Succession: a 'Game of Thrones da vida real' mostra família bilionária, disfuncional e completamente apaixonante [ESPECIAL EMMY]

A produção da HBO foi indicada em 18 categorias no Emmy 2020 - e é uma das favoritas da crítica especializada

Malu Rodrigues Publicado em 21/08/2020, às 07h00

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Succession (Foto: Divulgação/HBO)

[Pode conter spoilers de Succession]

Os indicados ao Emmy 2020, a maior premiação da televisão norte-americana, foram anunciados em julho. Na competição dos canais, a Netflix superou a rival HBO - sem Game of Thrones -, com um total de 160 nomeações contra 107, respectivamente. Apesar da diferença expressiva, a HBO tem potencial de levar para casa alguns dos maiores prêmios da cerimônia. Isso tudo graças a Succession.

A série pode não ser tão falada na cultura pop como a produção de dragões, nem mesmo em comparação à Watchmen, mas com certeza é uma das favoritas para ganhar em diversas categorias.  

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Succession foi indicada para 18 estatuetas, incluindo as mais nobres da casa: série de drama, ator em drama, ator coadjuvante em drama e roteiro de drama. Pelas nomeações, ficou na 4ª posição das produções mais celebradas neste ano. Os resultados revelam como o seriado, produzido por Adam McKay e Will Ferrell, se consolidou na indústria de entretenimento ao retratar de forma viciante um império familiar. 

Desde o começo, fica evidente como os personagens são questionáveis e até imorais. Algumas situações que normalmente consideraríamos absurdas, parecem até simples na rotina dos Roys e os aliados. Não necessariamente nos apaixonamos pela família bilionária, mas sim pela história dela, e por todos os dramas revelados a cada episódio. 

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Transmitida pela HBO, Succession conta a história de Logan Roy, dono do 5º maior conglomerado de mídia do mundo, e dos quatro filhos (Connor, Kendall, Shiv e Roman), que disputam para ver quem se tornará o próximo dono da empresa. No entanto, o patriarca não está pronto para abrir mão da posição de CEO e não tem pudor em diminuir os sucessores ao cargo.

Logan é uma pessoa difícil, complexa, e apenas valoriza (em partes) quem é tão desafiador como ele - e nem todos os filhos conseguem ter a personalidade estimada pelo pai. Connor, o mais velho, parece não ter aprovação e nem é mais cotado para assumir algum posto de estima. Shiv e Roman são muito inteligentes, mas se mostraram bem amorais - a primeira, inclusive, chega a quase trair o pai durante negociações empresarias. Apesar de habilidosos, não há confiança entre nenhum deles.

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Kendall, por outro lado, revela-se como a figura mais próxima de protagonista ao lado de Logan. Ambos não sabem lidar muito bem com os sentimentos que têm um pelo outro. Horas o público sente certa delicadeza implícita na relação, horas nota o desrespeito do pai para com o filho. Kendall se encaixa como uma peça fiel ao patriarca no império, por isso, Logan explora e humilha de todos os lados o suposto sucessor. O relacionamento dos dois é quase uma grande obra shakespeariana, cheia de tragédia, traição e honra.

O laço entre eles é levado ao extremo na segunda temporada, exatamente a que concorre no Emmy 2020. A primeira parte é boa, mas não mais do que isso. O diferencial da segunda - e um dos motivos das indicações ao prêmio -  foi o roteiro visivelmente superior

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Com 10 episódios de quase uma hora cada, o público é levado até as entranhas dos integrantes e aliados dos Roys. Succession é o tipo de série que realmente faz o espectador ficar ansioso e na ponta do sofá. Os diálogos ácidos - por vezes cômicos e surreais - e a voracidade do elenco comprovam o motivo de tantas indicações. O ápice do nervosismo é a última cena da segunda temporada.

Depois de Logan confessar como não acha Kendall "matador" o suficiente para ser dono da empresa, o sacrifício final do filho pelo pai toma uma reviravolta inesperada. Não necessariamente uma traição (até vermos os próximos episódios pelo menos), mas com certeza uma cartada surpresa e enigmática da pessoa que quase sempre ficou indecisa ao confrontar de frente o poderoso Roy. Com uma perversidade extrema, o público é deixado apenas com um sorriso malicioso do patriarca antes dos créditos rolarem.

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Ponto positivo também para o jogo de câmeras da produção, que não economiza nas mexidas e ampliações. O zoom nos rostos e movimentos dos personagens avoluma o nível de tensão em cena e deixa o espectador como testemunha leal de todos os acontecimentos. 

Mais ousada, mais agressiva e mais subversiva, a nova temporada remodulou ainda mais a antiga história de impérios familiares. Além do modelo empresarial, somos levados para as casas, os conflitos, inseguranças e deslealdades dos bilionários. Succession não é, por acaso, uma das favoritas para as premiações. A série se construiu de forma extraordinária para chegar nesse patamar. 


