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Ratinho mudou o papel dele na televisão, mas segue como uma das figuras mais polêmicas do país

Como Carlos Massa revolucionou a TV e se tornou o apresentador que mais faz dinheiro no Brasil

Gustavo Silva Publicado em 18/12/2014, às 09h00 - Atualizado em 23/12/2014, às 15h48

O reinado do Rato

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"Sabia que eu nasci corintiano?” palmeirense ilustre, Ratinho já havia revelado, naquele mesmo dia, o desejo de se candidatar à presidência do time alviverde. Ele faz a pergunta quando descobre que torço pelo Corinthians, enquanto muda o celular de bolso, para o lado oposto de onde estou. Mais uma sacanagem estava por vir, depois de um curto silêncio no camarim: “[Nasci corintiano], mas aí eu comecei a estudar”.

O jeito escrachado de Carlos Massa está na cara bem delineada – e no bigode que o acompanha desde os 17 anos – quando sorri ligeiramente ao contar histórias, dar opiniões e até mesmo quando está em frente às câmeras. Há muito pouco de personagem em Ratinho, o apresentador que há quase duas décadas atua em rede nacional diariamente e, hoje, é o homem que mais faz dinheiro na TV brasileira.

Ratinho serve o próprio café – literalmente, pois o grão é produzido nas fazendas dele – enquanto, vestido com um roupão personalizado com seu nome, conversa e aguarda os últimos retoques no cabelo e no bigode para mais uma entrada no ar ao vivo. O programa do dia traz atrações populares, algumas das quais (uma cantora evangélica e um grupo musical) ele mesmo não conhece. A plateia canta e acompanha a todos, tal como o playback que ressoa pelo estúdio. Difícil imaginar tal clima de harmonia há 15 anos, quando Programa do Ratinho virou um termo – aplicado até hoje, mas agora de maneira pouco justa – para designar baixaria explícita.

Ainda que roteirizado, um toque de improviso paira no ar do programa. Como de praxe, uma pergunta interativa é lançada para que o público vote. A enquete é sobre a lei que proíbe o uso de sacolinhas plásticas. Ao final, o resultado: o povo, em sua maioria, não concorda com a novidade. Ratinho faz o anúncio ao vivo e diz que os políticos deveriam escutar mais a população. Lembra que, dias antes, os telespectadores se colocaram a favor da redução da maioridade penal. A plateia, instigada pelas dupla de animadoras de palco, vai à loucura. Sem pestanejar, aproveitando o contexto de política e do furor popular, Ratinho anuncia: “Se tiver eleição pra ser rei, eu me candidato. Eu quero é ser rei!”.

O conceito de “popular” tem uma ampla gama de significados quando aplicado a Ratinho: desde a origem no interior, em uma família humilde cujo provedor maior era o pai, pedreiro, passando pelo reconhecimento como homem do povo, “gente como a gente”, pelas classes mais populares e, por fim, chegando ao sucesso como figura artística. Paulista de nascença mas criado no interior do Paraná, Carlos Massa exercitava desde criança os atributos pelos quais se tornaria conhecido. “Entrava em todo circo que vinha para a cidade, ia lá pra vender pirulito e acabava virando o palhacinho”, relembra. Ainda jovem, formou com amigos uma trupe de teatro com a qual apresentava peças de humor pela região de Jandaia do Sul, além de ganhar algum dinheiro como vendedor – o que o levou a estudar somente até o 2º grau. “Não quis estudar mais porque eu gostava de vender. Era um bom vendedor.”

Com 18 anos, Ratinho já exibia no currículo os títulos de artista, vendedor, técnico de raio X e, acima de tudo, figura popular. Foi a fama local que o levou a ser convidado para se candidatar a vereador. Ganhou a primeira eleição, e uma segunda também. Foi eleito posteriormente como deputado federal. Abandonou a carreira política (“Fui um político que não deu certo”, ele reconhece) e, de Curitiba, tocou a vida em duas frentes: como empreendedor, ganhou dinheiro “vendendo espetinho de gato na rodoviária”, e na comunicação, foi parar no rádio e na televisão.

