Sem patrocinadores, Rio das Ostras Jazz & Blues Festival 2016 enfrenta a crise econômica e fez uma festa enxuta

A 14ª edição da tradicional festa do blues e jazz da cidade do litoral fluminense aconteceu entre 18 e 20 de novembro de teve entre as atrações Bob Stroger e Deanna Bogart

Antônio do Amaral Rocha, de Rio das Ostras Publicado em 26/11/2016, às 10h37 - Atualizado em 27/11/2016, às 02h51

Grupo Afrojazz

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Novamente sem aportes de verbas oficiais e recebendo apoio apenas da prefeitura local, mais uma vez os produtores tiveram que arcar com os custos da empreitada na 14ª edição do Rio das Ostras Jazz & Blues Festival. Neste ano, o evento foi realizado entre 18 e 20 de novembro e contou com menos palcos em relação aos primeiros anos da festa. Por obra do aguerrido produtor Stenio Matos o evento driblou as incertezas, a crise e também as circunstâncias (dentre elas, a realização das Olimpíadas de 2016 no Rio de Janeiro, acontecimento que fez com que o festival tivesse que ser adiado). Mesmo com menor investimento em divulgação, o público fiel respondeu ao chamado e cerca de 50 mil pessoas compareceram a esses três dias de festa. As dificuldades de orçamento também refletiram na lista de atrações neste ano, que teve predominantemente conteúdo nacional. Foram apenas dois nomes de fora do país: o velho blueseiro de 87 anos Bob Stroger e Deanna Bogart, que muito bem representaram as vertentes do blues e do “blusion”, que é uma fusão divertida e sofisticada de boogie-wogie, blues contemporâneo, country, jazz e balada – essa fórmula faz a fama de Deanna.

Bocato com a Jazz Acid e Gilson Peranzzetta com a Brass de Pina foram os destaques da noite de sexta-feira, 18, no palco Costazul

Já é tradição o festival começar com uma big band. Nesta edição, a tarefa coube à Onda de Sopros Big Band, comandada pelo maestro Luiz Felipe Oliveira, que trouxe temas clássicos da música brasileira como “Asa Branca” (Luiz Gonzaga), “Os Boêmios” (Anacleto de Medeiros), além de composições de Astor Piazzolla (“Libertango”), e até “Bohemian Rhapsody”, do Queen. O diferencial da apresentação da Onda de Sopros foi que enquanto tocaram “Libertango”, duas bailarinas e um bailarino da Cia. Três em Ponto, Yasmin Coelho, Polyana Lott e Felipe Carlos, mostraram graciosos e sensuais passos de dança.

O festejado maestro, arranjador e pianista Gilson Peranzzetta e sua banda Brass de Pina foram a segunda atração da noite. A big band também apresentou clássicos da MPB, com arranjos especiais e um tema de Peranzzetta composto para o falecido pianista Luiz Eça cujo título é um trocadilho com seu nome: “Luiz, Essa é pra Você”. A sonoridade da big band teve ótima receptividade por parte do público que já começava a lotar o espaço Costazul.

O trombonista Bocato com a sua Jazz Acid tiveram uma noite de glória nesta edição do festival, a ponto de serem considerados uma das melhores atrações, senão a melhor, de todo o evento. Bocato é simpático, carismático e irrequieto no palco. Aparentemente tímido, fala pouco, mas contou uma saborosa história ocorrida em uma casa de jazz em São Paulo que envolve Paul McCartney. Na ocasião, ele mostrou ao beatle uma versão jazzística que fez para “Oh, Darling” e Paul ficou tão impressionado que eles acabaram fazendo uma jam madrugada adentro. A história introduziu a cover em questão, como não poderia deixar de ser. O setlist teve também uma versão ácida de “Bananeira”, de João Donato. Falando à reportagem da Rolling Stone, Bocato se mostrou uma pessoa preocupada com a cultura brasileira e com os rumos políticos do Brasil. “Festivais desse tipo mostram que o Brasil é muito mais do que essa tristeza e baixo astral. O Brasil é jazz, é rock, é samba. O mundo precisa do Brasil, da música e da cultura brasileiras, mas ainda não sabe disso”, sentenciou.

Depois do arrebatador show de Bocato, o guitarrista argentino residente no Brasil Danny Vincent teve a ingrata tarefa de manter o astral elevado. E conseguiu, porque o diapasão mudou com a apresentação de clássicos do blues rock com sotaque latino. Ele contou com a participação especial de Flávio Guimarães, um dos pioneiros do blues no Brasil e criador do Blues Etílicos, dando suporte na gaita.

A noite foi encerrada pela banda Jamz – que ganhou evidência recente no programa de televisão SuperStar –, se apresentando pela segunda vez no festival. Se em 2014 ela parecia teen demais, desta vez deu para se notar um amadurecimento na sonoridade. O grupo trouxe um repertório mais groove e mais condizente com a proposta. A cantora Izzy Gordon participou do show, que ainda teve a canja estrelada do gaitista Jefferson Gonçalves.

A multi-instrumentista Deanne Bogart e o baixista Dudu Lima comandaram o sábado, 19

Diferente da primeira noite, que estava com o tempo fechado e ameaças de chuva, o sábado, 19, teve céu aberto e estrelado e trouxe como primeira atração a já tradicional e esperada performance da Orquestra Kuarup, com temas clássicos de música brasileira e sob a direção e regência do maestro Nando Carneiro.

