Quando Michael Jackson realmente se tornou Michael Jackson

No final dos anos 1970, o príncipe do pop era um ícone adolescente prestes a desaparecer - até que encontrou o próprio som

Redação Publicado em 26/09/2020, às 13h00

Michael Jackson se apresenta no "American Bandstands 50th...A Celebration" em abril de 2002 (Vince Bucci/Getty Images)
Vince Bucci/Getty Images

O maior sucesso dos Jacksons em 1979, "Shake Your Body (Down to the Ground)", começa com um tremor nos pratos, um piano grave e o baixo deslizando de um alto-falante para o outro. Tito Jackson experimenta sequências em staccato na guitarra. E então Michael Jackson solta os primeiros gritos e suspiros de sua voz adulta, nova em folha. Está vendo aquela garota ali?

Michael não consegue dizer se ela repara nele, se ela o reconhece, se ela até mesmo se lembra de que ele fazia parte de um grupo infantil chamado Jackson 5. Tudo o que ele sabe é que precisa chegar perto, então ele desliza até ela na pista de dança com alguns dos melhores versos iniciais da música disco em todos os tempos: "I don't know what's gonna happen to you, baby, but I do! Know! That! I! Love ya!" [Eu não sei o que vai acontecer com você, querida, mas eu sei/ que / eu / te amo!].

+++LEIA MAIS: Michael Jackson tinha várias dívidas quando morreu - e a quantia é maior que você pode imaginar

Essa música chegou ao sétimo lugar das paradas no último trimestre de 1979 e foi mais do que o ponto de transição da carreira de Michael Jackson - sob muitos aspectos, ela é o ponto de transição da música pop nos últimos 40 anos. Se houve um momento em que Michael cresceu e se transformou em Michael Jackson, foi esse.

Em "Shake Your Body", ele soa to- talmente confiante - embora fosse um astro infantil muito assustado, emocionalmente devastado e abatido, cujo último grande sucesso ocorrera anos atrás - compondo e produzindo sua própria música pela primeira vez. Ele não sabia, mas estava a apenas um ano de Off the Wall, o disco solo que fez dele a criatura mais querida e desejada do universo pop.

+++LEIA MAIS: 8 músicas pop que ganharam versões metaleiras bem divertidas - e bizarras: Michael Jackson, Frozen e mais

Os anos disco foram o único período em que Michael Jackson teve relativa tranquilidade - pela última vez em sua vida, ele era apenas mais um famoso. Qualquer que fosse o critério, ele estava levando uma vida exuberante, em uma fantasia hollywoodiana: fazendo amizade com estrelas como Elizabeth Taylor e Liza Minnelli, representando o Espantalho em O Mágico Inesquecível, com Diana Ross, saindo com Tatum O'Neal, dançando no Studio 54.

Era um menino estranhamente inocente na época da luxúria tipo Boogie Nights - Prazer sem Limites[filme de 1997], intocado por sexo ou drogas, apesar da complacência maníaca em torno dele, uma testemunha de Jeová perdida no templo do prazer. Seu zoológico particular cresceu da mesma forma que sua coleção de amigos famosos; ele provavelmente era o único virgem na agenda de Freddie Mercury. Todos gostavam de ter aquele garoto por perto - mas ninguém tinha como saber que aquela fase era só o aquecimento.

+++ Leia Mais: Michael Jackson decepcionado, anões com drogas? Os maiores mitos sobre as festas de Freddie Mercury

Os dois discos dos Jacksons que surgiram nesse período, Destiny, em 1978, e Triumph 1980, são clássicos que ofereceram um vislumbre fascinante de Michael experimentando suas ideias em um ambiente familiar, inventando o som que explodiria em Off the Walle Thriller.

Mas eles são também um documento de sua identidade inquieta como um dos irmãos Jackson aprisionado na armadilha dos negócios familiares, um mega-astro forçado a continuar fingindo que é a penas mais um membro da banda, ainda morando na casa cercada de grades, no condomínio de seu pai.

+++ LEIA MAIS: Elton John lembra de Michael Jackson como "uma pessoa perturbadora" em autobiografia

Perto de 1973, os sucessos secaram para o Jackson 5, e os garotos foram dados como acabados. Quem quer o chiclete de ontem? O sucesso no retorno, "Dancing Machine" - que chegou ao segundo lugar em 1974 -, deve ter parecido pura sorte para a velha guarda da gravadora Motown, mas provou ser profético.

