Segunda temporada de Quem Matou Sara? repete clichês e exagero, mas consegue prender público ao cumprir função novelesca [REVIEW]

Com mais mistérios, segunda temporada de Quem Matou Sara? estreou nesta quarta, 19 de maio, na Netflix

Camilla Millan Publicado em 19/05/2021, às 10h00

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Atriz Ximena Lamadrid em Quem Matou Sara? (Foto: Divulgação/Netflix)

[Atenção: Contêm spoilers de Quem Matou Sara?]

Para os fãs de suspense, Quem Matou Sara? é um prato cheio - até demais. A série mexicana é uma das apostas da Netflix, e após o sucesso da primeira temporada, os novos episódios estrearam nesta quarta, 19, para adicionar ainda mais mistérios (e clichês) para à trama. 

Dirigida por David “Leche” Ruiz, Carlos Bolado e Poncho Pineda, a produção tem êxito quando compreendida como novela. O exagero nos elementos melodramáticos, diálogos intensos, traições, vingança e fotografia misteriosa preenchem a atmosfera novelesca, atrativa para um grande público. Contudo, a série também comete erros, como os clichês que a acompanham desde a primeira temporada.

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Vamos combinar: uma história de alguém preso injustamente em busca de vingança não é nova. Não há nada de inédito na filha de um poderoso se rebelar e se juntar ao mocinho. A segunda temporada retoma esses clichês enquanto tenta dar continuidade a uma narrativa com potencial, apesar de alguns furos de roteiro.

Na trama inicial, Sara (Ximena Lamadrid) morre depois de cair de um paraquedas cujas cordas estavam rasgadas. O irmão da menina, Álex (Manolo Cardona), é preso durante 18 anos pela morte dela pois o poderoso patriarca César (Ginés García Millán) o convence a assumir a culpa para proteger o filho Rodolfo (Alejandro Nones). Após sair da prisão em busca de vingança, ele se relaciona com a filha de César, Elisa Lazcano (Carolina Miranda), que também quer saber a verdade sobre a família. 

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Ao final da primeira temporada, muitos acreditam ter a resposta à principal pergunta que nomeia o título: Quem Matou Sara? Isso porque, a matriarca dos Lazcano, Mariana (Claudia Ramírez), manda Elroy (Héctor Jimenez) cortar as cordas do paraquedas em um envolvente flashback do dia do assassinato.

Apesar disso, as informações inéditas apresentadas logo nos primeiros momentos dos novos episódios põem qualquer expectativa em cheque. Este é um dos principais recursos da segunda temporada: colocar o espectador em dúvida. A forma a qual a produção o faz, entretanto, pode ser forçada em alguns momentos.

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Os capítulos inéditos trabalham com diversas lembranças do dia do assassinato de Sara, cada um com cenas “escondidas” anteriormente. Contudo, ao invés de apresentar diferentes perspectivas sobre o mesmo período temporal precedente à morte da personagem, a série aborda, várias e várias vezes, momentos apresentados para o público, mas cortados.

A sensação restante é de que a tarde do assassinato -  ocorrido 18 anos antes -  foi, de fato, infinita. A cada momento, uma nova situação é adicionada aos flashbacks - embora aumente o mistério, aparentemente força as situações. 

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Dessa forma, a dúvida sobre o assassino de Sara é retomada nos episódios inéditas - mas não apenas isso. A questão perde espaço para uma pergunta antes incontestável: Quem foi Sara? Para responder, as envolventes cenas de ação da primeira temporada são, infelizmente, substituídas por uma intensa pesquisa de Álex, que percebe não conhecer a irmã completamente.

Por isso, soma-se à investigação momentos de mais enigmas e revelações ao longo das descobertas de Álex. Para continuar a envolver os espectadores sem a quantidade de ação da primeira temporada, os novos capítulos constroem uma atmosfera de muito suspense e grandes reviravoltas. No entanto, a alternativa pode não ser suficiente para os fãs dos diversos planos mirabolantes do protagonista nos capítulos anteriores. 

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Ao menos, a investigação do personagem dá continuidade aos últimos (e instigantes) momentos da primeira parte, quando Aléx descobre um diário assustador de Sara e encontra um cadáver no quintal na casa. Como é possível perceber, a segunda temporada tem diversas informações e mistérios a serem resolvidos, mas ao invés de focar neles, a trama adiciona cada vez mais fatos e deixa a história bem complexa. 

A quantidade de tramas adjacentes envolvidas pela narrativa principal são apresentadas incessantemente. Novos personagens, traições e planos inéditos realizados por pessoas fora do núcleo central. Sim, pode ser muito confuso - e reafirma o esforço da série em chocar o espectador muitas vezes, mas sem dar tempo para aprofundar em nos respectivos assuntos.

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Junto à potente trilha sonora e fotografia certeira, diálogos intensos e muito suspense dão ritmo à narrativa. As revelações conseguem cumprir a função de prender o espectador - e o drama dá o tom novelesco. 

