Run The Jewels não gostaria que o novo disco fizesse tanto sentido atualmente [ENTREVISTA]

Killer Mike e EI-P discutem a atualidade do quarto álbum do duo, atuar no pr´rprio programa fictício e Donald Trump

David Fear, da Rolling Stone EUA Publicado em 19/06/2020, às 15h32

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Run The Jewels (Foto: Timothy Saccenti/Divulgação)

Começa com uma introdução falsa de um programa de TV, um tiroteio, uma fuga e dois bandidos pela estrada como se fossem Thelma e Louise do rap agit-pop hardcore. A saída não é em grande estilo, mas com homens adultos despindo as almas enquanto mostram o dedo do meio para um esquadrão de tiro. Durante os 37 minutos que separam esses momentos no RTJ4, do Run the Jewels, o ouvinte escuta muito do esperado da dupla dinâmica de El-P e Killer Mike: distopias de ficção científica esbarrando em uma atitude de “fo**-se” socialmente consciente, letras densas, destreza verbal e batidas sombrias alimentando uma vibe enfurecida. É reconhecidamente o produto de dois amigos que sabem terminar as frases um dos outros e elogiar o estilo um do outro, ainda dedicados a erguer a própria bandeira. Um álbum do Run The Jewels, ou RTJ, em outras palavras.

Mas a diferença entre as colaborações anteriores do duo e a última coleção de músicas é imediata. As piadas sobre pênis e insultos de batalhas de rap estão em segundo plano, o humor tem um tom apocalíptico desta vez, e até mesmo as músicas de fantasia pulp-fiction como “Yankee and the Brave” e o hit “Holy Calamafuck” com a urgência de um alarme de incêndio. "O passado se irritou/É um amante enlouquecido", EI-P avisa em “Goonies vs. E.T.”, enquanto Mike chama atenção de pessoas “hipnotizadas e Twitter-izadas por caras imbecis” no verso seguinte. Destaques como “Walking in the Snow”, “A Few Words for the Firing Squad” e “Pulling the Pin”, com a cortesia de um refrão matador de Mavis Staples, transforma o cenário político geral no pessoal, e vice-versa. Até mesmo a produção - de EI-P, Little Shalimar, Wilder Zoby e convidados selecionados - incorporou samples desde a Gang Starr até Gang of Four, parece deixar tudo mais intenso.


“O último [álbum] tinha um pouco de fogo, muita água e uma imensidão de céus escuros”, explica EI sobre o álbum triste do duo, de 2016, RTJ3. “Para esse, seria inteiramente fogo”.


Dez anos de uma colaboração cresceu de um projeto paralelo de mixtape a atração principal do festival em tempo integral, Run the Jewels fez o que poderia ser a obra-prima da carreira - um épico misto de som e fúria que, de alguma forma, conseguiu sincronia com um momento extraordinário da história. O plano original era lançar o álbum online (de graça, como sempre, no site oficial) em abril, seguido por uma turnê como ato de abertura do Rage Against the Machine. Quando a pandemia suspendeu a sociedade e planos futuros de shows, a dupla optou por adiar a data para 5 de junho. Como os protestos contra a morte de George Floyd e Breonna Taylor começaram a varrer o país, decidiram lançar o RTJ4 alguns dias antes ("O mundo está infestado de porcaria", disseram em comunicado, "Então aqui está algo cru para ouvir enquanto lida com tudo isso. ”). E da noite para o dia, tudo, desde uma referência à morte de Eric Garner em "Walking in the Snow", até um lembrete de que "nenhuma revolução é televisionada e digitalizada" parecia completamente adaptado aos acontecimentos nas ruas. Tornou-se, nas palavras deles, "uma trilha sonora para o progresso". "Alguns ativistas me disseram ainda ontem: 'Cara, o álbum de vocês chegou no momento certo e falou exatamente como me sinto’", conta Mike.

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Durante a entrevista de uma hora via Zoom - El-P telefonou do interior de Nova York, enquanto Mike montou a corte na varanda da residência Atlanta, podendo ou não ter fumado no processo - Run the Jewels falou sobre fazer RTJ4, se o álbum é mais pessoal ou não que os anteriores, o motivo para os dias de raiva terem demorado e muito mais.