Em seguida, o trio de Dudu Lima formado pelo próprio no contrabaixo, Ricardo Itaborahy (teclados e vocais) e Leandro Scio (bateria e percussão) fez uma bela homenagem a Milton Nascimento em uma performance que teve a participação mais do que especial do pianista, tecladista e arranjador Wagner Tiso. No repertório de temas transformados em verdadeiras suítes constaram “Fé Cega, Faca Amolada”, “Clube de Esquina No 2”, “Cravo e Canela” e “Vera Cruz”. Lima desceu e foi tocar no meio da plateia alongando o tema “Clube de Esquina No 2” por mais de dez minutos. Em seguida, com a entrada de Tiso, eles fizeram juntos “Cafezais” e “Nada Será Como Antes”, já no bis. Foi um show arrebatador.

Com o espaço Costazul já totalmente lotado, depois de três números de blues com sonoridade sessentista a banda catarinense The Headcutters chamou ao palco o primeiro nome internacional. O blueseiro, cantor e baixista de 86 anos Bob Stroger apareceu trajando terno, com o paletó cheio de bottons com motivos musicais, chapéu e botas. Ele já chegou mostrando a que veio, correndo pelo palco e destilando interpretações energéticas de blues com sua voz rascante. Durante parte do show assumiu o baixo e interagiu o tempo todo com a plateia – desceu do palco e foi cantar no meio do público, recebendo e retribuindo beijos e abraços. Posto isso, verdade seja dita: Mr. Bob Stroger só pode brilhar porque contou com a excelência do acompanhamento dos Headcutters: Joe Marhofer na harmônica e vocal, Ricardo Maca na guitarra e vocal, Arthur Garcia no baixo, e Leandro Barbeta na bateria.

Nesta segunda participação no Rio das Ostras (a primeira foi na edição de 2014), a Afro Jazz, liderada pelo trompetista Eduardo Santana, trouxe uma energética fusão do jazz com a música de raiz africana, com muito groove. Em dado momento, o líder lembrou o Dia da Consciência Negra, discursando sobre discriminação racial e a necessidade da afirmação, conseguindo a primeira manifestação política do festival com um sonoro “Fora Temer” vindo da plateia. A cantora britânica Jesuton, atualmente radicada no Rio de Janeiro, se apresentou como convidada.

Poucos poderiam esperar a surpresa que viria no último show daquela noite. A Big Joe Manfra Blues Band (Manfra na guitarra, Cesar Lago no baixo e Claudio Infante na bateria), mais o gaitista convidado Jefferson Gonçalves, são velhos conhecidos dos frequentadores do festival e dos circuitos de blues do Rio de Janeiro. Foram justamente eles se postaram no palco. Depois de um set introdutório, chamaram a premiadíssima multi-instumentista e cantora Deanna Bogart, que se notabilizou com o que se chama de “blusion”. A simpática e sorridente instrumentista e intérprete se alternou entre o sax e o piano, realizando uma performance impecável e contagiante. A festa ainda teve a presença da cantora Taryn Szpilman que, em dueto com Deanna, fez uma versão arrebatadora de “Georgia on My Mind”, de Ray Charles.

Ativismo político, festa da maconha e “Fora Temer” deram o tom na Lagoa do Iriry no dia 20

O velho blueseiro Bob Stroger e a banda The Headcutter fizeram o primeiro show do último dia sob um sol inclemente e para um público estimado em 15 mil pessoas. O showman repetiu a vibrante performance da noite anterior. Desta vez mais relaxado, desceu para cantar e interagir, para desespero dos poucos seguranças, mas tudo ocorreu sem problemas. Ao deixar o palco, declarou à reportagem da Rolling Stone: “As pessoas aqui são tão gratas pela música, sabe? Lá nos Estados Unidos é diferente. Eu gosto de vir aqui porque sou muito apreciado aqui. Então eu quero agradecer a todos os meus amigos e fãs por apoiarem a música aqui. Não apenas o blues, mas o jazz... seja o que for, sabe? Por apoiarem a arte da música”.

Deanna Bogart e a Big Joe Manfra Blues Band, mais Jefferson Gonçalves e Taryn Szpilman, fizeram o show de encerramento na Lagoa de Iriry com a mesma excelência da noite anterior. Em dado momento um coro de “Fora Temer” tomou conta do espaço obrigando Deanna aguardar a manifestação antes de seguir (e aparentando surpresa, talvez por talvez não entender o que estava acontecendo). O clima de ativismo e contestação continuou quando Taryn Szpilman mostrou um cartaz recebido da plateia com os dizeres “Maconha Cura”, que recebeu calorosa ovação dos militantes da causa. Um momento particularmente marcante, e que já se tornou rotina em shows no espaço da Lagoa de Iriry, aconteceu quando Deanne desceu do palco e tocou no meio do público, caminhando por um corredor formado por mãos dadas acima das cabeças para celebrar a passagem da saxofonista. O show (e também a 14ª edição do festival) foi encerrado com “Come Together” (Beatles) e “I Got You (I Feel Good)”, de James Brown. Agora só resta esperar que a crise econômica que se avizinha permita, sem tropeços, a realização, em 2017, da 15ª edição do Rio das Ostras Jazz & Blues Festival.