Na carreira na telinha firmou-se localmente como repórter, sob a batuta de Luiz Carlos Alborghetti, falecido apresentador pioneiro da neurose policial televisiva – e, segundo Ratinho, “o cara mais estranho que já conheci”, mas “que saiu um pouco do normalzinho, desmistificou a TV”. “Minhas matérias não eram certinhas, eram engraçadas, faziam sucesso, chegavam a ganhar da Globo”, ele recorda. “O pulo do gato foi quando fiquei sabendo que o Bandido da Luz Vermelha, que foi o único que cumpriu os 30 anos na cadeia, ia ser solto”, ele conta sobre o episódio que o catapultou ao alcance nacional. Ratinho conseguiu em primeira mão uma entrevista exclusiva ao vivo com o infame contraventor, exibida e repercutida por todo o país. “Quando comecei a incomodar, recebi na mesma semana convites da Band, SBT, Record, Manchete e Globo.”

Ratinho Livre, o programa de estreia do apresentador na Record, mudou os padrões de como fazer televisão à época de sua exibição, em 1997. Aberrações, violência, brigas de casais, histórias pitorescas, linguagem simples, sensacionalismo a mil, assistentes cômicos e humor (muito) politicamente incorreto apareciam diante de um auditório lotado. A fórmula funcionou tão bem que não raras vezes os índices de audiência batiam todos os concorrentes. Um ano mais tarde, depois de desavenças com a direção da Record, Ratinho migrou com toda a equipe para o SBT, onde seguiu com mais sucesso e com a mesma ideia. “Coisa que ninguém fala – e eu não falo, porque não sou apto à prepotência – é que a Globo mudou o horário da novela por causa do meu programa”, declara o apresentador, que, contudo, reconhece todas as críticas do passado. “A gente fazia um programa muito apelativo na época. Era a única maneira de entrar aqui em São Paulo.”

"Quer assistir ao programa?”, convida Ratinho ao final de nosso segundo dia de conversa. “Hoje é DNA, vai sair briga com certeza!” Os exames de DNA sintetizam os anos dourados (ou de latão, dependendo da perspectiva) de Ratinho na TV. É o único programa dele gravado com antecedência, “porque tem muito palavrão, a gente tem que cortar”. Digo que a tolerância a impropérios na televisão por parte do público aumentou nos últimos anos. Ele justifica a decisão narrando um dia de trabalho: “A ‘veia’ queria bater no ‘veio’ ontem e ele falou assim: ‘Sabe por que a senhora quer bater em mim? A senhora não tem nada a ver comigo e com ela. Nem é parente dela. Tá brava porque quis dar pra mim e eu não comi. A senhora quis dar a boceta e eu não comi. A senhora queria chupar meu pau e eu não deixei’. Como é que vou botar isso no ar?”, pergunta de forma retórica, diante do riso dos interlocutores que o acompanham enquanto ele se arruma para enfrentar mais um casal que questiona a paternidade de uma criança diante de todo o Brasil.

No estúdio, três homens e três mulheres discutem, xingam, tentam se agredir (os seguranças intervêm, mas pagam o preço; um chegou a ter o braço quebrado, no passado) enquanto explicam uma história cheia de “vagabunda” pra lá e “veado” pra cá. A tragédia da vida cotidiana torna-se cômica sob a mediação de Ratinho. Ele é quase como um Quentin Tarantino do entretenimento popular: a violência dirigida pelo cineasta e a desgraça mostrada pelo apresentador são tão extremas que cruzam a linha do chocante e tornam-se apenas caricatas. Mas, diferentemente do cinema, o que vai à TV não é ficção. “Se eu colocar algo falso, a Folha de S.Paulo, do jeito que é filha da puta comigo, vai lá e me fode.”

