Review de The Umbrella Academy 2: mais problemáticos, mais confusos, ainda mais incríveis

A série da Netflix refaz a mesma historinha: apocalipse, viagem no tempo, salvação - mas inova totalmente da mesma maneira

Yolanda Reis Publicado em 31/07/2020, às 07h00

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The Umbrella Academy 2 (Foto: CHRISTOS KALOHORIDIS/NETFLIX)

Avise se já viu isso em algum lugar: Número 5, um dos integrantes da superescola de heróis Umbrella Academy (fundada por um milionário estranho) viaja no tempo. Quando chega no destino, entende depressa que precisa deter um apocalipse iminente. No olho do furacão, e correndo risco de vida, estão os cinco irmãos adotivos dele (os outros alunos da academia). Os dias para tudo acontecer estão contados - e o sexteto precisa prestar atenção para não mudar drasticamente a linha do tempo e o universo - enquanto são perseguidos por assassinos determinados.

Parece um resumo da primeira temporada de The Umbrella Academy? Na verdade, foi uma sinopse da segunda parte da série da Netflix, oriunda dos quadrinhos de Gerard Way (do My Chemical Romance) e Gabriel Bá, ilustrador brasileiro. Se toda a trama similar não te parecer lá muito clichê, talvez o assunto “sociedade que controla a linha do tempo e garante ou detém pequenos acontecimentos que podem acabar com o universo” soe repetitivo. Vimos em Doctor Who, Dark, Vingadores, Ministério do Tempo

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Mas The Umbrella Academy faz soar fresco. Não importam similaridades, repetecos, tramas emprestadas daqui ou dali: a segunda temporada da série é completamente única e divertida. E engraçada, também, na mesma proporção que é bizarra, assustadora ou emocionante. Porque a história até importa… Mas é só uma engrenagem de uma máquina bem harmonizada de visual, personagens, direção e senso de humor que faz da história de heróis impecável e singular. 

Prova que a Netflix não se "importou" tanto com a história: os primeiros minutos da série já entregam quase tudo que precisamos saber sobre a trama; Número 5 (Aidan Gallagher) consegue resgatar os irmãos do apocalipse de 2019, e tenta salvá-los com um salto no vórtex do tempo, uma das características do poder dele. Mas avisa muito bem que não sabe se consegue… Dito e feito, a realocação não foi lá uma maravilha: Luther, nº 1(Tom Hopper), Diego, nº 2 (David Castañeda), Allison, nº 3 (Emmy Raver-Lampman), Klaus, nº 4 (Robert Sheehan), Vanya, nº 5 (Ellen Page) - e o fantasma de Ben, nº 6 (Justin H. Min) acabam espalhados, sem querer, entre 1960 e 1963.

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Quando Cinco chega, alguns dias se passaram desde o assassinato do presidente dos EUA J. F. Kennedy. Mas… Ele nunca aconteceu! Há problemas maiores: a União Soviética invadiu o país, há guerra nas ruas do Texas. O menino-homem só tem tempo de ouvir um conselho de Hazel (Cameron Britton), seu ex-perseguidor, e fugir dali antes que bombas nucleares caiam e destruam o mundo. Volta para 10 dias antes, e precisa salvar os irmãos - e o mundo todo - do fim iminente.

A década foi muito bem escolhida para o retorno. Para começar, ajuda a entender um pouco mais da trama - pois Número 5, na primeira temporada, aparece no assassinato do presidente a mando da Comissão. Ajuda, também, em toda uma questão estética que conversa com os vestidos, carros e estilos explorados durante a primeira parte. Finalmente, permite a discussão do racismo da sociedade separatista dos EUA durante os anos 1960 - um assunto que cai bem a calhar no momento em que o mundo permite, de novo, indignar-se com a injustiça em meio ao Black Lives Matter.

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Em um tempo mais livre para os integrantes da Umbrella Academy, também, há mais lugar para explorar os poderes - quase negligenciados no começo, entre a omissão do controle sonoro de Vanya, a apreensão de Allison, o estupor de Klaus. Aqueles que ansiavam por mais demonstrações podem respirar mais tranquilos: a terão. Mas, para quem não gosta de “forçar” em séries de heróis, também: nada é exagerado a ponto de cansar ou “resolver qualquer problema” pela frente.

Isso tudo é uma grande vantagem para o crescimento da série além da trama principal. Na temporada dois, há um desenvolvimento ainda mais profundo da personalidade de cada um dos personagens. Então, se a primeira temporada reestabeleceu isso, a segunda reafirmou em dobro.

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Os heróis, fora de seu âmbito familiar, puderam mostrar uma faceta diversificada: Um desiludido e com dificuldades de se virar sozinho no mundo; Dois como louco (e com complexo de herói), mais poderes; Três, negra, em meio ao apartheid, levantando a bandeira social com a própria força; Quatro em meio à psicodelia de xamã; Cinco, claro, sendo o ‘pai’ e salvando o dia; e Sete, comedida e isolada, como babá de um menino aparentemente autista. São personagens que já conhecemos, mas agindo além.

Talvez a melhor vantagem na evolução dos personagens, porém, sejam as oportunidades dos atores sob os holofotes. Num ramo mais complexo de sentimentos e situações, cada um tem um momento para brilhar. Algo bastante agradável, pois na primeira temporada a performance (nitidamente impecável) de Gallagher, um homem de 58 anos preso no corpo de um menino de 13, ofuscava os demais. Ele ainda mostra a mesma capacidade sagaz, mas de modo mais estável - e consegue dividir melhor a atenção.

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Porém, um ponto deliciosamente alto de Umbrella Academy é a trilha sonora perfeita. Steve Blackman, produtor, tem os sons na ponta dos dedos - quando escreve uma cena, escolhe a música ideal para ela já no roteiro. O resultado harmonia impressionante. Há algo extremamente satisfatório em ver duas versões de Cinco brigaram com “Dancing With Myself” (Billy Idol). Ou uma cena de porradaria geral embalada por “Everybody (Rock Your Body)” (Backstreet Boys). Talvez te divirta mais uma cena de lançamento espacial ao som de “Major Tom” (Peter Schilling). Quem sabe, uma Bad Girl brigando enquanto “Bad Guy” (Billie Eilish, na voz dos Interrupters) ecoa.

As letras da música, na maioria das vezes extremamente felizes em momentos horríveis, pontua outro aspecto bastante único da série: o humor em redução ao absurdo. Quão sério você pode levar sobreviventes do apocalipse que usam sapatos de boliche coloridos? Ou um menininho sem barba que é mais velho que todos? Ou uma mulher arrumada, simpática, conversando com um menino com uma cicatriz de tiro na testa? Até mesmo um assassino que dirige um caminhão de leite, ou sorvete? Mas uma escolha meio boba foram as constantes piadas sobre peidos e gases. Se dividir, poderíamos chegar a uma média de uma por episódio? De qualquer maneira, mais do que o necessário.

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No fim das contas, a trama é levemente parecida, mas melhor em quesito de personagens. O viés humorístico tem altos e baixos. A atuação é melhor, assim como a trilha sonora. The Umbrella Academy 2teria tudo para superar a primeira temporada completamente, mas por pouco não oblitera: a direção perdeu um pouco a graça.

Não há mais ângulos ousados e diferentes de câmera (somente em poucas cenas). Antes, um diferencial e reforçados da peculiaridade de Umbrella Academy, agora apagado. Tentaram compensar com mais efeitos especiais - fruto de um orçamento mais alto - mas combinaria mais com todo o estilo algo às antigas, que dão tão certo na primeira metade.

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The Umbrella Academy, a segunda série mais vista da Netflix (perdendo apenas para Stranger Things), então, deve cativar aqueles que já amaram - e também quem chegou agora. Com uma trama praticamente idêntica, e totalmente única, não surpreenderia se chegasse ao topo. E faria jus à posição.