Review do disco de Bob Dylan, ‘Rough and Rowdy Ways’: ‘Mais um apocalipse, mais um lado de Bob Dylan’; leia

Aos 79 anos, ele continua canalizando os mistérios cósmicos norte-americanos como ninguém na música

Rob Sheffield, Rolling Stone EUA Publicado em 16/06/2020, às 12h59

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Bob Dylan (Foto: Rolling Stone EUA / William Calxton)

Mais um apocalipse, mais um lado de Bob Dylan. O homem que realmente sabe como escolher os momentos dele. Dylan cronometrou brilhantemente o lançamento dele para o verão norte-americano, quando a chuva forte cai sobre toda a nação: uma praga, uma quarentena, uma ação revolucionária nas ruas, cidades em fogo, telefones fora de serviço. 

Rough and Rowdy Ways é o primeiro lote de canções novas do músico em oito anos e é um clássico absoluto - tem a majestade dos últimos trabalhos, como Modern Times e Tempest, mas ainda vai além deles, explorando com mais profundidade os mistérios cósmicos norte-americanos. 

Você pode ouvir todo trovão na voz de 79 anos enquanto ela canta “De longe, eu já vivi minha vida”, em um  momento de “tomar seu fôlego” na canção “Mother of Muses”. 

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Mas, então, o homem não oferece palavras de conforto - ele apenas narra esses contos fora da lei com uma perspicácia de sangue frio e uma paixão sardônica que o mantém pressionado. Como ele declara no começo do disco: “Eu vou escolher um número entre um e dois / E perguntar para mim mesmo o que Júlio César poderia fazer?”

Dylan apresentou a primeira amostra da música nova dele com a canção épica de 17 minutos “Murder Most Foul”, a qual foi lançada de surpresa em uma madrugada do final de março - as primeiras semanas da pandemia, algumas crises de fim do mundo atrás. 

A música mostrou o tom de todo o disco: uma alucinação da história norte-americana como uma jukebox; tarde da noite, em uma turnê de um musical da Desolation Row, em que nos encontramos agora.

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Por todo Rough and Rowdy Ways, o cantor mistura o blues de Chicago, a vibração de Nashville e o rock and roll de Memphis. A voz dele soa ágil e delicada, seja quando lea prega uma desgraça, lançando um cortejo ou fazendo piadas como “Eu vou levar o Scarface de Pacino e o Poderoso ChefãoBrando / Misturar os dois em um tanque e conseguir um robô de comando”. 

O canto, aqui, é uma revelação. Dylan ainda consegue ter a rouquidão de Howlin’ Wolf, que ele aperfeiçoou em Tempest, mas ele soa muito mais solto e flexível, cheio de elegância. Nas batidas de um blues cru de “Goodbye Jimmy Reed”, “False Prophet” e “Beyond the Rubicon”, ele é um mestre do ritmo cômico inexpressivo. Já em baladas como “Key West (Philosopher Pirate)”, o músico está calmo.

Os últimos discos dele foram covers de padrões antigos, inspirados por cantores como Frank Sinatra - fazendo músicas ao vivo, ele até colocava o suporte do microfone bem baixo, no estilo Ole Blue Eyes.

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Os discos de cantores dele eram deliciosos nos próprios termos. Mas, em retrospectiva, ele estava usando aqueles álbuns como oficinas vocais, descobrindo como fazer novos truques com uma voz fodi** assim como ele fez nos dois discos dele de covers de folk-blues, nos anos 1990. Então, agora, ele pode revelar o quão feroz e terno pode soar com sessenta anos de uma estrada empoeirada nos pulmões. 

Dylan passa o disco passeando pelos tempos difíceis da terra, em retratos de veículos, gângsters, ladrões e pecadores. Como ele alerta, essas músicas acontecem a cinco quilômetros ao norte do purgatório, a um passo do além”. 

“My Own Version Of You” é uma fantasia da Noiva de Frankenstein com Dylan como um cientista maluco, fazendo uma criatura no laboratório dele com partes de corpo roubadas. Ele promete para a criação dele: “Eu vou fazer você tocar piano como Leon Russell / Como Liberace / Como São João Apóstolo”. 