Tem uma frase, uma música ou uma batida que determinou o ritmo e liberou a energia do RTJ4 quando começaram a gravar?
El-P: Comecei no final de 2018 - saímos da turnê, voltamos às nossas vidas, estávamos exaustos. Assisti a um filme [Capone] e me casei; Mike fazia o que queria. Trabalhei por cinco ou seis meses na música antes de Mike chegar ao Brooklyn, onde montei um estúdio. E as duas primeiras músicas do álbum, "Yankee and the Brave" e "Ooh LA LA", foram as duas primeiras músicas que gravamos. Lembro de pensar: “Realmente espero que ele entenda para onde estou tentando ir com essa m**da". E no minuto em que toquei "Yankee" para ele, foi tipo…

Killer Mike: “Ah, isso sim!” [Risos]

El-P: Essas duas músicas saíram de nós no primeiro dia. Ficamos sentados, ouvindo e dizendo: "Oh, m**da!" Sentimos ter encontrado a base, a pedra angular, para a energia que queríamos ali. Foi disso que eu e o Mike conversamos: o último tinha um pouco de fogo, muita água e uma imensidão de céus escuros. Para esse, seria inteiramente fogo.

Onde posso assistir aos episódios de Yankee and the Brave, o programa ficcional que fecha o álbum? Foi lançado um box de Blu-ray?

EI-P: [Risos] Estamos trabalhando nisso. Mike e eu crescemos nos anos 1980, então assistimos a muitos desses programas.

Killer Mike:A Super Máquina, Esquadrão Classe A, The Dukes of Hazzard...

EI-P: Era nosso programa dos anos 1980 de brincadeira. Por isso tem a esquete no final - faz um loop de volta. Você percebe que acabou de ouvir um episódio de Yankee and the Brave. Foi o pontapé inicial do álbum, essa música. Também foi tipo, ‘Como podemos capturar o sentimento das aberturas das séries que assistíamos?”

Dá para imaginar você e Mike correndo, Mike desliza pelo capô do carro…
Killer Mike: Então me jogo no banco do Grand National ...
El-P: Tento superá-lo e deslizo através do capô, acidentalmente quebro o espelho lateral e caio de cara. Sim, é bem isso.

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Para dizer o mínimo, muita coisa aconteceu desde o lançamento de Run the Jewels 3 em dezembro de 2016. E, considerando o estado da união desde então, tinha muito conteúdo para sentir irritação e falar sobre. Como focaram a raiva ao criar o álbum, considerando o período de quase quatro anos de raiva sem forma e por toda parte?

Killer Mike: O que você disse é verdade - mas em termos das condições da minha comunidade, sentimos essa raiva por muitos presidentes. Lembro dos meus avós conversando sobre [Richard] Nixon. Lembro dos meus pais conversando sobre a decepção de viver sob comando de [Ronald] Reagan. Bill Clinton, apesar de se declarar um aliado, apoiou mais programas penitenciários do que muitos presidentes anteriores e usou prisioneiros negros e brancos pobres como adereços quando fez um discurso na frente de um monumento confederado em Stone Mountain. Não estou dizendo que Trump não é horrível. Estou dizendo que a comunidade negra está acostumada com as falhas de políticos conosco.

Claro. A raiva não começou com Trump.
Killer Mike: Exatamente. Ao mesmo tempo, me encoraja que os norte-americanos percebem um inimigo comum no momento. Me encoraja a ligação da marcha pelos direitos dos cidadãos negros com a luta pelos direitos das mulheres, pelos direitos dos imigrantes legais e ilegais, por muitas outras lutas pelos direitos humanos básicos. Todo mundo atingiu um ponto de "basta". Mas sim, ficar com raiva é uma aflição ao longo da vida para a comunidade negra. Canalizar é mais difícil.

