Quase 18 é a comédia adolescente que fala o que as outras ignoram: depressão, problemas com a mãe e desamparo [ANÁLISE]

A protagonista, Nadine, é impulsiva e destrutiva - um retrato de boa parte das pessoas nessa idade

Yolanda Reis Publicado em 02/06/2020, às 07h00

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Quase 18 (Foto: Divulgação / Grace Films)

“Por que sou tão grotesca? Ouvi minha voz, ontem, num áudio, e pensei: ‘Como alguém poderia ficar te ouvindo?’ Odeio  meu rosto. Odeio como fica quando falo ou masco chiclete.  Não me deixa mais mascar chiclete, tá bom? E aí… O pior pensamento veio: preciso passar o resto da minha vida comigo.” Assim se descreve Nadine (Hailee Steinfeld), a adolescente protagonista de Quase 18, para sua melhor amiga, Krista (Haley Lu Richardson).

Quase 18, no começo, parece um típico humor bobo e adolescente. A descrição da Netflix não ajuda, exatamente: “A vida de Nadine fica ainda mais insuportável quando sua melhor (única) amiga começa a namorar seu irmão mais velho, que ela odeia.” Mas não demora muito para o filme escrito e dirigido por Kelly Fremon mostrar como não é comum - e tem a missão de escancarar a depressão da adolescência e várias das atitudes nem um pouco legais das pessoas nessa época.

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A protagonista

Para fazer isso, Fremon criou Nadine. A adolescente foi uma criança cheia de conflitos com a mãe (Kyra Sedgwick) (pois sempre achou que essa gostava mais do irmão “perfeito”, Darian[Blake Jenner]) - e solitária. Desde pequena, sempre teve dificuldade de agradar a mãe -e isso fica evidenciado quando a menina faz  ma birra para ir à escola, e recebe um 'olhar matador'.

A âncora dentro de casa era o pai… Mas ele morreu quando ela era bem nova. Ela nunca conseguiu consertar a relação com a matriarca. Então, com exceção de Krista, a protagonista se sente totalmente isolada - pois vive entre a mãe, que sente que não gosta muito dela, e o irmão, cuja sombra a ofusca.

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Quando Krista começa a namorar Darian, então, Nadine perde o chão. Começam diversos episódios impulsivos - gritar com a mãe e roubar a chave do carro, tomar remédios, mandar mensagens sexuais para um menino que não conhece. Tudo isso culmina no ápice para a personagem, que dirige até a escola, vai até a sala de um professor e anuncia: “vou me matar.”

A abordagem

Os momentos de quebra de Nadine mostram um aspecto diferenciado - e reconhecível para muitos adolescentes que não têm uma vida familiar muito boa: a mãe dela não a ouve, e ultrapassa os sentimentos da menina com os próprios frequentemente - o que gera atrito constante entre as duas.

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Por isso, ela faz de tudo para não ficar na própria casa: pede para nadar na piscina do amigo mesmo tendo uma em casa, fica horas sentada na sorveteria, procura abrigo numa loja de donuts depois de um encontro ruim. Então, quando fica sem ter para onde ir pois não vê apoio na mãe, busca o professor - de quem nem é tão próxima assim.

Essa atitude vai de encontro com muitos adolescentes. E, para aqueles em situação parecida, pode ser bom reconhecer-se na tela. Mas com um risco: “Não é tão óbvio que ela é deprimida,” explica Letícia Martins, psicóloga clínica de crianças e adolescentes, para a Rolling Stone Brasil. ”Às vezes, fica naquilo de impulsos e características adolescentes. Dependendo de quem tá assistindo, pode pensar ‘nossa, que menina chata’ ao invés de entender que ela, realmente, está passando por um momento difícil.”

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Nem a própria Nadine parece entender muito bem o que acontece com ela - pois, como diz, tem antidepressivos mas não os toma. É algo bem comum para alguém que não está muito bem na questão da saúde psicológica. Com frequência, as pessoas se sentem chatas e briguentas, ou acham que os próprios problemas são idiotas ou não há soluções, relata Martins. Isso não é verdade: muitas vezes, explica a psicólogo, o adolescente não tem recursos de agir de maneira diferente - e acaba obedecendo muito aos impulsos.

No caso da adolescência, ter um adulto “para conversar sem ser punido” é um bom escape e um grande aliado na hora de desabafar. Idealmente, acredita Martins, é papel da escola prover essa pessoa para os alunos. Mas quase nunca acontece. Ironicamente, em Quase 18, ela até chega a procurar por um professor - mas ele tem respostas bizarras: 

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“É um pouco chocante pensar ‘como assim, ele tá invalidando uma adolescente que veio falar disso?’ Depois você entende que tem um papel importante para ela, apoio, e até identificação - ele é tão sarcástico quanto ela. Ele faz tudo virar cômico, e talvez ali seja um lugar que ela consegue lidar com a tristeza de modo diferente.”

Talvez, o mais importante para quem vê o filme é a redenção de Nadine. A quebra pessoal dela começa com o irmão, e precisa terminar com ele. Só depois dele explicar para ela como também se sente triste - e frustrado em ter que lidar com a própria casa - ela percebe como existe mais. Entre soluços, pede desculpas, tentand o explicar um pouco do que ssente, finalmente, para alguém:

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“Sabe,” explica Nadine, “desque que éramos pequenos, tenho essa sensação de estar flutuando fora do meu corpo, olhando de cima. E odeio o que vejo. Como estou agindo, como falo… E não sei como mudar isso. Tenho tanto medo que esse sentimento nunca vá embora… Me desculpa.”

Então, embora Quase 18possa parecer mais um filme adolescente, vai bem além. Escancara uma confusão que muito adolescente tem - e isso é ótimo. “Ela tem uma transformação ao longo do filme que não é tão [comum nos filmes],” ressalta Martins. “No final, consegue fazer as pazes com as relações na família, com o irmão… A evolução da personagem é diferente.”


No Brasil, para ajudar pessoas com pensamentos suicidas, há o Centro de Valorização da Vida. Pode ser encontrado no telefone 188 ou no site https://www.cvv.org.br/.