Produtor Geoff Sanoff fala sobre a participação dele no Converse Rubber Tracks

Rolling Stone Publicado em 14/12/2015, às 19h28 - Atualizado às 19h45

Geoff Sanoff
Reprodução/Just Managing

O aclamado produtor e engenheiro de som Geoff Sanoff, vencedor do Grammy e responsável por discos de nomes como Elvis Costello, Green Day e John Legend, foi um dos convidados do projeto Converse Rubber Tracks para colaborar nas gravações dos artistas selecionados pela iniciativa para gravar em estúdios lendários ao redor do mundo.

Sanoff esteve no Brasil, mais especificamente na Toca do Bandido, no Rio de Janeiro, onde trabalhou como engenheiro de som das sessões do Sound Bullet, Cândido, Indiscipline e MC Coro, que também contou com a colaboração do ídolo MV Bill nas gravações.

Leia abaixo a entrevista de Sanoff, na qual ele relata os melhores momentos da experiência.

Você declarou que nunca tinha visto nada como a atual cena musical brasileira. Conte mais sobre o que viu, o que te impressionou?

A imagem da cena carioca com a qual fiquei ao trabalhar com as bandas no Rio e conversando com as pessoas me lembrou muito a cena indie “faça você mesmo” da qual fiz parte nos Estados Unidos no fim dos anos 1980 e começo dos 1990. Não estou dizendo que a música é parecida, mas a energia e a determinação de fazer as coisas acontecerem de forma local e independente são bastante similares. Em vez de ficarem parados, esperando que alguém influente assine com eles ou que um contrato surja de alguma maneira mágica que trará fama e fortuna, esses artistas estão assumindo o controle de suas próprias oportunidades, agendando shows, guardando dinheiro para gravar e criando uma cena para outros também participem daquilo. Pelo que pude ver, todo esse trabalho pesado está dando resultado! Um “movimento” que vi no Rio se chamava _A Cena Vive. O conceito começou depois que Felipe Rodarte, que é uma das pessoas mais importantes dentro da Toca do Bandido, percebeu após o primeiro Converse Rubber Tracks no Brasil que havia uma fome de participação, mas nenhum movimento central organizando e ajudando as bandas a crescer. Ele assumiu a responsabilidade de fazer com que as coisas saíssem do papel cedendo parte do espaço do Toca, antes utilizado para armazenamento, e transformando aquilo em uma área de performance. Ali, ele passou a receber bandas locais que tocavam ali e providenciava que uma conhecesse a outra. Abrigar a cena não somente ajudou o estúdio como também ajudou a cena a crescer de uma forma que antes não parecia possível. E eu tive a mesma impressão com a cena de hip-hop em Fortaleza.

Quais qualidades de cada artista brasileiro que impressionaram mais?

De forma geral, eu diria que o tema em comum entre as bandas era a determinação delas de fazer música e a disposição de trabalhar duro e fazer sacrifícios para que pudessem ser ouvidas. Morando na atual capital hipster do mundo (Brooklyn, em Nova York), é fácil se tornar uma pessoa descrente a respeito de novas bandas que se mudam para a região e tentam “chegar lá”. Significa algo diferente – e, na minha cabeça, mais real – para os músicos que conheci no Brasil. A experiência foi ótima para refrescar minha memória a respeito do valor da música. Além disso, todo mundo com quem eu trabalhei sabia tocar! Não tinha um preguiçoso ali no meio.

Especificamente, eu amei o envolvimento do Indiscipline. Eles realmente levaram emoção para a gravação e isso transpareceu. Aquelas moças têm coragem e poder e são muito, muito amigáveis. Há um contraste muito forte da personalidade delas e o tipo de metal que produzem.

O Sound Bullet é um ótimo exemplo de um dos sucessos em ascensão da cena carioca. Eles são muito bem-resolvidos musicalmente e eu queria muito ter tido a oportunidade de vê-los ao vivo.

A Cândido parece formada pelos irmãos mais novos do Sound Bullet, animados, energéticos e recém-formados na escola, pareciam estar prontos para dominar o mundo. É ótimo ver tanta dedicação vindo de músicos tão jovens.