El-P: Sempre considerei Trump como o tumor que finalmente torna o câncer com o qual você precisa lidar evidente. Ele é o sinal mais óbvio de uma doença em desenvolvimento e putrefação há muito tempo. O fato é que, quando eu e Mike fizemos essas músicas, estávamos lutando em nossas mentes e corações algo muito maior do que apenas um homem.
Dito isto, algumas referências no novo álbum que são específicas para questões políticas e que fazem parte da presidência de Trump - particularmente meu verso em "Walking in the Snow", quando falo sobre o que são basicamente campos de concentração no fronteira. Ele não inventou isso, mas certamente revigorou o conceito de enjaular as pessoas. Há uma raiva específica sendo canalizada para lá. Mas você não deseja criar um álbum que fale apenas até 2020.

Killer Mike: 2020 nem sequer fala de 2020! [Risos]

El-P: Digo uma coisa, ficaríamos muito felizes se o nosso disco não fizesse nenhum sentido no momento. Eu ficaria perfeitamente contente se fosse apenas "Ouça esses dois idiotas paranóicos" e não refletisse sobre o que está acontecendo do lado de fora de nossas portas. Porque isso significaria que o mundo é um lugar melhor. Infelizmente, não é esse o caso. Eu disse ao Mike que o próximo álbum será sobre como estamos em perfeitas condições físicas, somos ricos pra c**alho e estamos vivendo nessa sociedade utópica perfeita. Será como os Jetsons, mas com pessoas negras. [Risos]

Não quero ser muito egocêntrico aqui, mas estou começando a suspeitar que talvez estejamos escrevendo os fatos antes do acontecimento - e veja onde estamos agora. Então, no próximo álbum, vou rolar os dados e escrever estou mais alto e temos vários Grammys.

Você acha que, agora que Run the Jewels tem uma década e vocês estão na casa dos quarenta, estão dispostos a ser um pouco mais pessoais nas letras? Já foram pessoais antes - e El, você fez "Last Good Sleep", do Funcrusher Plus da Company Flow, há quantos anos - uns 25 anos atrás?

EI-P: 1997, acho. Então sim, quase.

Mas com RTJ4, falam mais de família, e Mike, você escreveu um verso sobre a morte da sua mãe…
Killer Mike: Quero dizer, considero "Scared Straight" [do álbum Monster, de 2003] pessoal. Quando digo: "Mamãe, não quero mais vender crack" - eu era um traficante de drogas! Sabia que ir para prisão ou morrer nas ruas seria desperdício de uma mente e um coração destinados a um propósito maior. E mesmo as mixtapes que lancei, aquilo era uma motivação pessoal no meio da depressão para continuar fazendo música… Então o pessoal aparece em sabores muito diferentes.

El-P: Você não é a primeira pessoa a perguntar isso, e foi interessante ouvir: "Ah, você parece mais pessoal". Mas sempre fomos pessoais, acho. Mesmo no primeiro disco do RTJ, tocamos nesses temas ... Embora seja mais uma coisa de limpeza do paladar. É um pouco mais alegre.
Mas se analisar nossa carreira antes, sempre tocamos nesse ponto. No segundo álbum, quando realmente começamos a perceber que Run the Jewels seria nossa voz, um projeto além de “essa é uma mixtape divertida” e se tornou “é isso que as pessoas vão ouvir da gente”, sabíamos que seria melhor colocar o coração. Ser biográfico para nos sentirmos satisfeitos como artistas. Não poderia parecer, "Oh, estão guardando todas as coisas difíceis ou pessoais para algum outro projeto futuro".

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“Sempre considerei Trump como o tumor que finalmente torna o câncer com o qual você precisa lidar evidente.” - EP-I


"Early", de Run the Jewels 2, parece um bom exemplo disso.
El-P:"Early" é muito pessoal - faz parte. Quando chegamos ao RTJ3, havia muita emoção naquele disco. Tanto que, no novo, havia uma espécie de regra tácita entre nós para revelar um pouco mais e que isso contasse. "OK, então estamos socando sua cara há 27 minutos - agora você está pronto para outra coisa". Quando chegou a hora de Jaime e Mike tirarem as capas de super-heróis e fazerem o "pelotão de fuzilamento", e são apenas dois caras que mostram tudo, parecia que realmente importava.