O som disco era novo em 1974, e "Dancing Machine" apresentou ao mundo o estilo robô, que os Jacksons levaram ao circuito de talk-shows da TV, dançando-o com Cher e no The Merv Griffin Show.

Os Jacksons trocaram a Motown pela CBS Records em 1975, deixando para trás o "5", pois Berry Gordy afirmou que o nome era propriedade dele. Os recém renomeados Jacksons também deixaram para trás Jermaine, que tinha se casado com a filha de Gordy e continuara na Motown para começar sua carreira solo.

+++LEIA MAIS: Por que Notorious B.I.G quase chorou quando trabalhou com Michael Jackson?

Com "Dancing Machine" como estratégia de fuga, parecia que os Jacksons estavam se preparando para se tornar um fenômeno familiar pop bem fofinho, como The Sylvers, DeFranco Family ou Captain and Tennille. Eles foram ao The Carol Burnett Show para apresentar seu novo - mas já qualificado - integrante: Randy, o caçula dos irmãos Jackson e um talento musical florescente.

Eles também tiveram um par de fracassos com Gamble e Huff, produtores de soul da Filadélfia, que escreveram canções para os rapazes e só permitiram que Michael Jackson compusesse duas músicas por álbum.

O álbum The Jacksons tem alguns bons momentos - o sucesso "Enjoy Yourself", que chegou ao Top 10; o funkrock "Think Happy", com sua guitarra pré-"Beat It"; estreia de Michael na composição, "Blues Away"- até a letra S na capa poderia ser confundida com dando aos fãs uma dica de quem eram aqueles caras.

+++ LEIA MAIS: Revelações de Michael Jackson: namoradas secretas, planos de fuga e paranoia

A pressão para salvar o império da família estava esmagando Michael , agora um adolescente alto, desajeitado e mudando de voz. Alguém que fosse à mansão dos Jackson pela primeira vez perguntaria próprio se sabia onde estava o "pequeno e adorável Michael".

Os irmãos Jackson tiveram um programa de variedades na rede de TV CBS, mas ele durou pouco. No início de 1977, Michael conversou Andy Warhol para a revista Interview. "Ele está bem alto agora, mas tem uma voz realmente aguda", escreveu Warhol em seu diário. "Ele não sabia nada a meu respeito - achou que eu fosse poeta ou coisa parecida".

Os Jacksons finalmente assumiram o controle artístico em Destiny, compondo e produzindo álbum todo, com exceção do primeiro single, "Blame It on the Boogie", composto por um obscuro cantor inglês de disco chamado (por incrível que pareça) Mick Jackson. "Boogie" teve um sucesso razoável, mas o álbum realmente pegou fogo alguns meses depois, quando "Shake Your Body", de Michael e Randy, começou a sacudir milhões de corpos. Destiny foi um trabalho fantástico, combinando o implacável avanço da disco com o calor romântico da voz de Michael.

 +++ LEIA MAIS: Lisa Marie Presley relembra divórcio com Michael Jackson: ‘Eram as drogas e vampiros ou eu’

Antes de começar a trabalhar com colaboradores importantes como Quincy Jones ou Rod Temperton,  Michael tinha descoberto o som de Michael Jackson. E as baladas - alguém reparou que elas eram um grito de socorro?

Em "That's What You Get (For Being Polite)" e "Bless His Soul", ele continua cantando sobre bons rapazes que são explorados por todos à volta deles. Na música-título, ele anseia por fugir ("I've tasted the city life, and it's not for me / Now I do dream of distant places" [Eu experimentei a vida na cidade, mas não é para mim / Agora sonho com lugares distantes]). Comovente, vindo de um rapaz de 20 anos.

O astral do álbum é ingenuamente alto. A contracapa tem a pintura de um pavão, com um poema escrito por Michael e Jackie: "Of all the bird family, the peacock is the only bird that integrates all colors into one, and displays this radio of fi re only when in love. We, like the peacock, try to integrate all races into one through the love of music" [De toda a família das aves, o pavão é o único pássaro que combina todas as cores em uma, e só exibe esse raio de fogo quando ama. Nós, como o pavão, tentamos unir todas as raças em uma por meio do amor à música].

+++Leia mais: Sheryl Crow viu "coisas bem estranhas" durante a turnê de Michael Jackson que participou

Ainda codirigidos pelo pai, os irmãos dedicam a gravação à mãe e, na imagem da capa interna, posam na mesa de edição do estúdio. Todos sorriem confiantemente, exceto Michael, que parece relutante.