Um dos equívocos da segunda temporada é retratar as mulheres como vilãs. Sara, antes vítima, torna-se uma menina instável, agressiva e incontrolável. A série propõe, por meio dos flashbacks, que as atitudes da personagem possam ter causado a própria morte.

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Apesar de parecer uma reviravolta impressionante, a descoberta desse “novo lado” de Sara ganha muito espaço e praticamente substitui a investigação do real assassino. Quase como se as atitudes da menina justificassem a morte dela e a rede de mistérios por ela envolvida.

Não é só, porém, a segunda temporada também dá mais ênfase a maldade de uma personagem cujas ações são conhecidas pelos espectadores. Mariana Lazcano (Claudia Ramírez) ganha, nos novos capítulos, uma característica ainda mais criminosa, sobrepondo-se ao poderoso César.

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A mulher é apresentada como a verdadeira articuladora dos crimes em uma tentativa totalmente desnecessária de mudar a imagem do patriarca dos Lazcano. Ao longo dos episódios, o homem é praticamente retratado como uma pessoa frágil, empática e manipulado pelos outros. É muito fácil colocar a culpa nas mulheres enquanto o homem é inocente, não é mesmo?

Decepciona o quanto a narrativa se perde em clichês (e inclusive estereótipos) da “vítima que não é vítima”, “mulher manipuladora” e do homem injustamente tido como vilão quando, de fato, “só queria fazer o bem”.

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Ao menos, o roteiro consegue ter pontos positivos ao responder algumas escolhas narradas  na primeira temporada. A barriga de aluguel procurada por Chema, filho de César Lazcano, e o marido Lorenzo, ganha nova relevância nos novos episódios. A história de Marifer, ex-melhor amiga de Sara e pessoa anônima que envia mensagens para Aléx, também é apresentada por um novo ângulo.

A Rolling Stone Brasil teve acesso aos episódios iniciais da segunda temporada - suficiente para entender que o aspecto novelesco da produção deve continuar. Os mistérios, drama e a complexa rede de acontecimentos parece ficar mais intensa a cada capítulo. A expectativa é a de um grande desfecho para responder alguma das perguntas, ao invés de apenas adicionar novas questões à narrativa. 

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Caso não haja grandes respostas, os episódios continuarão a prender a atenção dos espectadores com muitos mistérios, mas a narrativa pode ficar saturada com informações novas sendo adicionadas incessantemente.

Disponível na Netflix, a segunda temporada de Quem Matou Sara? tem oito episódios, cada um com cerca de 40 minutos. 

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Vozes e Vultos (2021) estreou na última quinta, 29, no catálogo da Netflix e, em menos de uma semana, garantiu um lugar no Top 10 da plataforma de streaming no Brasil. Dirigido e escrito por Shari Springer Berman e Robert Pulcini, o longa-metragem é um ótimo entretenimento para quem adora histórias sobrenaturais.

Baseado no livro All Things Cease to Appear, de Elizabeth Brundage, o filme acompanha a mudança de um casal de Nova York para uma cidade do interior chamada Chosen. Infiltrado com alguns clichês do suspense e do terror, a obra ganha ritmo quando a família percebe que a nova casa está cercada por mistérios desde quando foi habitada pela primeira vez, no final do século XIX.

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Ainda não assistiu Vozes e Vultos? Então confira 4 motivos para ver o longa-metragem hoje mesmo:

Elenco

Vozes e Vultos se destaca pelo elenco brilhante formado por Amanda Seyfried (Mank), James Norton (Adoráveis Mulheres), Natalia Dyer (Stranger Things), Alex Neustaedter (A.X.L.) e Rhea Seehorn (Better Call Saul).

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Referências culturais

O longa carrega inúmeras referências culturais, desde Caravaggio até Emanuel Swedenborg, cientista e espiritualista sueco que conquistou muitos seguidores, como o artista George  Inness e diversos personagens da cidade de Chosen.

As pinturas são um elemento fundamental da fotografia e trazem uma proposta interessante ao se misturarem com as cenas do filme.

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Suspense sutil

Se você adora histórias sobrenaturais, mas detesta filmes repleto de sustos ou cenas de horror, Vozes e Vultos é o filme ideal para você. Apesar de ser classificado para maiores de 18 anos, o longa traz um suspense sutil, o qual pode ser apreciado com tranquilidade pelos espectadores mais medrosos.


Comportamentos tóxicos e perigosos

Além da faceta sobrenatural, o longa explora problemas extremamente humanos, como relacionamentos perturbados por comportamentos manipuladores e tóxicos.

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"Acho que é uma noção muito atual, pois estamos vendo esse tipo de revolta cultural acontecendo com 'pessoas tóxicas' que se safaram por tanto tempo recebendo seu castigo," disse Pulcini para o Decider, segundo o Adoro Cinema.

Ele continuou: "Há algo muito satisfatório sobre essa mudança de quem é realmente condenado nesta história e quem tem o poder de fazer isso. Há um poder espiritual, você sabe, poder feminino neste filme que realmente entrega o final."

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