Em outubro de 1998, o jornal publicou uma reportagem denunciando que parte das atrações que alavancava a audiência do Programa do Ratinho era falsa, atuação de populares em troca de cachê. Ratinho admite a farsa e esclarece que produtoras tinham sido terceirizadas para encontrar os casos espetaculosos – um exemplo era o do homem que flagrou e filmou a mulher no motel. “O produtor disse que era tudo falso, queria mais dinheiro. Senti a chantagem, não dei e ele foi lá e contou [para o jornal].”

“A gente coloca mais os casos engraçados, que sabe que vão dar audiência pela graça, não pela raiva”, diz Ratinho, explicando a linha que hoje pauta o programa, ainda um misto de assistência social e entretenimento, mas menos apelativo que no passado. O novo formato proporciona uma vida mais calma na televisão, além de mais simpatia com os anunciantes. “Tem uma parte da imprensa que ainda me persegue. Pouca, muito pequena”, reflete. “Hoje ninguém mais fala mal de mim.”

Há tempos as polêmicas saíram do ar. A mais barulhenta nos últimos tempos já faz quatro anos, quando Ratinho levou ao programa Guilherme de Pádua, assassino da atriz Daniella Perez. “Aquela chata da Glória Perez veio encher o saco, que eu não devia entrevistar o cara, que ele matou a filha dela”, conta em um tom que soma seriedade e escracho.

“Um monte de artistas da Globo começou a bater em mim para puxar o saco dela. E levaram umas dez porradas, porque sou bom de briga também.” “Agora, a Glória Perez achar ruim comigo? Por que não achou com a Glória Maria, que é colega dela na Globo e entrevistou o cara quando ele ainda estava preso?”, questiona.

Ainda que aluda em tom de galhofa aos desejos de ser rei, Ratinho detém um império bem real. Dono de 19 empresas em áreas diversas, incluindo toda a cadeia de retrotransmissoras do SBT no Paraná e as rádios de maior audiência que cobrem o estado, e associado a outras tantas na divulgação de produtos no programa (do qual é sócio e leva 50% do faturamento), hoje o apresentador é o nome que mais faz dinheiro na TV brasileira. Estima-se que entre o salário do SBT e a renda dos negócios, turbinados por milhares de hectares de terras no Paraná, Mato Grosso do Sul e Acre, o montante chegue a R$ 10 milhões mensais, capitalizados principalmente pelo Grupo Massa.

A política ficou para trás e não está mais nos planos de Ratinho – embora, à maneira dele, trate do tema no programa, como na surreal entrevista com Dilma Rousseff em que a presidente e o apresentador discutem como preparar um “mexidão”. É um dos três filhos dele, Carlos Massa Jr., quem hoje representa o nome da família na esfera pública. Ratinho Jr., como é conhecido, foi eleito o deputado estadual mais votado do Paraná, este ano. O pai, que passou as últimas semanas pedindo voto para o filho e contribuiu com R$ 300 mil para a campanha, confirma o que se diz por aí: “A intenção é o governo do estado”.

O sobrenome Massa será para o Paraná, um dia, o que famílias como Sarney, Jereisatti e Barbalho são para outras partes do Brasil? “As filosofias são diferentes, as entradas são diferentes”, diz, rejeitando a referência. “Nós viemos do povo. Não sei se foi talento ou sorte, mas a evolução foi minha, e hoje a evolução é do meu filho”, enfatiza ele, que diz não exercer influência ideológica sobre o rebento. “Ele é um pouco mais moderno. Estou muito mais pra um ditador do que para um democrata, e ele é o contrário.” “Eu quero ser rei, mas não desses reis bonzinhos. Quero ser ditador, mandar em tudo!” Com esse improviso ele encerra mais um programa. Difícil não pensar em Charles Chaplin em O Grande Ditador. Mas, fama, bigodes e humor à parte, Ratinho interpreta somente a si mesmo na TV.