutivos, sem voltar para casa nenhuma vez. Fiz o máximo que pude em Los Angeles, e gravamos em Nova York, além das sessões na Austrália. Eu estava lá com as faixas de Brendan [O'Brien] também. Parte disso foi incomum para Bruce.

Muitas pessoas ficaram surpresas pelo álbum ser focado em músicas antigas. Isso te surpreendeu também?

Não. Para qualquer outro artista vivo, é assim que se monta discos. Tipo: “Ah, eu tenho uma música. Ela é ótima”. E daí elas acabam no álbum. Com qualquer outro artista, isso seria completamente aceitável. E não estamos dizendo que é inaceitável para alguns fãs. É só se você ler sites de fãs que você vê as pessoas dizendo: "Ah, são músicas mais antigas".

Mas você tem que entender que tem sua própria história, na minha opinião. Esta é a história do que ele não estava disposto a colocar em álbuns, porque elas não se encaixam. Elas simplesmente não se encaixavam na história que ele estava contando em cada álbum. Na primeira vez que ouvi “Hunter of Invisible Game", pensei: “Meu Deus, essa é uma das boas”. Ele respondeu: “É, ela nunca se encaixou”.

As músicas contam uma nova história no contexto do álbum?

Acho que sim. Você tem uma música como “Frankie Fell in Love”, que me lembra dele e Steve [Van Zandt] juntos. Essa música tem uma das melhores letras que já ouvi dele. É apenas ótima, divertida, uma música rock and roll. E tem essas outras músicas… Talvez não seja uma história linear como nos outros álbuns dele, mas é interessante ver o que ele deixou.

Não estou falando por Bruce, mas parece que ele tem esse tipo de preocupação. É mais relaxado. Montar um romance, como Bruce faz com seus discos, é difícil. Por isso demora tanto tempo e por isso ele não lança tantos discos, mesmo. É apenas muito difícil.

Quando eu o conheci, ele disse: "Você sabe por que não há mais muitos grandes álbuns? Porque é simplesmente difícil". Sabe, você pode ser jovem e a ter uma ideia vinda de pura inspiração, mas isso só acontece uma vez e você tem que fazê-lo de novo e de novo. É difícil. É realmente difícil fazer uma promessa com a primeira música e mantê-la até o fim.

Esse álbum, mais uma vez, é uma coleção de grandes músicas que 99,9% dos artistas vivos liberariam a qualquer momento. Com Bruce, as pessoas estão: "É tudo coisa antiga!". Eu só espero que as pessoas possam apreciá-lo pelo que ele é.

Bruce disse que escreveu um monte de músicas antes de Wrecking Ball, mas suponho ele não quisesse procurar dentre aquelas para esse álbum.

Eram cerca de 30 ou 40 músicas. Elas eram muito únicas para ele, diferente de tudo que eu já ouvi. Isso era o que eu queria fazer originalmente, para ajudar a organizar as ideias ou para procurar alguma inspiração. Essas são músicas lindas, mas nenhuma delas está nesse disco.

Há 12 músicas em High Hopes. Quantas ele considerou antes de reduzir para 12?

Gravamos 20, pelo menos. Ele cortou algumas das minhas favoritas, faixas realmente boas. Ele é obcecado com a sequência, para aonde vão as músicas. O lance com Bruce é que ele aceita a inspiração dele sem questionar, ele não analisa. Mas quando chega a hora de analisar, é quando ele arruma tudo. Em seguida, ele muda as sequências de lugar por meses e meses até que ela fique exatamente do jeito que ele quer.

Eu não vejo isso com qualquer outro artista com quem trabalhe. Geralmente é: "O que é uma boa sequência?". E então: "Ah, o hit parece bom em primeiro. Então, as músicas ruins devem ir no final". Não é assim que Bruce faz. Ele tem uma história para contar. Nós gravamos um monte e no início era um álbum muito mais longo.

Ele fez a mesma coisa com Wrecking Ball. Eu tenho um pedaço de papel com todas as 15, mais ou menos, músicas nele, e ele riscou as últimas quatro e disse: "É isso. Vamos cortar essas quatro". Foi uma facada no meu coração. No final, contudo, ele está sempre certo. Tem que funcionar como um todo. Essa foi uma experiência muito maior, porque foi muito diferente. Foi mais inconstante.

Você gravou overdubs por cima?