Elenco e personagens

Os atores são os principais responsáveis por darem brilho e certa simpatia aos personagens disfuncionais e maliciosos. Com artistas habilidosos, não é à toa como o seriado foi indicado ao Emmy na categoria de Melhor Elenco em Série de Drama. 

O patriarca da família Roy é interpretado por Brian Cox. O olhar superior e poderoso do artista dá novas camadas a Logan. Assim como os personagens em cena, o espectador também pode ter certa apreensão quando o pai entra em câmera.

Jeremy Strong vive Kendall, um dos filhos que busca aprovação constante. O ator consegue transmitir toda a angústia de uma pessoa esperada para assumir o cargo de CEO, enquanto enfrenta questões de abuso de substâncias. Os dois atores são espetaculares na série e, quando se juntam, encontram um equilíbrio de forças arrepiante. Por isso, ambos concorrem como Melhor Ator em Série de Drama no Emmy.

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Sarah Snook atua no seriado como Siobhan 'Shib' Roy, a lobista política e aspirante a função de CEO da Waystar Royco (apesar de nem sempre querer admitir isso). Na segunda temporada, a atriz ganhou mais tempo nas telinhas - e foi uma decisão certeira. Com um trabalho feroz, a artista deu mais profundidade a única filha de Logan e revelou com maestria como a personagem entrou em rota de colisão com os irmãos. 

O filho homem mais novo, Roman, é interpretado por Kieran Culkin. Curiosamente, na vida real ele é irmão de Macaulay Culkin, astro mirim de Esqueceram de Mim (1990). Alan Ruck, conhecido por Curtindo a Vida Adoidado, vive o primogênito fracassado Connor.

Da esquerda para a direita: Jeremy Strong, Kieran Culkin, Brian Cox, Sarah Snook e Alan Ruck (Foto: Divulgação/HBO)

 

Na parte mais 'dramédia' do seriado, Matthew Macfadyen e Nicholas Braun são excepcionais nos papéis de Tom Wambsgans (executivo e marido de Shib) e Greg Hirsch (novato e integrante da família Roy), respectivamente. Os dois têm uma relação viciante na produção e protagonizam algumas das cenas mais divertidas, mas não menos absurdas. Considerados forasteiros, eles têm uma aliança estranha e simpática (até certo nível).

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Também compõe o elenco os atores Peter Friedman (Frank Vernon), J. Smith-Cameron (Gerri Kellman) e David Rasche (Karl). Na série, são os aliados fiéis de Logan Roy, todos integrantes da 'velha-guarda' da empresa.

Com um elenco primordial, Succession traz novas vertentes para as trágicas disputas familiares e de impérios - já vistas em Game of Thrones e Família Soprano, por exemplo.


Crítica e Emmy 2020

A primeira temporada teve respostas positivas dos críticos. No Rotten Tomatoes, recebeu 88% de aprovação; enquanto no Metacritic ganhou 70%. A segunda temporada, porém, é a verdadeira estrela da HBO.

Depois dos 10 episódios, a produção garantiu 97% de aprovação no Rotten Tomatoes. A crítica especializada do site comenta: "Succession retorna em uma forma sombria e engraçada, com escrita afiada, performances excepcionais e um surpreendente novo nível de simpatia por alguns dos personagens menos simpáticos da televisão". A série conquistou 89% de aprovação no Metacritic, com um consenso de "aclamação universal".

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Nas cerimônias deste ano, também já mostrou potência. No Globo de Ouro 2020, desbancou as favoritas The Crown e Big Little Lies e levou para casa os prêmios principais: Melhor Ator (com Brian Cox) e Melhor Série de Drama. No Critics' Choice Television Awards, conseguiu a estatueta nas mesmas categorias. Enquanto isso, no BAFTA TV Awards levou pelo roteiro.

As chances de Succession no Emmy são altas - e merecidas. Se não levar em todas as categorias, já que tem concorrentes fortes, provavelmente levará para a HBO a maioria dos prêmios da noite.


Confira todas as 18 indicações de Succession ao Emmy 2020:

Melhor Série De Drama
Melhor Ator Em Série De Drama (Brian Cox e Jeremy Strong)
Melhor Atriz Coadjuvante Em Série De Drama (Sarah Snook)
Melhor Ator Coadjuvante Em Série De Drama (Nicholas Braun, Kieran Culkin e Matthew Macfadyen)
Melhor Direção Em Série De Drama (Andrij Parekh e Mark Mylod)
Melhor Roteiro Em Série De Drama (episódio "This Is Not For Tears")
Melhor Ator Convidado Em Série De Drama (James Cromwell)
Melhor Atriz Convidada Em Série De Drama (Cherry Jones e Harriet Walter)
Melhor Elenco Em Série De Drama 
Melhor Composição Musical Em Série (Nicholas Britell)
Melhor Edição De Fotos Com Uma Única Câmera Em Série De Drama (Ken Eluto, Bill Henry e Venya Bruk)
Melhor Design De Produção Para Um Programa Narrativo Contemporâneo, Uma Hora Ou Mais (Stephen H. Carter, Carmen Cardenas, George Detitta e Ana Buljan)


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