Rock in Rio 2017: maratona de Guns N' Roses é a “experiência máxima” do festival

Show de mais de 3h de duração encerrou a penúltima noite do evento às 4h da manhã

Lucas Brêda, do Rio de Janeiro Publicado em 24/09/2017, às 05h22 - Atualizado às 12h38

Guns N´ Roses no Rock in Rio

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O Guns N' Roses é a cara do Rock in Rio. Assim como o festival, a banda surgiu nos anos 1980 -- quando o rock despontou com força nacional no Brasil --, lucra altas cifras em torno de uma marca vastamente conhecida e sofre para se renovar. O grupo de Axl Rose agora tem Slash, Duff McKagan e a "autenticidade" de volta; o Rock in Rio posa socialmente como uma espécie de "resistência" rock no mainstream (daí as intermináveis cobranças de "isso não é rock para estar no Rock in Rio").

Quando o Guns N' Roses subiu ao palco Mundo para encerrar o penúltimo dia do festival, o público estava ainda maior (surpreendentemente) e mais engajado (foi absurda a quantidade de camisetas com o logo do GNR no Parque Olímpico) que o do Bon Jovi, mais cheio até então. Foi o clima instaurado para tentar resgatar a supracitada "chama" rock and roll que tanto ficou marcada na cultura popular.

O Guns N' Roses tratou uma plateia de pernas cansadas após um The Who longo (que já havia atrasado) com performances arrastadas, inevitavelmente acabando em uma jam ou um solo de guitarra. Tirando os mais animados -- e próximos ao palco --, o público geral viveu tanto momentos de euforia (nas mais diretas, "It's So Easy", "Nightrain", "My Michelle", "Mr. Brownstone") e emoção (nas baladas, "Knocking on Heaven's Door", "Patience", "November Rain") quanto de indiferença (na maioria das partes instrumentais e faixas do "patinho feio" da discografia, Chinese Democracy). Muita gente foi embora no meio da apresentação e a maioria passou por longas esperas pelos "momentos épicos" que o show se propõe a entregar.

A dinâmica de apresentação com jams, refrãos alongados e uma banda de acompanhamento numerosa, dá um tom mais polido ao repertório de Appetite For Destruction, um dos grandes discos da história do rock justamente por ser mais desbocado e atrevido do que era aceito em 1987. De novidade, o Guns N' Roses agora traz uma versão nas guitarras de "Wish You Were Here" (Pink Floyd), e covers de "Whole Lotta Rosie", do AC/DC (banda com a qual Axl Rose saiu recentemente em turnê como vocalista), "The Seeker" (The Who) e "Black Hole Sun" (Soundgarden), acrescentada recentemente ao setlist da turnê de retorno como homenagem a Chris Cornell, morto este ano.

Este "novo" Guns N' Roses é certamente mais interessante que o da edição de 2011 do Rock in Rio. Com um Slash veloz e habilidoso, os pilares do show voltam a ser a voz de Rose e os solos intermináveis do guitarrista, a química que forjou a sonoridade suja e agressiva da banda. Performances de clássicas como "November Rain", "Sweet Child O' Mine" e "Paradise City" acabam atingindo muito mais intimamente sua energia original.

Slash está mais técnico e substancialmente menos despojado, apesar de continuar com vigor. Axl até alcança alguns agudos impressionantes, mas tem uma voz reconhecível só o suficiente para lembrarmos que se trata da mesma pessoa de 30 anos atrás. Não se pode imaginar que ele ainda estaria com a potência do auge. No entanto, Steven Tyler -- grande influência do vocalista -- mostrou neste mesmo Rock in Rio como é possível tratar bem suas canções com a voz envelhecida. Fisicamente, inclusive, Rose está muito mais em forma que sua voz, correndo constantemente pelo palco.

As mais de 3h deste Guns N' Roses (que fechou o palco depois das 4h da madrugada) são a experiência "máxima" do Rock in Rio atual: um show de rock e também uma máquina de entretenimento, que emociona pontualmente para satisfazer o consumidor, mas conversa pouquíssimo com o presente -- tanto dos integrantes quanto da música mundial. Até por isso, está cada vez menos influente (quantas bandas novas substancialmente influenciadas pelo Guns N' Roses poderiam fechar o palco Mundo num dia de Rock in Rio?).