Menos de um ano depois, Off the Wall fez de Michael o maior astro da música pop, mas ele ainda estava preso a um grupo que não podia abandonar - eles tinham o mesmo sangue, e não só isso. Assim, imediatamente após Off the Wall, ele voltou ao estúdio para gravar Triumph, fazendo de conta que era apenas mais um dos irmãos. Dá para perceber a confiança dele surgir em Triumph - é o mesmo que notar como Al Pacino está diferente nos dois primeiros filmes O Poderoso Chefão, sabendo-se que ele teve um sucesso solo no intervalo, com Serpico.

+++LEIA MAIS: Leaving Neverland: diretor conta por que não sentiu medo das ameaças feitas pelos fãs de Michael Jackson

Os Jacksons voltaram à música disco nesse trabalho - os singles tiveram enorme sucesso nas paradas de R&B, mas nunca chegaram aos 20 primeiros lugares do pop, como se fosse uma retribuição ao dedicadíssimo público negro que continuara a ouvi-los quando a massa pop tinha desistido.

"Can You Feel It" sugere que eles ouviram muito rock progressivo, como se tivessem jogado alguns álbuns da banda Electric Light Orchestra em um liquidificador, com pitadas de Earth, Wind and Fire. "Heartbreak Hotel" (uma canção original, não uma cover de Elvis Presley, mais tarde renomeada para "This Place Hotel") é um aperitivo do frenesi paranóico das tietes que Michael em breve exploraria como uma das marcas registradas de suas composições.

+++ LEIA MAIS: Como Michael Jackson tentou comprar ossos do Homem-Elefante - e ganhou imagem de 'esquisitão' por isso

Depois de Thriller, a família, naturalmente, voltou a entrar em contato. Em 1984, qualquer pedaço de plástico com um pouco da magia de Michael Jackson era sucesso garantido: Jermaine levou Michael para cantar em "Tell Me I'm Not Dreamin", a irmã Rebbie emplacou um sucesso chamado "Centipede", e Kennedy William Gordy, velho amigo da família, mais conhecido como Rockwell, contou com a estrela de Michael na brincadeira "Somebody's Watching Me".

Mas os fãs se indignaram com a turnê e com o álbum Victory assim que eles foram anunciados - parecia que Jackson estava sendo forçado a participar de um projeto familiar e que os irmãos estavam atrapalhando a atuação dele. Dava para ver a insolência deles no onipresente comercial da Pepsi: os outros Jacksons achavam que eram tão bons quanto Michael.

+++ LEIA MAIS: O dia que Michael Jackson foi enquadrado pela polícia por usar máscara de ski no supermercado

Victory acabou sendo uma enorme bagunça, motivo de chacota desde o dia do lançamento. Além do alegre dueto com Mick Jagger, "State of Shock", Michael mal aparecia no disco. Ele também cantou com Jermaine em "Torture", de Jackie, e contribuiu com a descartável "Be Not Always". Michael chegou a trabalhar com Freddie Mercury, do Queen, em faixas para Victory e há uma versão demo em que eles cantam "State of Shock" juntos.

Os Jacksons não tocaram músicas de Victory em sua badaladíssima turnê, mas viraram manchete pelos preços estratosféricos dos ingressos (US$ 30!), e todo o projeto virou um símbolo da arrogância dos famosos. O pior é que a única celebridade do grupo não era arrogante o bastante para dizer não.

Victory representou o fim de linha para os Jacksons. O único outro álbum que fizeram foi o ignorado 2300 Jackson Street, de 1989. Destiny e Triumph foram ofuscados pelo rolo compressor solo, e enterraram tesouros que a maioria dos fãs de Michael nunca ouviu. Sob vários aspectos, representavam o som de Michael lutando para se libertar do passado. Podia-se ouvir em sua voz que ele sabia o que era se sentir rejeitado e abandonado pelo mundo da música. Podia-se ouvir, também, que ele estava determinado a que aquilo nunca mais acontecesse.


Texto originalmente publicado na edição 45 da Rolling Stone Brasil


+++ MANU GAVASSI: 'SE A MÚSICA SÓ FOR UMA FÓRMULA, É VAZIA E NÃO EMOCIONA' | ENTREVISTA ROLLING STONE