Explorando a hipocrisia nas obras dele, Ron English tem exposição no Rio de Janeiro e faz quadro inspirado no Brasil

Artista norte-americano já criou capas de discos de Slash e trabalhou com o Pearl Jam

Lucas Brêda Publicado em 24/10/2014, às 20h49 - Atualizado em 25/10/2014, às 16h24

Capa do primeiro álbum solo de Slash, feita por Ron English
Reprodução

“Faça você mesmo”. A simbólica frase explorada pelo punk no universo da música, no fim dos anos 1970, é o mote principal do artista norte-americano Ron English, que ficou famoso por substituir anúncios em outdoors por obras de arte carregadas de ironia e utilizando ícones da cultura pop. Ele já fez trabalhos para músicos como Slash e Pearl Jam, e atualmente possui algumas obras em exposição no Rio de Janeiro – na Caixa Cultural, entre os dias 21 de outubro e 21 de novembro.

Veja dez grandes capas de discos criadas por Storm Thorgerson.

“Eu ficava preso no trânsito, e via todos aqueles outdoors”, conta English, em entrevista por telefone à Rolling Stone Brasil. “Pensei: ‘Se eu trocar todos eles pela minha arte, poderia levar reflexão a algumas pessoas”. Tudo começou na década de 1980, quando ele tinha poucos mais de 20 anos de idade e trabalhava em um estúdio de fotografia em Dallas, no Texas (Estados Unidos). “Peguei todos aqueles papéis que eles iriam jogar fora e, no estúdio, havia uma parede do exato tamanho de um outdoor. Então, após o trabalho, comecei a pintar”.

Demorou apenas uma semana para que o primeiro outdoor da cidade fosse substituído por uma pintura de English – dois bebês mal encarados acompanhados da palavra “luxúria”. “Por um ou dois anos, eu nunca fui preso”, lembra-se. “Então outro artista se juntou a mim e começamos a ter um movimento, e ir a uma cidade diferente por mês (Austin, San Francisco, Houston) para mudar os outdoors”.

The voices in my head are in perfect harmony. #clown #popaganda #schizophrenia #popsurrealism #Popart #clownart #oilpainting #art #quoteoftheday

Uma foto publicada por ronenglishart (@ronenglishart) em

Contudo, a impunidade um dia chegou ao fim – e de maneira curiosa. Após 24 outdoors feitos, em uma época na qual English e companhia usavam disfarces – “algo bem idiota, com certeza” –, uma penitenciária trocou de endereço em Dallas, e os policiais passaram a observar de perto o trabalho dos artistas. “Eles basicamente olhavam pela janela e nos viam fazendo todos aqueles outdoors e usando disfarces e tudo mais. Então, eles foram até lá e nos prenderam”, ele diz: “Parece uma troca justa para mim: passar um tempinho na cadeira em troca de todos outdoors que fiz”.

Após o incidente, English passou a atuar sozinho. “Às 14h de um dia existe um anúncio. E no outro dia, às 14h da tarde, milhares de pessoas estão presenciando sua ideia naquele mesmo outdoor. Nada consegue substituir isso na minha vida. Na internet é possível ter uma noção – e atingir, por exemplo, 50 mil pessoas. Mas, antes da internet, essa foi a única maneira que eu encontrei de fazer com que minha arte chegasse até as pessoas”, explica ele.

Make dollars not sence. #money #mondaymoney #popaganda #cash #popsurrealism #art #dollar #Madmoney #moneyistherootofallart

Uma foto publicada por ronenglishart (@ronenglishart) em

Além das intervenções, English já produziu as capas do primeiro e último disco do ex-guitarrista do Guns N’ Roses, Slash (veja abaixo). Ele também criou bonecos em parceria com o Pearl Jam.

Subvertendo ícones da cultura pop – do Mickey ao McDonalds, de Jesus Cristo a Charles Manson –, English promove uma arte de reflexão: primeiro, chama a atenção do olhar de quem passa pelas ruas; depois, diverte pelo uso de imagens conhecidas de maneira inesperada; por último, a mensagem transmitida (geralmente pessimista) causa certo desespero em relação aos assuntos tratados. A este tipo de produção, deu-se o nome de “popaganda”, e originou o documentário The Art and Subversion of Ron English,dirigido pelo espanhol Pedro Carvajal.

“Milhões de dólares são usados para criar campanhas coorporativas que promovem produtos. E, para mim, o diálogo tem apenas um lado: o quão incrível é o produto, ou o quão sua vida será melhor com ele. Então, penso: ‘Ninguém nunca fala o outro lado porque, quem está financiando não quer que eu conte este outro lado da história’”, diz English.

Exposição no Rio de Janeiro

Entre 21 de outubro e 21 de dezembro, Ron English tem 110 obras expostas na Caixa Cultural do Rio de Janeiro. “A maioria das pessoas me conhecem por fazer intervenções em outdoors e street art, mas existe outro lado meu que tem que ser exposto em galerias”, diz. English esteve no Brasil durante a semana de lançamento, mas disse que não faria nenhum intervenção em outdoors por aqui – “só arte de rua comum”.

Elogiando Os Gêmeos (“eles são os Rolling Stones nos Estados Unidos”), English também criou uma obra inspirada no Brasil (abaixo). A imagem foi inspirada pela ideia de um “efeito borboleta” na América do Sul – na qual uma pequena movimentação em um ladodo mundo pode provocar fenômenos de grande escala em outros locais.

The butterfly eject. #Brazil #southamerica #Butterfly #popsurrealism #popaganda #earth #evolution #rainforest #Popart #art #earthart

Uma foto publicada por ronenglishart (@ronenglishart) em

Ron English - Do estúdio para a rua

De 21 de outubro a 21 de dezembro de 2014 (terça-feira a domingo), das 10h às 21h

Caixa Cultural Rio de Janeiro – Galerias 2 e 3 – Av. Almirante Barroso, 25, Centro

Entrada gratuita