Em "Heaven's Wall", nós pegamos a faixa base e colocamos overdubs. É, basicamente, a original, vocal, bateria e baixo. E em "Harry's Place", adicionamos Tom Morello. Tem um momento legal de Clarence [Clemons] também.

Deve ter sido emocionante ouvir o saxofone de Clarence tocando pelos alto-falantes.

Sim, definitivamente foi para mim. É como o momento em que fizemos no Wrecking Ball e ouvimos solo de Clarence. Eu nunca vou esquecer como foi tocar aquilo para Bruce. Com "Heaven's Wall", o que é fascinante para mim é que é uma música ainda mais antiga. Eu acho que é um álbum da década de 1990, não tenho certeza. Eu acho que é apenas a banda tocando em uma sala. É assustador. Danny [Federici] também está lá. Tínhamos duas guitarras, mas acabamos usando apenas uma.

A maneira como eles transferiram a música para o digital, não há nenhuma partitura e você não sabe quem está tocando o que. Eu não sabia quem estava tocando o que, e fiz alguns retoques. Mas essa é a E Street Band. A faixa é linda e assustadora. Eu acho que é a única na qual todos eles estão tocando.

Quando eles foram para a Australia, eles tinham intenção de gravar lá, ou foi espontâneo?

Eu acho que foi uma coisa espontânea. O bom foi que Nick DiDia estava lá. Ele é o engenheiro de Brendan, que se mudou para a Austrália. Pode ter havido conversa de fazer o álbum mais cedo naquela época, mas eu não lembro. Eu não me envolvi nos aspectos práticos do que eles estão pensando em relação ao lançamento, mas eu sei que eles estavam tentando acabar.

Bruce e eu estávamos trabalhando incansavelmente, apesar da comunicação ser um enorme obstáculo entre nós, quando ele estava em turnê. Mas um dia antes de ele voar para a Austrália, ele veio para Los Angeles. Estávamos fazendo mixagens e ele estava posando para as fotos, também. Ele estava trabalhando pra caramba. Eu nunca vi alguém da idade dele trabalhando daquele jeito. Ele passou, em um dia, 15 horas no estúdio. Nós gravamos "The Ghost of Tom Joad" com Tom Morello.

Eu acho que o que aconteceu foi que “High Hopes” veio e a banda estava lá e eles tinham aquele estúdio, então apenas decidiram gravar duas músicas. Eu estava ouvindo online. Não fiz parte da sessão. Estava ouvindo via Knifecast, que é um programa que usamos pelo iTunes no qual você pode ouvir qualquer lugar do mundo. E daí para os overdubs e tal, eu estava no iChat conversando com os músicos. Então, fizemos via satélite ou algo assim. Foi um álbum muito interessante, muito moderno.

Conte sobre um dia normal de gravação com Bruce no estúdio, na casa dele.

Ele chega por volta de 11h ou 12h. Nós damos o que temos e ouvimos. “Ok, ok, essa é uma boa ideia. Vamos fazer isso e aquilo.” Ele vê os instrumentos dele e adiciona isso e aquilo.

Isso foi um pouco diferente de Wrecking Ball, porque é um álbum orgânico, então trazíamos o Max para tocar bateria. Todo dia ele me dava uma lista de coisas e eu anotava. Quando ele começava a falar, eu começava a anotar. Eu tentava refinar o conselho dele sobre a música para tentar fazer dar certo para ele. Nós tocávamos a música de novo e de novo até chegar em algum lugar.

A música "Dream Baby Dream”, por exemplo. Eu tinha algumas versões dessa música e ele estava, tipo: “Isso está bom, mas ainda não chegou lá” ou “Está bom. Você está muito perto”. No dia seguinte, ele dizia: “Ah, está terrível. Jogue fora”. E eu dizia, “Vai, eu amo essa música. Eu preciso entregar essa música para você”. Nós passávamos de novo e de novo. Você nunca sabia o que ele estava pensando. Não é como quando ele tinha 21 e passava 16 horas no estúdio sem comer. Ele não precisa fazer isso agora. Ele tem um estúdio em casa e é confortável para ele.

É uma grande honra ser chamado para um segundo disco. Ele poderia obviamente ter qualquer produtor do mundo se ele quisesse.

Sim, obviamente. É parte das minhas preces de agradecimento todas as noites. “Obrigado, Bruce Springsteen, por ter me chamado de volta.”