Somando documentário e ficção, Uma Longa Viagem chega aos cinemas

Por meio de cartas enviadas da Europa pelo irmão, a diretora Lúcia Murat faz retrato de uma geração vivendo a ditadura

Stella Rodrigues Publicado em 11/05/2012, às 12h27 - Atualizado às 12h31

Uma Longa Viagem
Divulgação

É um filme que teve início com uma perda e que conta uma história iniciada pelo medo dessa perda. A diretora Lúcia Murat, diante da dor da morte do irmão Miguel, se viu atrás de uma câmera registrando a história de sua família libertária em um contexto de ditadura militar. Assim surgiu Uma Longa Viagem, premiado em Paulínia, Gramado e na Espanha, que chega aos cinemas nesta sexta, 11.

A cineasta, que lutou contra e foi torturada pela ditadura, já é conhecida há anos por levar às telonas essa parte da história do Brasil – com tom pessoal, sim –, que tanto se confunde com a dela. Mas ela não dá ares de superioridade solene sobre o tema nem cai em armadilhas típicas do gênero, como tender a um dramatismo exacerbado e vazio. Sua incursão no assunto em 1989, em Que Bom Te Ver Viva, somou características documentais sobre a tortura de mulheres pelos militares e ficção, escalando a atriz Irene Ravache para protagonizar.

Desta vez, Caio Blat é o único ator do filme que, tirando a atuação dele, é basicamente um documentário. A trama conta como o jovem Heitor, irmão de Lúcia, foi mandado para a Europa para sua própria proteção, antes que acabasse perdido nos porões da ditadura como os irmãos e tantos outros de sua geração. Lá, muito novo e sozinho, entrou em uma busca absoluta e incessante do próprio limite, experimentando drogas e incapaz de permanecer em um só lugar por muito tempo.

Como dito, a morte do outro irmão, o médico Miguel, foi o estopim para Lúcia remexesse no passado da família, buscando toda a correspondência enviada à época por Heitor. Esta, repletas das vivências alucinógenas e descobertas do garoto, servem de base para toda a trama. “Estávamos muito doloridos na época com a morte do Miguel e foi uma maneira de lidar com a dor. Sabe buscar atividade para lidar com a dor?”, conta a diretora à Rolling Stone Brasil. “Acabei tendo que buscar todas as cartas e minha mãe não só tinha guardado todas, como tinha mandando transcrever na máquina. Na época ela me pediu para fazer um livro com aquilo e acabei guardando. Algumas delas são muito bonitas. E aquele conjunto de cartas revela uma época. É o arco do menino de 18 anos que vai para Londres ainda muito ingênuo e, dez anos depois, é uma pessoa angustiada com essa busca pela quebra de limites.”

A presença de Caio Blat como esse “personificador” do autor das cartas, de início, pode causar algum estranhamento. A participação dele é quase como um teatro inserido no documentário. Com cenários simples, na maior parte do tempo composto por projeções, o ator fica responsável pelo monólogo teatral que dá vida ao Heitor europeu, enquanto as falas lentas e mansas do próprio Heitor de hoje são intercaladas.

“As entrevistas do Heitor me surpreenderam muito, embora eu soubesse toda a história”, revela Lúcia. “Pelo grau de radicalidade, quebra de limites. Fiz muitas descobertas factuais. Há um determinado momento, a segunda metade do filme, em que todo mundo começa a se estruturar, saem daquela vida, e ele não. Tem um lado dele jogando com o mundo. Ver isso tudo em uma maratona de entrevistas e tantos anos depois... é outro olhar.”

Duas questões levaram a diretora a optar por ter Caio Blat, ou algum ator, interpretando as cartas, já que elas eram a fundação da narrativa e, por si só, um elemento belo, com excelente texto para contar uma história. “Me dá mais segurança misturar os gêneros. Em um documentário clássico, você geralmente joga imagens de arquivo, coloca o próprio autor lendo ou, no máximo, coloca um ator lendo as cartas em off. Eu precisava de um ator para mostrar aquela juventude que eu e o Heitor não conseguimos mostrar mais, estamos velhos. O Caio fez isso, ele não lê as cartas, ele interpreta esse arco, faz esse caminho dramatúrgico”, ela diz. A outra questão era o problema selecionar imagens iria ilustrar o que é falado nas cartas. “Eu não queria fazer um Discovery Channel, não era uma questão de mostrar os lugares [onde ele estava]. Era algo especial, uma vivência. Temos videoartes lindas e cenas que me permitem jogar com os dois, o Heitor de verdade e o Caio. Isso me deu muitas opções para brincar, além de ter propiciado uma vivência da época, em vez de somente um registro geográfico.”

"É um filme muito importante para mim", afirmou Blat em entrevista à Rolling Stone Brasil quando estava divulgando outra produção, Xingu. "Ganhei [o prêmio de melhor ator] em Gramado no ano passado e é uma coisa muito diferente na minha carreira por ser um documentário. É a primeira vez que eu atuo em um documentário. O cara que eu interpreto experimentou todas as drogas possíveis e decidiu que ia para a Índia andando. Durante os anos 70, ele deu três voltas ao mundo a pé, vendo todo tipo de cultura, religião e drogas."

Lúcia, praticamente uma enciclopédia de tudo que sai no cinema brasileiro e latino sobre ditaduras, continua acompanhando pelos jornais os protestos que acontecem por aí, como a manifestação que aconteceu em São Paulo, mês passado, contra o médico-legista Harry Shibata, que trabalhou a favor da ditadura e das torturas. “Fico muito feliz que esses movimentos que têm aparecido são capitaneados por jovens. Acho fundamental que a história seja revelada, não escondida. Devemos isso aos nossos filhos e netos. Quando teve uma manifestação aqui no Rio, na Cinelândia, Uma Longa Viagem foi projetado e nem foi algo articulado por mim, foi articulado por um grupo de jovens.”

Encerrado o trabalho com Uma Longa Viagem, Lúcia agora finaliza uma ficção que não retrata especificamente a ditadura, mas circunda assuntos que são presença constante na obra dela. “A Memória que Me Contam fala de um grupo de pessoas em torno de um amigo que está morrendo. É sobre utopia, amizade e perdas.”

Assista ao trailer de Uma Longa Viagem abaixo: