Radiohead e a estranha alegria de Thom Yorke

Dançando como no clipe de “Lotus Flower”, líder da banda aproveitou para cantar duas inéditas no primeiro show da turnê do disco The King of Limbs

Alexandre Lopes, de Miami Publicado em 28/02/2012, às 12h50 - Atualizado às 13h47

Thom Yorke à frente do Radiohead no primeiro show da turnê norte-americana do disco The King of Limbs

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Muita gente torceu o nariz para o Radiohead depois do lançamento do álbum The King of Limbs, no ano passado. Tão difícil quanto o experimental Kid A, o disco descarta refrãos fáceis e melodias grudentas, optando pela mistura de percussão com música eletrônica e trazendo à tona, à primeira vista, os momentos mais introspectivos do grupo. Mas essa qualidade “hermética” caiu por terra no primeiro show da nova turnê da banda, em Miami, nesta segunda-feira, 27.

Se o clipe de “Lotus Flower” virou sucesso de internet por conta da dança performática de Thom Yorke - que antes era restrita apenas aos momentos mais dançantes de músicas como “Idioteque” e “The National Anthem” -, o que se vê no Radiohead agora é que as novas composições servem como meio para extravasar ainda mais essa forma de expressão do líder do grupo. Ao subir no palco da American Airlines Arena trajando camisa branca, colete preto, calças vermelhas e ostentando um curto rabo de cavalo, Yorke pareceu passar por cima do espectro dos anos 90 e da imagem do rockstar desolado que construiu para si na época.

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E essa tendência também é conivente com o repertório do show. The King of Limbs foi tocado praticamente na íntegra (apenas “Little By Little” ficou de fora). Clássicos dos dois primeiros discos foram ignorados, e foram incluídas somente três músicas da célebre era OK Computer – “Airbag”, “Karma Police” e o improvável lado-b “Meeting in the Aisle”. Além disso, o grupo também aproveitou para debutar ao vivo duas composições inéditas, “Identikit” e “Cut a Hole”, que solidificam a tônica da vez do Radiohead: canções construídas por repetições eletrônicas e escassez de guitarras, mas com o potencial percussivo reforçado pela participação de Clive Deamer (jazzista que já colaborou com nomes como Portishead e Jeff Beck) como baterista adicional na nova turnê.

Ouça “Cut a Hole” e “Identikit” abaixo:

Com o repertório renovado por essa nova química e um palco com pequenos telões e luzes com efeitos variados, músicas como “The National Anthem”, “Morning Mr Magpie”, “Feral” e, logicamente, “Lotus Flower” desencadearam a catarse no público e renderam boas oportunidades para que um agitado Yorke trocasse as guitarras por teclados e fosse à beira do palco arriscar passos de dança com movimentos semelhantes a surtos epiléticos (como os de Ian Curtis, do Joy Division). Claro, o Thom Yorke depressivo e esquisito não ficou definitivamente para trás (ele ainda apareceu em faixas arrastadas conduzidas ao piano, como “You And Whose Army?” e “The Daily Mail”), mas pode-se dizer que ao menos nesta noite Yorke estava mais carismático do que triste.

Nem mesmo um erro técnico do guitarrista Jonny Greenwood em “Give Up The Ghost” estragou a espontaneidade de Yorke: ao perceber que o músico passava por problemas com sua aparelhagem, o vocalista parou de tocar o violão e recomeçou a canção. O frontman parece ter deixado de lado a postura insegura e cheia de autocomiseração de antes, tanto que, durante o segundo bis, fez questão de puxar o coro da plateia ao final de “Karma Police”, como aconteceu nas apresentações que o grupo fez no Brasil, em março de 2009. E o esquisitão foi prontamente correspondido pelo público: “and for a minute here I lost myself, I lost myself...”.

Veja abaixo o set list do show:

“Bloom”

“The Daily Mail”

“Morning Mr Magpie”

“Staircase”

“The National Anthem”

“Meeting in the Aisle”

“Kid A”

“The Gloaming”

“Codex”

“You and Whose Army?”

“ Nude”

“Identikit”

“Lotus Flower”

“There There”

“Feral”

“Idioteque”

“Separator”

Primeiro Bis:

“Airbag”

“Bodysnatchers”

“Cut a Hole”

“Weird Fishes/Arpeggi”

Segundo Bis:

“Give Up The Ghost”

“Reckoner”

“Karma Police”