Na sinistra “Crossing the Rubicon”, ele zomba: “Eu vou cortar você com uma faca torta, Senhor, e eu vou sentir falta quando você se for”. 

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Quando Dylanobserva que é mais escuro logo antes de amanhecer - não é a primeira vez que esse meteorologista tem razão - ele segue com um “oh meus deus” que pode realmente relaxar os ossos.

“Key West (Philosopher Pirate)” é o ponto alto de um disco cheio de pontos altos: um emocionante acordeão noir de nove minutos sobre um velho desesperado indo para Flórida para fazer o último posicionamento dele, pensando sobre o fim dos tempos apenas com o rádio como um lembrete da vida que deixou para trás.

A chave do oeste dele é um paraíso envenenado, onde “as palmeiras de rabo de peixe e as árvores de orquídeas / Elas podem te dar aquela doença do coração sangrando”. Ele pede uma canção, pedindo para o rádio desistir da velha alma dos anos 1960 “Rescue Me”, como se a música fosse a última chance de se lembrar como era ter alguma inspiração no coração. 

“Key West está bem e justo / Se você se perder sua mente, você estará bem lá”, ele evoca a vibe elegíaca de Robert De Niro no final de O Irlândes.

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“Murder Most Foul” termina o disco com um boom - a canção já estava poderosa como um single, mas ela bate ainda mais forte como um final aqui. O título vem de Hamlet, em um disco em que Dylantambém deixa uma referência a Richards III, Júlio César e Macbeth.

(“Eu gosto de Shakespeare”, ele disse em março de 1966. “Uma rainha delirante e um cérebro cósmico de anfetamina”). “Murder Most Foul” fala sobre o assassinato de JFK, mas o contexto histórico é apenas uma deixa para uma canção que quer muito mais. 

Como John Wesley Hardin, Lenny Bruce, Blind Willie McTell, Isis ou St. Augustine, JFK é apenas um herói místico do folclore que inspira Dylana se aventurar em uma nova história. Ele usa o Kennedy como ponto de partida para uma divagação pelas memória cultural em um sonho realista, em que manda uma oração para o DJ, como um cruzamento entre Walt Whitman and Wolfman Jack.

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Dylantermina a música com uma longa lista de lendas da música: John Lee Hooker, Etta James, Thelonius Monk, Dickey Betts, Bud Powell, Lindsey Buckingham e Stevie Nicks. Ele também celebra o ídolo do rock and roll original Little Richard, em uma oportuna despedida acidental.

Como muitas das melhores músicas sobre o país lançadas na última - “The Greatest”, de Lana Del Rey, “King Kunta”, de Kendrick Lamare “Higgs Boson Blues”, de  Nick Cave - é uma ladainha de mitos e ícones nacionais queridos. 

Mas, para Dylan, a única visão dos EUA que continua a fazer sentido é um turbilhão de canções meio esquecidas pela rádio muito tempo depois da meia-noite.

“Murder Most Foul” é uma composição sobre como as pessoas transformam a música em consolo em tempos de turbulência. Mas também é uma canção sobre como a música é parte da turbulência. 

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Conforme Dylanchega aos 80 anos, a vitalidade criativa dele permanece surpreendente - e um pouco medonha. (Acenda uma vela para o falecido Leonard Cohen: ele não é mais dono da coroa de melhor disco já feito por um idoso de 79 anos).

Dylan nunca ficou no mesmo lugar por muito tempo, inferno, foi necessário uma pandemia para pausar a turnê Never Ending. Mas ele se recusa descansar no próprio legado. Enquanto o mundo insiste em celebrá-lo como uma instituição, prendê-lo, entregar o prêmio Nobel, embalsamar o passado dele, esse andarilho sempre consegue escapar. 

Em Rough and Rowdy Ways, Dylan explora terrenos que ninguém alcançou antes - mesmo assim ele continua avançando para o futuro. 


+++ A PLAYLIST DO RUBEL