Seth Rogen: a mente adolescente por trás de A Entrevista, o filme mais controverso do ano

O novo filme do comediante quase provocou uma guerra, mas ele não quer se preocupar: enquanto conseguir ganhar a vida fazendo piadas juvenis, estará tudo bem

JOSH EELIS Publicado em 25/12/2014, às 17h15 - Atualizado às 17h53

Seth Rogen
Dan Steinberg/AP

Este perfil de Seth Rogen foi a matéria de capa da edição de 18 de dezembro da Rolling Stone EUA. No último dia 23, foi anunciado pela Sony que A Entrevista seria lançado em mais de 300 cinemas nos Estados Unidos (com ingressos se esgotando rapidamente), fato comemorado por Rogen no Twitter (leia mais aqui). A chegada do filme aos cinemas havia sido cancelada após ameaças terroristas. Na última quarta, 24, o longa também chegou a diversos serviços de streaming, mas apenas para o público norte-americano (saiba mais). Ainda não se sabe se a estreia brasileira do título, prevista originalmente para 29 de janeiro, será mantida.

10 estrelas da música que cantaram para ditadores.

Não é todo dia que você consegue se encontrar com os caras que podem ser responsáveis pelo início da Terceira Guerra Mundial – e definitivamente não é todo dia que eles estão puxando um baseado durante esse encontro.

Paulo Coelho e George R.R. Martin se disponibilizam para exibir A Entrevista.

“O-lá!”, Seth Rogen diz estrondosamente enquanto a porta de seu escritório em Los Angeles se abre, mostrando que ele e o eterno parceiro de trabalho, Evan Goldberg, estão se preparando para dar uma tragada poderosa em um cachimbo de maconha. A dupla coescreveu e dirigiu o filme A Entrevista, no qual dois ineptos jornalistas de entretenimento, interpretados por James Franco (na pele de um famoso apresentador de talk-show à la Ryan Seacrest) e Rogen (seu fiel e um tanto explorado produtor) conseguem uma entrevista com Kim Jong-un e são recrutados pela CIA para assassiná-lo. É um filme que ninguém esperava que fosse bem-recebido na Coreia do Norte, onde até tirar uma foto da estátua do Líder Supremo pode te mandar para a prisão. Ainda assim, foi surpreendente: o trailer tinha sido divulgado naquela semana de junho e o resultado foi que o país asiático ficou bem mais furioso do que qualquer pessoa imaginaria (leia aqui).

Um porta-voz do Ministério do Exterior da Coreia do Norte declarou o filme “um ato de terrorismo e guerra”. O “cineasta gângster” incitou “uma onda de ódio” no território; autoridades disseram que se o governo norte-americano permitisse a exibição do filme, “contramedidas impiedosas” seriam tomadas. As ameaças viraram manchete da Al Jazeera à BBC; coincidentemente ou não, alguns dias depois o verdadeiro Kim Jong-un lançou alguns mísseis de teste. “Nossas coisas viram notícia às vezes”, diz um impressionado Goldberg, de 32 anos, vestindo uma bermuda amassada e tênis New Balance. “Mas isso é diferente – é notícia de verdade.”

Première de A Entrevista é cancelada após ameaça de atentado terrorista.

Ao ouvir tudo isso, você pode ter imediatamente dois pensamentos simultâneos. O primeiro é: típico da Coreia do Norte. O segundo é: Seth Rogen? Aquele homem infantil e adorável que faz filmes bobos com os amigos? Aquele que provavelmente está chapado demais para jogar um videogame sobre guerra nuclear, quanto mais incitar uma guerra de verdade? O que um cara como ele está fazendo em uma crise diplomática como esta?

“É engraçado, porque estamos envolvidos com a história da Coreia do Norte há tanto tempo que, quando soubemos disso, pensamos: ‘Beleza, tudo bem’”, conta Rogen, de 32 anos. “Eles dizem maluquices sobre os Estados Unidos o tempo todo. Literalmente, a cena de abertura do nosso filme é uma garotinha cantando basicamente a mesma coisa que disseram sobre nós.”

“Temos um arquivo aqui em algum lugar sobre todas as coisas insanas que eles dizem”, acrescenta Goldberg. “Eles chamaram Obama de ‘macaco maldito’ – você tem de procurar as palavras exatas, porque qualquer coisa que eu disser não vai ser tão maluca quanto o que realmente foi dito” [na verdade, foi “macaco negro perverso”].

Rogen admite que ele e Goldberg foram chamados para uma reunião com o CEO da Sony norte-americana, mas, fora isso, está levando a situação tranquilamente. “E em termos de fazer as pessoas falarem sobre o filme não é ruim”, observa. “Se eles realmente cumprirem a ameaça, será ruim para o mundo – mas, felizmente, esse não parece ser o estilo deles. Embora isso tenha deixado minha mãe preocupada”, ele conta. É sério, embora ele faça piada com o assunto. “Para uma mãe judia, ter um país declarando guerra contra seu filho é a pior coisa. Nenhuma mãe judia deveria ter de lidar com isso.”

Veja o trailer de A Entrevista:

A primeira coisa que aparece na tela em A Entrevista – antes da batalha de metralhadoras e do ataque do tigre siberiano – é um letreiro com as palavras Point Grey, nome da produtora de Rogen e Goldberg. O título vem da escola que eles frequentaram em Vancouver, Canadá, onde notoriamente começaram a escrever Superbad: É Hoje quando tinham só 13 anos. A maioria dos personagens naquele filme – incluindo Steven Glansberg, o menino que come sozinho todo dia, e Sammy Fogell, mais conhecido como “McLovin” – foi baseada em amigos reais dos dois.

Rogen não era o garoto mais popular da escola, mas também não era desprezado. Gostava de hip-hop da Costa Leste (Wu-Tang Clan, Beastie Boys) e nu metal dos anos 1990 (Korn, White Zombie, Marilyn Manson) e usava dreadlocks tingidos de verde. Praticava alguns esportes (jogou rúgbi e chegou à faixa marrom no caratê), até que uma lesão no pé o levou a se concentrar na comédia. Fez stand-up até que um teste para um papel o levou a conhecer Judd Apatow e conseguir um contrato para atuar em Freaks and Geeks. A ideia era ir para Hollywood e chutar a porta; Goldberg se juntaria a ele depois de se formar na faculdade e eles fariam os próprios filmes. Foi, parcialmente, o que aconteceu.

Rogen se mudou para Los Angeles com os pais em 1999, quando tinha 17 anos. “Ele era um pouco menos aberto, mais reservado”, lembra James Franco, que foi colega dele em Freaks... “Não me lembro de vê-lo sorrindo muito.” O companheiro de elenco Jason Segel tinha um apartamento perto das locações e Rogen e Franco ficavam lá assistindo a filmes de Stanley Kubrick e ensaiando.

A maioria dos primeiros papéis de Rogen era de caras brutos com nomes como Ron, Bob e Ken (“Ele é uma daquelas pessoas que parecem ter 35 anos quando têm 15”, diz Paul Rudd). Rogen fez um teste para Dwight em The Office e para o personagem de Elijah Wood em Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, mas ele e Goldberg também tinham o roteiro para Superbad e a ideia para Segurando as Pontas e não conseguiam entender por que ninguém queria filmá-los. “Estávamos bem amargurados com isso na época”, conta. “Escrevíamos coisas que achávamos muito boas e era muito frustrante que elas não fossem feitas.”

Agora que as pessoas retornam suas ligações, Rogen atingiu o sucesso ao filmar com os mesmos amigos. Uma das coisas mais impressionantes é o quanto esses filmes são democráticos: embora Rogen coescreva, produza e, cada vez mais, codirija, frequentemente ele é o homem sério do elenco, o raro astro cômico que fica feliz em ser a quarta ou quinta pessoa mais engraçada no próprio filme.

“Alguns atores de comédia sentem que precisam ser as estrelas, os mais engraçados – ninguém pode ter piadas melhores”, diz Lizzy Caplan, que conhece Rogen desde Freaks and Geeks e atua em A Entrevista como uma agente durona da CIA (pense em Jessica Chastain em A Hora Mais Escura, só que em uma versão engraçada). “Você vê muito isso e é uma maneira terrível de trabalhar – o ego faz com que seja impossível para outras pessoas serem engraçadas, mas Seth e Evan perceberam uma coisa há muito tempo: encha seu filme de gente engraçada e deixe que elas sejam o mais engraçadas que puderem.”

Algo que também se ouve muito das pessoas que conhece Rogen é sobre a falta de filtro dele. “Seth é provavelmente a celebridade menos afetada que conheci, em termos de sinceridade e falta de rodeios”, conta Rudd. “Ele é assustadoramente honesto”, concorda Apatow.

No começo de novembro, Seth Rogen está em Nova York, tomando uma sopa de legumes e frango em um café no centro da cidade. Ele e a esposa vão para um casamento em Long Island, então decidiram tirar uma semana e fazer algumas exibições privadas de A Entrevista. O estúdio conseguiu um jato particular para levá-los a Washington para mais uma exibição e eles estão hospedados em um hotel onde Kanye West gosta de ficar. Rogen realmente encontrou Kanye da última vez em que esteve ali. Foi logo depois que o vídeo de “Bound 3” saiu – uma refilmagem de “Bound 2”, com Franco como Kanye e Rogen como uma Kim Kardashian fazendo topless – e ele ficou preocupado de Kanye talvez estar chateado, mas o rapper só queria passar um tempo com ele.

Clique aqui para a ler a entrevista com Seth Rogen publicada na edição 53, fevereiro/2011.

“Eu e minha mulher tínhamos pedido sobremesa e estávamos no lobby esperando os pratos para levar para o quarto, e Kanye falou: ‘O que vocês estão fazendo? Querem ouvir meu novo álbum?’”, conta Rogen. “Então, ele nos levou até uma limusine e começou a tocar o disco – só que não havia letras, só as batidas. Daí ele ficou fazendo rap sobre todas as faixas e, depois de cada música, parava, como se perguntasse: ‘E aí, o que acharam?’ Ficamos na van por duas horas!”

Clique aqui para a ler mais da entrevista com Seth Rogen, com exclusividade neste site.

“Agora sei que a próxima pessoa conhecida com quem ele esbarrar será levada para aquela limusine”, continua Rogen, rindo, “mas aprendi uma lição com isso – que até Kanye pede opinião às vezes. Em termos de modo de trabalho, aquilo mostrou uma abertura e uma falta de medo. Por causa disso, começamos a passar nossos filmes em versões menos editadas para nossos amigos com mais frequência.”

Depois do almoço, caminhamos pelo centro. Rogen não está com pressa de ir a lugar algum. Ele é bastante tranquilo: em casa, em Los Angeles, um dos passatempos do ator é praticar jardinagem e podar bonsais.

Andamos por cerca de uma hora e ninguém pede nem uma foto. Algumas pessoas olham duas vezes, mas, fora isso, ele é só um cara caminhando. Estamos quase de volta ao hotel quando uma garota que parece turista, de uns 17 anos, o vê e começa a sorrir. Ela não diz nada – só estende a mão. Rogen também estende a mão, os dois dão um “toca aqui” e continuam andando. “O melhor da fama”, ele resume.

O ator Bill Hader depõe a favor da simpatia de Seth Rogen

“Conheci Seth na gravação de Dois É Bom, Três É Demais – eu tinha acabado de ser contratado pelo Saturday Night Live e esse era meu primeiro filme. Comecei a jogar conversa fora com ele e com o Evan Goldberg; fizemos uns aos outros rir um monte. Eu era fã de Freaks and Geeks e me lembro de pensar, quando assistia à série: ‘Esse cara não se constrange com nada’. Seth é o tipo de astro que você vê na tela e pensa: ‘Eu realmente gostaria de ser amigo desse cara. E talvez fumar um monte de maconha com ele’. O negócio é que eu nem fumo maconha, mas ainda assim quero ficar perto dele. Obrigado, Seth, por ser tão legal e engraçado.”