Será que a história de Ela poderia acontecer? Os experts se posicionam a respeito

Três pensadores da futurologia, Ray Kurzweil (filósofo da tecnologia), Jaron Lanier (pioneiro da realidade virtual) e Douglas Rushkoff (teorista sobre o cyperespaço), questionam se a realidade do filme pode mesmo ser o nosso futuro

Jonathan Ringen Publicado em 14/02/2014, às 17h43 - Atualizado em 15/02/2014, às 14h49

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Reprodução

No novo filme de Spike Jonze, Ela, que estreia no Brasil nesta sexta, 14, um cara solitário chamado Theodore (interpretado por Joaquin Phoenix) se apaixona por um sistema operacional superinteligente, capaz de sentir empatia, autodenominado Samantha (com voz de Scarlett Johansson). O filme é uma história estranha e encantadora, além de um deleite visual de design retrofuturista – mas será que o mundo do filme poderia se tornar uma realidade? É um mundo no qual gostaríamos de viver? A inteligência artificial será sexy, como Samantha, ou apavorante, como em O Exterminador do Futuro? Ou será que a ideia de um computador com emoções humanas é pura ficção científica? Três pensadores da futurologia dão a resposta.

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Ray Kurzweil (autor e ilósofo da tecnologia)

“Pelos meus cálculos, inteligência artificial do nível Samantha vai aparecer em 2029, mais ou menos. Mas não será uma coisa “nós” contra “eles”, ou humanos aperfeiçoados contra máquinas. Não importa se as máquinas serão inimigas ou amantes, vamos nos integrar com elas. Seremos aperfeiçoados – e eu ainda afirmaria que já estamos sendo aperfeiçoados com os dispositivos que temos. Já conseguimos estender nossa capacidade mental com computadores. Mesmo que eles ainda não estejam dentro dos nossos cérebros e corpos, essa é uma distinção arbitrária. Eu escrevi meu livro mais recente levando uma fração do tempo que levei no meu primeiro livro só por causa de todas essas tecnologias que temos. E elas estão ficando cada vez mais perto. Existem dois bilhões de smartphones no planeta. Em 2030, quando os computadores terão o tamanho de células, eles poderão entrar nos nossos corpos sem dificuldade e sem serem invasivos.”

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Jaron Lanier (pioneiro da realidade virtual)

“As pessoas já estão dispostas a acreditar que o Facebook, Google ou a Netflix nos conhecem – mas isso é simplesmente um código criando um jogo de confiança. Mas quem controla Samantha? Por que a empresa que a fabrica existe? Samantha é mesmo real, em termos de inteligência artificial de verdade? O fato de você acreditar que a máquina ganhou vida não quer dizer que ela ganhou de verdade. Talvez haja uma sala cheia de caras atuando como manipuladores, roteirizando cada momento de Samantha. Ou então, suponha que Samantha é um golpe que envolve uma atriz trabalhando para criminosos em algum lugar. Nunca haverá um “medidor de consciência” confiável para determinar se supostas IAs são reais, o que quer dizer que cabe a nós decidir de acreditamos nelas ou não. Eu sempre argumentei que a escolha mais pragmática é não acreditar.”

Douglas Rushkoff (autor e teorista sobre o cyperespaço)

“Quem nessa sociedade estranha e doentia não ia querer uma entidade Stepford [referência ao filme As Esposas de Stepford, que eram mulheres criadas para serem perfeitas]? Especialmente se for Scarlett Johansson! Mas no filme – e em grande parte da comunidade científica – há uma presunção nas entrelinhas que não é questionada, de que conforme a tecnologia fica mais complexa, a consciência vai emergir. Que nossos robôs, computadores, aparelhos ou programas vão alcançar esse ponto preciso em que serão consciências, e então nos ultrapassarão. Mas lembra de como as pessoas reagiram mal quando a Dell contratou pessoas da Índia para lidar com os consumidores? Mesmo cidadãos fluentes em inglês e com nível universitário da Índia não conseguiam formar uma conexão suficiente com os norte-americanos para satisfazer as necessidades deles. Isso me faz pensar que o tipo de fantasias de que estamos falando estão a centenas de anos de distância, e não a algumas décadas.