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REVIEW: Esqueça tudo o que você sabe sobre o Coringa, Joaquin Phoenix está perturbador

Filme do Coringa é como uma colher de mel que ajuda a engolir uma amarga verdade: a sociedade está em ruínas

David Fear, Rolling Stone EUA Publicado em 11/09/2019, às 08h00

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Joaquin Phoenix em Coringa (Foto: Reprodução Warner)

“Sou só eu ou tudo está ficando mais louco?” É uma questão legítima que Arthur Fleck, um palhaço desempregado e problemático, faz à assistente social designada para seu caso. Lixo transborda nas avenidas e becos do subúrbio em que ele vive. Os noticiários estão recheados de histórias sobre pragas de “super-ratos” e sujeira e crime e horrores. Você não pode nem ao menos pendurar uma placa de “fechado” na porta de sua loja por medo de alguns jovens delinquentes te verem e te darem uma surra.

Um dia, um dilúvio virá para varrer toda a escória das ruas. Mas até lá, Fleck precisa vagar nesse pesadelo-acordado com apenas suas pílulas como apoio - ele toma sete remédios diferentes para combater uma doença que causa, entre outros, uma risada descontrolada em momentos inconvenientes. 

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Ah, ele tem sua comédia pessoal. A mãe de Arthur afirma que ele nasceu neste mundo amaldiçoado para fazer as pessoas sorrirem. Por isso ele decidiu virar comediante. Para conseguir, só precisa de um pouco de sanidade. Ou pelo menos algumas piadas. Ha! Ha! Ha!

Bem-vindo a Coringa, a maluquice auto-anunciada de Todd Phillips, as lágrimas-de-um-palhaço-de-propriedade-intelectual tirada de um personagem de histórias em quadrinhos que quer muito, muito, repaginar o risonho supervilão para virar um Bozo Solitário. Esqueça tudo sobre o bandido maníaco do antigo Coringa, ou o gênio do crime dos anos de Cavaleiro das Trevas.

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Arthur Fleck é um anti-herói f*dido para nossos tempos f*didos, mesmo se a era mostrada na tela tenha um quê vintage. Essa é Gotham Citycomo Horror City, uma lembrança de um passado cheio de graffiti da era disco e rock. (Para constar, a história acontece em 1981, e achamos que é uma cortesia para uma piada interna de uma mitologia de um tal vigilante).

E no meio de todo o cosplay trágico de um Scorsese dos anos 1970 está uma figura trágica, empurrada ao limite por uma sociedade espiral fora do controle que valoriza mais a celebridade do que a civilização, na qual gritos superam risadas. E escutem aqui, seus f*didos, idiotas - aqui está um palhaço que não aguenta mais essa piada.

Foi extremamente tenso ver Joaquin Phoenix, esquelético e sorrindo entre soluços, espalhando a maquiagem enquanto uma única lágrima escorre e estraga o seu rímel? Claro que sim. O filme se baseia em um dos maiores atores de sua geração para atuar como o nemesis do Batman, assim como em seu reconhecimento de marca, assim como em tudo que ele já fez, e o comprometimento total com a feiura.

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O Fleck de Phoenix é um genuíno malote de tristeza, um jovem sem habilidades sociais que vive com sua mãe doente (Six Feet Under de Frances Conroy) e tem dificuldade de entender as pessoas. Seus amigos comediantes têm pena dele, mas o animam. Um deles até o presenteia com uma arma para proteção. E durante uma viagem no metrô, já tarde da noite, quando alguns executivos da Wall Street começam a provocá-lo, Fleck descobre o Bernhard Goetz dentro de si. Gotham City acha um herói parceiro. E Arthur? Sua verdadeira vocação. 

Também existe uma potencial figura romântica em Sophie (Zazie Beetz), vizinha de Arthur, e uma possível figura paterna na forma de Murray Franklin, um apresentador de um programa da madrugada que é a perfeita junção do autoritarismo de Johnny Carson e o louco/cruel David Letterman. É interpretado por Robert De Niro; qualquer semelhança com o Rei da Comédia de Jerry Langford, ou o senso do sublime conectando o iniciante Fleck a Rupert Pupkin, não é coincidência; é coragem. Coringa é um filme que não se baseia em suas influências, e sim constrói um terno roxo com elas.

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Mesmo não sendo “canônico”, o longa fica feliz de mergulhar na profunda história do personagem criado no Universo DC que conhecemos e… bom, amamos. Existe uma conexão com Batman, a qual facilmente provocaria risadas inapropriadas em Fleck em suas crises estilo-Tourette.

E se você acha que os manifestantes adoradores do vigilante são na verdade um whiteface do movimento Occupy: um movimento de Gotham ou algo que se aproxima de trolls na rua, depende da sua leitura. Ele é um codificador da cultura da indignação, um palhaço para todas as loucuras. 

Phoenix é claramente a centelha, a razão pela qual aqueles que não estão pensando em ver esse personagem em mais uma história deviam prestar atenção. Existe agonia e tristeza e loucura por trás dos olhos de Arthur, uma bomba relógio volátil - a especialidade do ator. Na melhor das hipóteses, Coringadá a ele esse palco espinhoso e metódico para ficar enraivecido, e faz você sentir como se o filme tivesse mais profundidade do que toda uma coleção de DVDs bem selecionada.

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Você também pode ver a confiança na habilidade de Phoenix para fazer infinitas variações de uma cena e suas danças exageradas e teatrais, e vender a você um medo cheio de pathos (ou vice e versa). A plateia ficará maravilhada por sua performance. Também pode encontrar-se pensando no trabalho igualmente impressionante que o ator fez em seus outros longas, e talvez desejar que estivessem vendo todos eles de novo. 

“Por que tão sério?” perguntou, certa vez, um homem inteligente; Coringa conta com uma frase mais pertinente para 2019: “Qual é a graça?” Tenta criar paralelos do mundo em chamas na tela e o que está em brasas fora da sala de cinema. “Ninguém mais é civilizado,” lamenta Fleck, antes de perpetuar um ato de violenta niilista, e o filme quer que você pense no “normal” de hoje em dia.

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Coringa vai provocar você e fazê-lo pensar em todas as histórias da vida real sobre instabilidade mental e políticas armamentistas, sobre a falha dos serviços sociais com quem mais precisa deles, sobre os ricos satisfeitos e os pobres irritados, e sobre caras gritando tão alto que não se pode ouvir os próprios pensamentos. E responde a questão do início: sim, de fato, tudo está ficando mais louco.

A resposta nunca dada é para a questão que você pode se perguntar no final de toda a fúria e tumulto: Por quê? Por que contar essa história dessa maneira, com esse personagem e um filme estilo anos 1970? Sim, Coringa é uma marca global, e esse é um gênero que garante recordes de blockbusters, e, Deus, toda essa dureza e ousadia soam bem. Sim, é uma colher de açúcar em um remédio amargo para te ajudar a engolir a verdade amarga, etc. Sim, é preferível tentar usar esse vilão como um símbolo pelo qual explorar o caos da era Trump do que só tirá-lo do armário para fazê-lo dar mais risadas estridentes e matar mais gente.

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Mas existe uma suspeita por trás de tudo isso que, apesar desses pontos todos estarem artisticamente mascarados, Coringa é na verdade o mesmo palhaço psicopata de sempre. O filme quer que a gente pense nele como uma profunda declaração sobre todo um cenário atual de um mundo descendo ao inferno. Nenhuma quantidade de festivais e premiações pode apagar a noção de que, quanto mais você tenta levar tudo isso a sério, mais você sente que a piada é você mesmo.

Coringa estreia no Brasil no dia 3 de outubro.