Com o MC Coro, um rapper e cantor, mais do que músico, eu fiquei particularmente impressionado com o que entendi do conteúdo das letras e rimas incrivelmente positivas. Esse é um dos caras mais legais e decentes com quem já tive o privilégio de dividir um estúdio. Você não dá valor para a sorte que tem até que tem a oportunidade de trabalhar com um cara como Coro. Ele faz com que você se sinta valorizado e dá o melhor dele. Ele estava trabalhando nas faixas desde meses antes da gravação e ele estava totalmente pronto. Todo mundo no estúdio sentiu a energia que ele trouxe. Foi uma ótima forma de encerrar a experiência.

É um cliché, mas você aprendeu muito com eles? Professores estão sempre dizendo o quanto aprendem com os estudantes e, sendo você o mais experiente em cada estúdio, você era como o “professor” da situação.

Voltei para casa exausto de ter trabalhado por tantas horas todos aqueles dias seguidos, mas também foi revigorante por me lembrar das razões pelas quais eu comecei a trabalhar com música e da sorte que eu tenho de poder participar desses momentos de outros músicos. Foi um privilégio poder trabalhar com todo mundo com quem trabalhei. Acho que a lição que aprendi e trouxe para casa é a universalidade da música e o quanto ela pode ser uma ferramenta de comunicação poderosa.

Por outro lado, qual lição eles aprenderam que você julga ser essencial para quem está começando?

Continue fazendo o que você está fazendo. Eu acho que para eles, a coisa mais importante que aprenderam, provavelmente, além da experiência adquirida com o processo de gravação, foi que eles precisam persistir. Eu espero que eles tenham ido embora mais confiantes de que são bons o suficiente e com um senso de empoderamento que diz que eles merecem a chance de serem ouvidos.

Como você vê uma iniciativa como essa da Converse em um momento em que o Brasil enfrenta uma crise econômica e gravação de estúdio não está exatamente na lista de prioridades das pessoas (mesmo quando a banda é seu emprego principal)?

Com a demolição da indústria musical nos Estados Unidos a ideia de que a música precisa de patrocínio, que é uma ideia muito antiga, parece estar vindo à tona novamente. É algo que nunca deixou o mundo da música clássica, mas no rock e no hip-hop, áreas em que os artistas podem ganhar muito dinheiro, não é algo óbvio – ainda que a maioria dos artistas não ganhe, de fato, muito dinheiro. Então, sejam na crise no Brasil ou os restos da indústria nos Estados Unidos, o patrocínio às artes é tão necessário agora quanto sempre foi. O fato de a Converse não pedir nada de volta dos artistas que participam do programa é o que destaca o Rubber Tracks. Para ser sincero, fiquei com um pé atrás, a princípio, com uma multinacional de tênis sendo tão altruísta, mas vendo de perto tanto no Brooklyn quanto no Brasil o quanto essa chance representa para as pessoas, e vendo que o compromisso da Converse de fazer tudo pelas razões vinha de cima, fico feliz de ter feito parte.

Como eu já falei quando fiz uma referência aos hipsters do Brooklyn, essa experiência significa algo incalculavelmente diferente para os músicos do Brasil em relação aos de NY. Os obstáculos são muito maiores para se trabalhar em um estúdio como o Toca e com os profissionais do nível dos que estão envolvidos no Converse Rubber Tracks. Precisa de mais trabalho e comprometimento para ter essa oportunidade no Brasil. E quando você vê o quanto todo mundo no país fica agradecido por ter essa chance (e percebe o quanto alguém como Coro está arriscando de verdade) tenho que dar um crédito imenso à empresa por ter criado e sustentando algo assim. Voltei para casa tão animado que acabei escrevendo uma carta para Geoff Cotrill, a mente por trás do programa e CMO da Converse, pois queria que ele soubesse que a criação dele está realmente fazendo a diferença na vida das pessoas. Ele escreveu de volta dizendo que foi a melhor carta que já recebeu e preciso dizer que foi uma das melhores que já quis escrever. Não é sempre que você pode fazer parte, de verdade, de ajudar a mudar a vida de um artista. Essa conexão e esse momento... a sensação é de que isso realmente importa.