Qual é a importância do breaking nas Olimpíadas - e o que isso muda para o movimento cultural

No dia 4 de dezembro, o breaking foi incluído nos Jogos Olímpicos de Paris - e a Rolling Stone Brasil conversou com os dançarinos FaB*Girl e Pelezinho para refletir sobre as possíveis mudanças para o movimento

Camilla Millan I @camillamillan Publicado em 17/12/2020, às 07h00 - Atualizado às 10h00

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B-Boy Ronnie Abaldonado durante finais do Red Bull BC One, em 2013 (Foto: Romina Amato/Red Bull via Getty Images)

Criado pelas comunidades pretas e latinas no bairro do Bronx, em Nova York, o breaking nasceu na década de 1970 - e foi uma longa trajetória até o marco mais recente para o movimento: as Olimpíadas em Paris.

No dia 4 de dezembro, o Comitê Olímpico Internacional (COI) confirmou a inclusão do breaking no programa dos Jogos Olímpicos de Paris-2024 - uma decisão que certamente impacta o movimento, e merece ser refletida, principalmente partindo da história.

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Desde a criação do breaking, a dança possibilitou que muitos jovens se distanciassem da violência, juntando-se em crews (grupos de dançarinos) para batalhar e trocar vivências. Quando chegou ao Brasil na década de 1980, não foi diferente.

Praticado inicialmente nos arredores da estação São Bento de metrô, em São Paulo, a dança se espalhou, uniu jovens e mostrou toda a potência da cultura. Afinal, o breaking é um dos pilares da cultura hip-hop.

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50 anos depois do início do movimento, ele foi anunciado como uma das categorias das Olimpíadas, mas o que isso significa? Afinal, qual é a importância disso e o que vai mudar?  

A importância das Olimpíadas - e a relevância do que veio antes

“É mais uma porta que se abre, e será importante para nova geração, principalmente porque vai ter uma visibilidade a mais, algumas pessoas vão entender mais um pouco o que a gente faz e vão entender que o breaking pode mudar a vida algum jovem. Aconteceu isso comigo, mas não precisou ter as Olimpíadas”, explicou o b-boy Pelezinho em entrevista à Rolling Stone Brasil.

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B-boy Pelezinho (Foto: Kien Quan)

Pelezinho é b-boy há mais de 20 anos, e foi o primeiro dançarino brasileiro a disputar o campeonato mundial Red Bull BC One - um dos mais importantes do movimento. Atualmente, ele é patrocinado pela Red Bull, e também faz parte de direção artística, criando projetos relacionados ao breaking e à cultura hip-hop. 

Segundo ele, a inclusão da dança nas Olimpíadas é um marco que dará oportunidades inéditas às novas gerações: “Isso vai agregar bastante, vai ajudar as novas gerações da periferia, nas favelas e nos bairros. Tenho certeza disso, porque é como venho falando… Desde o anúncio do breaking nas Olimpíadas, olha o que está acontecendo nos veículos de comunicação do Brasil e do mundo”.

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De fato, o momento é um marco histórico. Contudo, não é certo que o anúncio levará a alguma mudança no movimento - e a b-girl Fabiana, também conhecida como FaB*Girl, refletiu sobre o assunto em entrevista à Rolling Stone Brasil

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FaB*Girl (Foto: UrbanphotoDF)

“Muitas pessoas estão vendo isso como uma grande oportunidade de ascensão profissional para jovens de todo mundo, que vai 'salvar vidas', como se já não fizéssemos isso desde que breaking é breaking. Eu particularmente prefiro esperar o pós-olimpíadas para dar um prognóstico mais assertivo. Sendo bem cética,  em quatro anos pode haver mudanças pontuais, mas não estruturais, pois temos dificuldades de infraestrutura para tantos outros esportes, imagine para o breaking, que acaba de chegar nas olimpíadas”.

Fabiana “FaB*Girl” Balduína é pesquisadora da dança desde 2001, e dois anos depois, ela fundou o inédito grupo de breaking formado exclusivamente por mulheres de Brasília, o BSBGIRLS. Atualmente, lidera a Drop Education, primeira escola híbrida de breaking, que prepara b-girls e b-boys para competições, e também foca em dançarinos que querem vivenciar o movimento sem finalidade profissional. 

Como vai ser nas Olimpíadas?

Antes de grandes competições em arenas e palcos, a essência do breaking vem das cyphers. O local é, resumidamente, um círculo formado por b-boys e b-girls no qual dançarinos ocupam o centro para dançar - e ele pode ocorrer em qualquer lugar, como na calçada, ao lado do metrô e em festas. 

A cypher, ao contrário das grandes competições, não tem limite de pessoas ou de tempo, e ela é um espaço aberto para socialização, troca de energia e expressão no qual não todos podem participar. Contudo, ela também pode ser um espaço de batalha entre dançarinos, assim como o formato pode ser usado para qualificação dos dançarinos em competições.

FaB*Girl falou um pouco sobre a cypher e o que deve mudar nas Olimpíadas: “Nos eventos de breaking comumente quem compete aproveita as “cyphers” para dançar, e dançam por muito mais tempo do que nas competições, por não ter a pressão de competir, apenas expressão ou racha para tirar uma diferença”.

 
 
 
 
 
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A dançarina explicou que as cypher não devem estar presentes nas Olimpíadas: “É um dos aspectos que certamente deve mudar, já que exige bastante energia do corpo e essa deve ser direcionada para o grande show, a competição. No mais, acredito que segue o formato habitual com competidoras/es, jurades, critérios de avaliação e premiação”.

Ao considerar os diversos critérios de avaliação, o formato dos Jogos Olímpicos para o breaking deve ser um contra um, como sugeriu b-boy Pelezinho: “Pelo pouco de informação que tenho, sei que dentro das Olimpíadas será um versus um, homem e mulher. Então, dezesseis melhores dançarinos e dançarinas do mundo com jurados, DJ e MC”.

Os vários lados das Olimpíadas

Apesar de ser um grande marco histórico para o movimento, a inserção do breaking nas Olimpíadas de Paris tem dividido b-boys e b-girls. Desde o anúncio do COI, um amplo debate tomou conta das redes sociais: se o breaking é dança, por que está nas Olimpíadas? Será que os Jogos Olímpicos vão agregar ou homogeneizar o movimento? 

Alguns dançarinos defendem que a arte passa por transições e evoluí, sendo as Olimpíadas um capítulo a se celebrar na história do breaking, mas que não significa o apagamento da essência do movimento. 

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“É natural vir a evolução, certo? Não adianta nada uma galera ficar falando 'sou breaking original, danço no papelão até hoje, levo rádio até hoje'. Isso faz parte da nossa essência, faz parte da cultura, mas é natural acontecer certas transições. Nem toda nova geração vai fazer o que alguns caras fizeram na década de 1980”, explicou Pelezinho.

 
 
 
 
 
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Mais do que isso, os dançarinos não são iguais enquanto o objetivo com o breaking. O movimento é complexo, podendo ser focado em competições, aulas, lazer, apresentações e até intervenções artísticas. Um exemplo é o grupo Zumb.boys, que usa a dança, entre elas o breaking, para a pesquisa cênica, comunicação, desenvolvimento de reflexões e vivências.

Portanto, nem todos os b-boys e b-girls focam na competição, mas para aqueles que o fazem, as Olimpíadas são uma grande oportunidade.

“O breaking faz parte de uma cultura e cada dançarino tem seu lifestyle de vida. Alguns querem competir, outros não. Os que querem vão dançar o breaking deles, praticar, se preparar, condicionar, vão para uma academia e fortalecer,  porque quando chegar a oportunidade dele ir para um evento como esse, de nível, ele tem que estar preparado em todos os sentidos: mentalmente, fisicamente, e, principalmente, a dança dele”, explicou Pelezinho.

Os Jogos Olímpicos são, de fato, um evento muito importante, mas o breaking não se resume a isso. Pelezinho vê o movimento, principalmente, pelo âmbito artístico: "Nunca podemos esquecer... Por mais que o breaking esteja indo para as Olimpíadas, ele faz parte de uma cultura - e ela é dança. Breaking é dança".

Para FaB*Girl, o breaking nunca deixará de ser arte, independente das Olimpíadas: “Gosto de pensar que agora teremos uma nova vertente, uma nova possibilidade de atuar com o Breaking. Com isso, adotei o termo “Art-Sport” para minimizar um pouco os conflitos que estamos nos deparando. É um híbrido onde cada pessoa vai escolher em qual vertente atuar”.

Afinal, a arte não é uma só - ela é complexa. E, como explicou a b-girl, foi levando isso em consideração que o COI incluiu a modalidade nas Olimpíadas: “A intenção era de levar uma dimensão mais urbana e artística ao esporte, ou seja, o interesse é agregar valor artístico ao esporte e não o contrário. No entanto, sabemos que algo novo sempre gera muito conflito geracional e estranheza”.

O que isso muda?

O debate sobre o breaking nas Olimpíadas também se estende para outros tópicos - e isso porque a mudança e o aumento de oportunidades não é algo certo, principalmente no Brasil. O movimento, assim como outras artes periféricas, sofre com o preconceito, carece de infraestrutura e recursos. Portanto, não dá para tratar o acontecimento de forma utópica. 

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Jacob "Monsta" Goodridge e Pelezinho (Foto: Romina Amato/Red Bull via Getty Images)

Apesar dos possíveis benefícios de estar nos Jogos Olímpicos, uma das grandes questões é se isso vai melhorar a situação atual do movimento. 

“Ficam achando que só porque agora também temos a titularidade ‘esporte’, jovens serão beneficiadas/os e haverá uma mudança enorme e imediata. Temos problemas estruturais graves na nossa sociedade que fazem com que jovens das periferias, a maioria preta e parda, tenham dificuldade de acesso, passem por violência constante e recriminação”, disse FaB*Girl.

Segundo a b-girl, a questão principal é a incerteza da mudança. Só porque o breaking está nos Jogos Olímpicos, não significa que o cenário atual de falta de recursos vai mudar: “Sei muito bem que a galera vai dar mais que o sangue por isso, na arte sempre foi assim. Para as Olimpíadas, com o suporte adequado, podemos voar mais alto, mas não sei se isso vai acontecer, se o apoio vai chegar onde precisa chegar”.

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