Killer Mike: O público que eu e El trouxemos conosco, os fãs que criamos desde o primeiro álbum - eles nos deram um espaço seguro para ficar vulneráveis. Desta vez, para aproveitar o que El acabou de dizer, esses momentos pessoais foram tiros fatais. Não pulverizamos tudo. Com o RTJ3... Quero dizer, não vou para a frente. Lidei com gatilhos constantemente ao longo do ano em que fizemos aquele álbum. Estavam matando negros a torto e a direito, e lembro-me de dizer a El: "Cara, estou acabado". Com este álbum, sabíamos aproveitar mais esse sentimento. Mesmo tirando essa armadura…

Quero dizer, olhe para "Firing Squad": "Mas minha rainha diz que precisa de um rei / não de outro rapper viciado". Isso é de uma conversa real com minha esposa, e ela me disse: "Você precisa descobrir como não ficar tão deprimido. Precisa descobrir como fazer tudo isso sem beber, tomar pílulas ou fazer outras coisas para se acalmar. Não pode sentir dor sempre; precisa encontrar coisas para se alegrar também”. Elae me diz, "Olha, você vai cuidar de mim e dessas crianças. Você não pode usar a capa o dia todo, todos os dias! Não me importo se usar a capa nos fins de semana, mas… Vai arranjar tempo para ser marido e pai", e agradeço a ela. [Risos]

É o peso - nem o peso, mas a humanidade - que motivou as pessoas em termos pessoais. É muito mais simplificado dessa vez. Você supõe que apenas vamos nos esforçar, mas falamos de coisas que pesam em nossos corações. E então, espere alguns minutos e você terá alegria. Essa é a parte "Yankee" aparecendo novamente. Termina com alguém conversando com um esquadrão de tiro, mas você nunca ouve os tiros. Os heróis não estão mortos. Eles estão de volta!

El-P:“A Few Words for the Firing Squad” é uma música muito importante, porque tenho que dizer algumas coisas para as pessoas importante da minha vida. Em partes, é uma carta para minha esposa, para explicar quem é o homem ao lado dela todas as manhãs. Você mencionou "Last Good Sleep", e nessa música, abordo algumas coisas que aconteceram com minha família. É algo que somente eles vão entender, sabe? Há mensagens direcionadas às pessoas em nossas vidas ao invés do público. Minha mãe será a única pessoa a entender algumas das falas. Minha irmã será a única pessoa a entender outras. A esposa de Mike será a única pessoa com outras partes. Só essas pessoas saberão o que realmente significa.

A ideia era terminar com os golpes seguidos de “Pulling the Pin” e “A Few Words for the Firing Squad”?

El-P: Nunca foi uma questão sobre o lugar dessas músicas. Troquei as seis primeiras músicas um pouco, na busca pelo bop certo. Mas ficou bem claro que "Pulling the Pin" e "Firing Squad" era isso. Eram a catarse.

Killer Mike: Somos obsessivos com a ordem. Uma vibe Ice Cube e Chuck D.

Como assim?

Killer Mike: Li IceCube dizer que Chuck D o ensinou a importância do sequenciamento quando fez Most Wanted de AmeriKKKa. Cube, cara - ele faz uma cinematografia incrível em discos, e o sequenciamento faz parte disso. El é um gênio nisso.

El-P: Mike foi realmente generoso, sou produtor há muito tempo agora e uma das minhas habilidades é saber como montar um disco para fluir corretamente. Esse realmente se escreveu.

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Vamos falar sobre a estrutura de "Pulling the Pin" por um momento. Começa com esse olhar macrocósmico da projeção do sistema social para atrapalhar as pessoas e, em seguida, analisa essa visão íntima de como esse sistema está afeta o indivíduo. É como passar de uma aula de história para um monólogo interno.

