Sob forte chuva, abertura do Carnaval de Recife celebra Alceu Valença

Karina Buhr, Lenine e Ney Matogrosso foram os grandes destaques em apresentação repleta de convidados nesta sexta, 17

Bruno Raphael, de Recife Publicado em 18/02/2012, às 04h30 - Atualizado em 19/02/2012, às 14h52

Ney Matogrosso - Carnaval de Recife
Divulgação

O Carnaval de Recife começou com um fato curioso. Pelas ruas quentes e abafadas era possível saber do que se tratava, tanto pela conversa de recém-chegados turistas surpresos ou pelos sempre animados filhos da cidade, que não podiam deixar de constatar: chovia muito na abertura, pela primeira vez em anos. Como todo temporal de verão, a água que caía dos céus oferecia alívio para, em seguida, rajadas cortantes de vento afugentarem os menos dispostos. No entanto, a empolgação recifense contagia em boa parte dos momentos e, felizmente, a chuva deixou de ser vilã e se tornou aliada ao criar uma espécie diferente de beleza nos momentos que se seguiriam noite adentro, com os cerca de 120 mil presentes no Marco Zero.

Sintetizando inúmeras culturas, a festa mostrou que a cidade deixa as portas abertas a quem quiser entrar, seja qual for a origem do visitante. Dos dançarinos de frevo que recebem passageiros em aeroportos e rodoviárias aos percussionistas que passeiam pelas ruas, a intenção é pura e simplesmente integrar o Brasil em um só lugar.

Prevista para ter início às 22h30, após apresentação dos 500 Batuqueiros de Maracatu de Naná Vasconcelos, a homenagem ao pernambucano Alceu Valença, que celebra este ano 40 anos de carreira, só teve inicio às 23h20 devido problemas de organização e, é claro, à chuva. Lirinha, ex-vocalista do Cordel do Fogo Encantado, abriu o setlist com "Agalopado", canção da fase setentista de Alceu. O som inicial da apresentação, embolado e abafando instrumentos de metal e guitarras, não favoreceu o músico que seguiu com "Molhado de Suor".

Após Lirinha, foi a vez de Lenine, amigo pessoal de Alceu, subir ao palco e prestar sua homenagem. Em uma apresentação contagiante que acordou de vez o público, o cantor emendou "Anjo de Fogo" com "Sol e Chuva", nesta última descendo do palco e se misturando à garoa para convocar o público a entoar o refrão da canção de Alceu, enquanto Fernando Catatau (Cidadão Instigado), Regis Damasceno e Pupillo (Nação Zumbi), entre outros, serviam como banda de apoio.

Acompanhado de seu produtor Daniel Ganjaman nos teclados, Criolo cumpriu bem seu papel ao interpretar o clássico "Tropicana", talvez o refrão mais conhecido da carreira de Alceu. A canção sobre a manga rosa ecoou através da chuva na voz dos que estavam ali presentes ouvindo o versador paulistano. "Estação da Luz" já não teve a mesma resposta, com Criolo dando lugar em seguida.

A incendiária Karina Buhr acertou em cheio na escolha das duas canções que iria cantar. "Rouge Carmin", com versos como "Meu amor tem dez dedos cravados em mim, que me rasga me arranha e me deixa assim", demonstraram o poder de sedução da integrante da banda Comadre Fulozinha. Mas foi com "Anunciação" que Karina conseguiu o melhor momento da noite. "Tu vens, tu vens... eu já escuto os teus sinais", cantou a multidão do Marco Zero, em uníssono.

O momento de maior chuva foi justo na apresentação de Pitty, que ficou pequena perto de tanta água em "Bobo da Corte", apesar da boa resposta do público. A cantora deu lugar a Ney Matogrosso (foto) que, como de costume, criou interpretações únicas para "Cheiro de Saudade" e "FM Rebeldia", emendadas em um belo medley. Com "Coração Bobo", Otto mandou seu recado e não se intimidou com a chuva, indo para o meio da então leve garoa que diminuía a cada minuto que se aproximava da entrada do grande homenageado da noite.

Ovacionado, Alceu Valença subiu ao palco sozinho com seu violão. Ele pouco precisou fazer para que todo o público cantasse, imitando suas melodias em "Pelas Ruas Que Andei" e, como não poderia faltar, "La Belle du Jour". Ao final, ele agradeceu a paixão do público e ganhou mais uma singela homenagem: todos os artistas que participaram da apresentação entoaram um coro do refrão de "Bicho Maluco Beleza", enquanto Alceu era aplaudido por um mar de sorrisos (molhados).