Ratos ofusca Mallu

Veterana Ratos de Porão papa 2ª noite do festival indie Jambolada

Por Bruna Veloso, de Uberlândia Publicado em 14/09/2008, às 18h27 - Atualizado em 17/09/2008, às 18h13

Sensação indie do momento, Mallu Magalhães fez show tímido em MG

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Não foi o maior público da noite, mas talvez tenha sido o mais ansioso e fiel: quem esperou pelo Ratos de Porão saiu satisfeito, depois de um show alto, barulhento e recheado de rodas de bate-cabeça e moshs. Teve até discussão de João Gordo com a equipe de segurança que insistia, em vão, em impedir que o público invadisse a pequena área reservada em frente ao palco, separada apenas por uma fita de isolamento.

A cada faixa ininteligível vomitada por João Gordo, maior e mais violenta ficava a agitação da massa. O vocalista "ajudava" com um empurrão quem subia ao palco para o mosh. A certa altura, João saiu em defesa da "rapaziada que só estava querendo dançar e se divertir". Pediu aos seguranças que não fossem violentos e depois ordenou que saíssem dali, afirmando que ele se responsabilizaria pela platéia. Em pouco mais de uma hora de show, músicas como "Expresso da Escravidão", "Crucificados Pelo Sistema" e "Morte ao Rei" fizeram a alegria do público roqueiro de Uberlândia, que libertou todos os demônios durante a apresentação mais visceral do evento até agora.

"Vocês estão loucos de colocar Mallu Magalhães e Ratos de Porão no mesmo dia?". A pergunta foi feita diversas vezes por jornalistas a Alessandro Carvalho, um dos idealizadores do festival. Para ele, isso é um exercício "de tolerância, de respeito às diferenças". O público que ansiava por Ratos de Porão respeitou Mallu, mas não chegou a se entregar à menina. Seu hit, "Tchubaruba", até arrancou alguns gritos - nas canções seguintes, não houve manifestações significativas. A platéia parecia estar ali mais por curiosidade em relação à menina do "hype". Mallu estava menos falante do que em outros shows - dentro e fora do palco, já que sua assessoria de imprensa vetou entrevistas, ao menos em sua estada em Minas, antes do lançamento do CD de estréia. Duas de suas composições em português, "O Preço da Flor" e "Vanguart", e os habituais covers dos Beatles e de Johnny Cash fizeram parte da apresentação.

No palco 2, Mallu é sucedida por outro talento precoce. O som de Diego de Moraes (que, hoje aos vinte e poucos anos, começou a compor ainda adolescente) e o Sindicato é muito mais pesado ao vivo do que no EP Reticências. Um pouco de folk, guitarras rasgadas e sons sampleados somados a letras divertidas ("Música Estranha", "Amigo") fazem de Diego e seus companheiros uma das boas bandas da noite.

Conhecida e admirada por muita gente do circuito alternativo em Minas, a Porcas Borboletas tem bons músicos. Mas letras bobas ("Tem gente que fuma cannabis/ Tem gente que dá o forévis") e músicas cansativas e intermináveis ("Santa Manca", "Waltdisney") não fazem da apresentação algo memorável. No palco 2, a paraense Madame Saatan mostrou um metal sem extravagâncias, mas muito bem executado. A ausência de longos solos somada ao ótimo vocal e à simpatia da loira Sammiz garantem um bom show. Por causa do atraso no início da noite, a banda saiu prejudicada, tendo sua apresentação encurtada em 15 minutos, para dar lugar ao Ratos.

Boas indies

Transmissor, a primeira banda da noite, subiu ao palco com quase uma hora e meia de atraso - estereótipos à parte, o povo mineiro não se irrita com a demora e aguarda sem reclamar. O pop/rock/folk com letras de cunho existencial é executado com muita competência. À primeira vista, a banda de BH lembra um Vanguart plugado; com o passar das músicas, dá para linkar Los Hermanos e a pernambucana Amps e Lina. Três integrantes se revezam nos vocais e entre guitarra, baixo e violão. Jennifer Souza dá um tempero diferente às músicas com um ukelele, instrumento havaiano que se assemelha a uma viola em miniatura.

O público começa a crescer quando o peso e o som sujo do Galinha Preta toma o palco menor. No palco, o vocalista Frango parece não estar em dia com sua sanidade mental - fala muito e muito rápido entre uma música e outra, sempre com cara de quem acabou de tomar um grande susto. Apesar do nome obscuro, a banda não trata de assuntos sobrenaturais - a temática de contestação punk, sobre problemas sociais ("Desempregophobia" e "Lixolândia") ou letras engraçadas ("Cristian Wilson") permeia as letras.

Todos os integrantes da local Juanna Barbêra têm boa presença de palco - um vocalista meio hippie, um baixo rosa de bolinhas brancas e a performance contida, mas marcante da guitarrista Breilla Zanon completam a música com um bom show visual. Os também mineiros do Enne não seguiram a mesma linha, e mostraram pop rock quase emo, sem muita novidade, fazendo muita gente sair para tomar um ar.

Estrutura

Não é difícil chegar até a Acrópole, lugar onde acontecem os shows - o galpão fica a cerca de cinco quilômetros do centro de Uberlândia e a 15 minutos do único shopping da cidade, que serve à população de pouco mais de 600 mil habitantes. O amplo espaço aberto em frente a entrada é contornado por largos degraus de cimento, ocupados por quem procura descansar entre um show e outro. Em um espaço paralelo à área dos palcos, uma feirinha abriga estandes de camisetas de bandas, CDs, um estúdio de tatuagem e até um cabeleireiro (muito pouco procurado, mesmo cobrando R$10 por corte).

No único bar do lugar, quase não há filas, assim como na bilheteria das fichas de bebidas. A cerveja é o combustível de quem procura se refrescar do tempo seco e do calor que chega a 35º C. Dentro do festival, a lata custa R$2,50 - barato, se comparado ao preço em São Paulo, mas caro se levarmos em consideração o fato de a marca da bebida ser uma das parceiras da Abrafin (Associação Brasileira de Festivais Independentes). Não há área de alimentação, apenas um quiosque com crepes e cachorro quente.