El-P: E essa, meu caro, é a chave do nosso relacionamento em termos de como nos reunimos de forma criativa. É exatamente o que acabou de descrever. É como o "Early" também funciona. É um espaço onde podemos abordar a mesma coisa de diferentes ângulos, uma das coisas que amo fazer em parceria com Mike. Porque estamos cientes de quais são as tendências do outro. Meu objetivo é muitas vezes observar a macro como as coisas funcionam, e [com] “Pulling the Pin”, realmente tentei escrever uma visão muito clara e sucinta do mal - como a coisa com a qual estamos lidando são as mesmas com as quais lutamos desde a criação do ferro. É quase como o início de um filme acima da Terra e a aproximação lenta, quando chega ao verso de Mike, está na rua e em casa. Sinto que ele pode pegar essas coisas conceituais e torná-las reais. Mike completa o pensamento para mim. E espero que eu forneça algo semelhante para ele também.

Killer Mike: Sem dúvida, El. Muitas vezes há uma ignorância deliberada entre as pessoas para quem os EUA trabalha. O que El faz vai além de apenas apontar os mecanismos, mas ajuda a comunidade em geral a entender como esses mecanismos realmente afetam as pessoas, além daquelas parecidas comigo. É tentador pensar que certas coisas não se aplicam a você. Estamos aqui para dizer que eles se aplicam a todos nós.

Uma das coisas que Run The Jewels me permitiu é ser mais negro que nunca! [Risos] Porque, enquanto El fala com a comunidade mais ampla, me permite contar minhas histórias. Sabe, me sentei no final da cama, ouvindo Scarface e pensei: "Que p**ra é essa?" Acho que esses versos ressoam com muita gente. Tento me esforçar porque há muitas pessoas que não sabem como os sistemas operam e o motivo para tudo parecer errado. Nos disseram para trabalhar duro e tudo vai dar certo. Então você começa a perceber algumas mentiras. Existem algumas pessoas tentando te impedir. Tento contar isso à minha comunidade há 30 anos. Descobri que funciona muito melhor se você disser: "Conheço um cara..." De repente, as pessoas não sentem que você está falando sobre um sistema. Sentem que você está falando sobre eles.

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El-P: Há momentos no álbum em que tento ativamente conectar o sofrimento às pessoas que pensam que estar além disso, "Ei, isso não está acontecendo conosco". Simplesmente não entendem da mesma maneira. Então, você tenta colocar na cabeça a importância de se ofender com sofrimento, fim de papo. Precisa ficar com raiva e ciente dos fatos, também é uma afronta para você. Precisa saber - não são casos isolados, não há segurança. Você não está fora da bolha.

“Walking in the Snow” fala exatamente sobre isso. Se eu não puder apelar à empatia, chame para o nível mais baixo da lógica. “Ei, então, mesmo que você não se importe com ninguém, quem acha que vai estar nas prisões e nas gaiolas quando as pessoas com quem você não se importa sumirem? Acha que vamos fazer uma festa e todas essas gaiolas serão desmontadas? ‘Confira, pessoal, missão cumprida’?”

Mike, você falou sobre El-P ser um escritor realmente estruturado, enquanto você tem a tendência de simplesmente deixar as coisas fluírem da mente. Após 10 anos juntos, como essa diferença afetou a maneira como vocês escrevem agora?

Killer Mike: Fui criado na igreja Pentecostal do Sul, e há um fenômeno chamado "pegar o Espírito Santo", no qual uma pessoa sente algo sendo canalizado através dela. É o mais próximo para descrever como acontece comigo. Posso ficar sentado por duas horas, fumando e falando m**da, sem nada acontecer… Então algo apenas fala comigo. Literalmente, fala comigo - posso ouvir na minha cabeça. Então é tipo, ‘tenho que gravar agora’. Chegamos ao ponto de sempre ter um microfone pronto. Porque, ao menos que você grave na hora, desaparece.
Eu lembro que El me viu escrever pro último álbum, no entanto, e ele disse, “Pare com isso. Apenas pare." [Risos] Para mim, escrever é diferente... Mesmo que eu nunca use nada, é como faço para afastar minha mente consciente. Mas El me via rabiscando coisas e perguntava: "O que você está fazendo?"

El-P: Porque trabalho com Mike há uma década, e como produtor dele...

Killer Mike: [Risos] Foi assim que tudo começou.


Tradução de Larissa Catharine Oliveira


+++ A PLAYLIST DO RUBEL