Stephen Malkmus se apresenta nesta terça, 30, em São Paulo; saiba como foi o show na segunda

Sempre imprevisível, eterno líder do Pavement promoveu faixas da carreira solo

Pablo Miyazawa Publicado em 30/04/2013, às 18h42 - Atualizado às 19h52

Stephen Malkmus

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”Este é o show cool”, Stephen Malkmus falou e sorriu, ao pisar no palco do Beco 203 (SP) na noite de segunda, 29. O músico norte-americano, fundador do Pavement, se referia ao aspecto mais “exclusivo” daquela apresentação de caráter extra, para uma casa mais vazia do que cheia. “Amanhã não deverá ser tão cool, então sorte de vocês por terem vindo hoje.”

Salvo alguns fios grisalhos nas laterais da cabeça, Malkmus, 47 anos, parece ter envelhecido quase nada desde a primeira vez em que tocou ao lado do The Jicks em São Paulo, em 2002. A formação, aliás, era quase a mesma – a baixista Joanna Bolme e o guitarrista/tecladista Mike Clark também estavam presentes há onze anos. Jake Morris, o atual baterista, assumiu o posto recentemente, após a saída de Janet Weiss (ex-Sleater-Kinney). Além da aparência intacta, o frontman também não alterou o estilo único com que se expressa sob as luzes, um carismático misto de desleixo proposital e dedicação nerd. Mal posicionado no canto esquerdo, Malkmus cantava de olhos fechados (sem gritos ou desafinos) e tocava com nenhum esforço aparente, quase nunca usando uma palheta, elaborando os (muitos) solos rápidos usando apenas dois dedos da mão direita. O aparente desapego, porém, é mera fachada: guitarrista habilidoso e dos mais subestimados, ele não raro deixava evidente o virtuosismo, modificando passagens, improvisando nos desfechos e quebrando andamentos, obrigando o trio de Jicks a seguir atrás – algo que parecem bastante acostumados a fazer.

“Ops, desculpe”, ele sussurrou e piscou para Joanna ao iniciar antecipadamente o dedilhado de “No One Is (As I Are Be)”, programada para a parte final da apresentação, de acordo com o set list grudado no chão. Invenções, erros e imprevistos são peças importantes, se não indissociáveis, das performances ao vivo de Stephen Malkmus. O nonsense também se faz presente, nas letras de apelo surrealista e algum acento poético-literalista, e nas conversas dirigidas ao público nos intervalos. Denotando leve embriaguez (que poderia ou não ser verdadeira, como saber?), discursou sobre amenidades exibindo o ar de enfado simpático que lhe é típico desde os tempos frente ao grupo que criou, ainda hoje laureado como um dos nomes definidores do chamado rock de caráter "indie" estabelecido na década de 90. Aceitando um copo de caipirinha de alguém da platéia, exclamou “limonada!” antes de dar o gole, explicando que aquilo talvez não fizesse bem para a voz. Assim mesmo, permaneceu acompanhado do copo até o final.

Com a exceção de meia dúzia de músicas do disco mais recente de Malkmus and the Jicks, Mirror Traffic (2011), os repertórios dos quatro shows realizados na turnê brasileira (antes desse, no Rio de Janeiro, Maringá e Belo Horizonte) foram diversificados. Em São Paulo, o set list de 17 músicas teve quatro faixas de Pig Lib (2003), uma de Real Emotional Trash (2007) e outra do primeiro álbum, homônimo, de 2001 – “Jojo’s Jacket”, que abriu o show. Houve tempo ainda para duas inéditas, “Houston Ladies” e “Flower Children”, que poderão ou não estar no próximo disco do grupo. Já no bis, quando esperava-se algum resgate da banda que o tornou famoso (e a qual ele próprio encerrou as atividades em 1999), Malkmus fez questão de se explicar.

”Decidimos que vamos tocar uma do Pavement”, ele disse, “mas não será o tipo de música que vocês irão cantar juntos. Foi mal.” E emendou uma versão quase esculachada de “Speak, See, Remember”, faixa obscura de Terror Twilight, último álbum lançado pelo Pavement, em 1999. Foi espontâneo, imprevisível e desencanado - mais Stephen Malkmus, impossível.

Stephen Malkmus and the Jicks tocam hoje novamente no Beco 203, a partir das 22h. Na quinta (2), o grupo se apresenta no Porão do Beco, em Porto Alegre, encerrando a turnê brasileira.

Set list:

"Jojo's Jacket"

"Forever 28"

"No One Is (As I Are Be)"

"Stick Figures in Love"

"Out of Reaches"

"Tigers"

"Flower Children"

"(Do Not Feed the) Oyster"

"Spazz"

"Vanessa From Queens"

"Houston Ladies"

"Animal Midnight"

"Asking Price"

"Brain Gallop"

"Us"

Bis:

"Speak, See, Remember"

"Senator"