Deprimido, vingativo – e cômico

Em Aqui é o Meu Lugar, Sean Penn vive uma estrela da música que se aposentou para tentar resolver problemas do passado, mas sempre com um tom de humor

Itaici Brunetti Publicado em 28/07/2012, às 08h33

Sean Penn em Aqui é o Meu Lugar

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Atenção: o texto abaixo contém spoilers

Se Robert Smith, vocalista (e alma) do The Cure, resolvesse abandonar a música e se mudasse para alguma cidadezinha do interior dos Estados Unidos para levar uma vida pacata, longe dos holofotes, possivelmente ela seria parecida com a de Cheyenne, personagem vivido pelo ator Sean Penn em Aqui é o Meu Lugar. O filme chegou aos cinemas brasileiros nesta sexta, 27.

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Unhas pintadas, pó no rosto, batom vermelho nos lábios, coturno, cabelo armado e pintado de preto, e roupas escuras no melhor estilo gótico de ser. Esse é o visual que compõe o personagem de Penn, que anda devagar, só fala quando lhe convém e limita sua amizade apenas a uma garota mais nova que ele. Na trama, o músico deixou a profissão de lado por causa de dois jovens que se suicidaram ouvindo sua música depressiva. John Smith (até no sobrenome o personagem faz referência ao vocalista do The Cure), nome de registro do músico, tenta conviver na cidadezinha com essa culpa, de forma deprimida, distante do showbusiness e ao lado de sua fiel esposa, interpretada por Frances McDormand. Mas algumas coisas mudam quando ele recebe uma ligação dizendo que seu pai, com quem não falava há 30 anos, morreu. Smith precisa viajar até Nova York para comparecer ao enterro e reencontrar os parentes. Quando ele descobre que o pai passou a vida toda à procura de um nazista que abusou de John quando criança, e não o encontrou, o músico resolve ira atrás do mesmo para se vingar.

Embora o filme trate de assuntos sérios (morte, depressão, abuso infantil), o longa-metragem do diretor Paolo Sorrentino possui tons de cores vivas que deixam o clima mais descontraído, mesmo tendo um protagonista que tem tudo pra deixar o ambiente mais pesado. Sean Penn, que nos últimos anos raramente erra a mão na escolha de seus papéis, está muito bem na pele de Cheyenne. O ator faz com que o caricato (e muitas vezes cômico) personagem transforme o drama em comédia em várias cenas, sempre com tiradas espertas durante conversas indesejadas.

A cultura pop também está inserida no contexto do filme, principalmente a música. Por exemplo: a bandinha fictícia do início do filme interpreta uma música do cantor Bonnie Prince Billy. Já Cheyenne, em seu momento mais íntimo, dança pelo quarto ao som de “The Passenger”, de Iggy Pop, com movimentos que deixariam qualquer gótico saudosista com saudade dos anos 80. “This Must Be The Place”, nome original do filme, é uma música do grupo Talking Heads. Aliás, o vocalista da banda, David Byrne, faz uma ponta interpretando ele mesmo. Citações ao Arcade Fire e Mick Jagger, dos Rolling Stones, também estão presentes. E, claro, não tem como não se lembrar do músico londrino Boy George, ex-Culture Club, quando o protagonista se prepara para sair às ruas com seu melhor figurino.

Outra curiosidade: Cheyenne é casado há muito tempo com a mesma mulher (o filme não deixa claro há quanto tempo, mas é visível que são muitos anos, talvez décadas). Coincidentemente, o cantor do The Cure é casado há mais de 20 anos com sua namorada do colegial. Alguém duvida da semelhança entre os dois?

Assista abaixo ao trailer de Aqui é o Meu Lugar: