Shrek (quase) para sempre

No capítulo final da franquia, que estreia nesta sexta, 9, o protagonista perde a essência de ogro, dando um fraco tom emotivo para a animação

Por Fernanda Catania Publicado em 15/07/2010, às 11h28

Shrek entra em crise existencial no capítulo final da série
Reprodução

Em dez anos, Shrek já lutou pelo amor de Fiona, desafiou um dragão, salvou o reino de Tão Tão Distante, virou e desvirou príncipe, casou e teve três filhos. Mas quem for ao cinema a partir desta sexta-feira, 9, esperando que o capítulo final seja o melhor dos quatro filmes da saga, vai se decepcionar.

Em Shrek Para Sempre, do diretor Mike Mitchell, o ogro mais famoso do mundo enfrenta uma crise existencial. Cansado da rotina, da vida de "celebridade" e de não conseguir assustar mais ninguém, Shrek é levado a assinar um contrato mágico com o traiçoeiro Rumpelstiltskin (aquele vilão dos contos dos Irmãos Grimm) para ter novamente "um dia de ogro", mas, na verdade, vai parar em uma realidade alternativa de Tão Tão Distante. Fiona, que não conhece mais Shrek, se torna a líder de um bando de ogros rebeldes, que são caçados por bruxas, Burro arranja um bico de motorista de carroça e o Gato largou as botas, virou um animal doméstico e, por isso, está gordo. Arrependido, Shrek precisa desfazer o que criou para salvar seus amigos, reconstruir o reino e reconquistar o amor de Fiona.

O problema é que crise existencial não combina com comédia de animação. Com isso, o humor fica em segundo plano no capítulo final da série, que é tomado, sem sucesso, pelo tom emotivo. Desta vez, a mensagem que permeia toda trama é de "dar valor à família, amizade e vida". Neste sentido, inevitável não comparar o último filme de Shrek com o de Toy Story, que estreou em 18 de junho no Brasil. O filme protagonizado por Woody é inferior em relação aos efeitos visuais, mas equilibra perfeitamente as doses de emoção e humor. Enquanto em Toy Story a sensação que fica é de nostalgia, o desfecho de Shrek é cansativo e chega a cair no clichê. Ou talvez Shrek tenha mesmo razão: sua graça acabou a partir do momento em que "perdeu a essência de ogro".

Alguns detalhes salvam o roteiro: o Gato de Botas gordo, os comentários do Burro, o pato de Rumpelstiltskin, a cena em que o Flautista Hamelin, contratado pelo vilão para atrair Shrek com sua música, toca a introdução de "Sure Shot", dos Beastie Boys, e o menino apelidado de "calçola", responsável por uma das cenas mais engraçadas do filme. Além disso, os dubladores originais também podem render algumas risadas, principalmente Antonio Banderas (Gato de Botas) e Eddie Murphy (Burro), que assumem as vozes dos personagens desde o início da série. Mike Myers faz a voz de Shrek, enquanto Cameron Diaz interpreta Fiona. Outro destaque é o 3D, um dos melhores das últimas animações.

Para decepção dos fãs, a impressão que se tem ao sair do cinema é de que passou a hora de Shrek se aposentar - a saga poderia ter sido finalizada antes. Que fique, então, a lembrança do primeiro filme, de 2001, que trazia a irreverência de um humor simples, inteligente e criativo, aliado a uma emoção natural.