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Swervedriver estreia no Brasil este fim de semana com status de ícone do shoegaze

Fã de futebol (e torcedor do Liverpool), o vocalista da banda, Adam Franklin, admite que receio de “manchar” reputação adiou gravação do disco de retorno

Lucas Brêda Publicado em 30/04/2016, às 17h22 - Atualizado às 17h31

O quarteto britânico de shoegaze Swervedriver
Divulgação

No próximo domingo, 1º, uma das bandas seminais do shoegaze mundial, o Swervedriver, sobe ao palco do Cine Joia, em São Paulo. O show é dos britânicos, que voltaram à atividade há cerca de oito anos – e lançaram um bem recebido disco de retorno em 2015 –, é o primeiro deles no país.

“Acho que [o show] vai ser muito bacana porque a maioria das pessoas na plateia nunca nos viram tocar”, diz o vocalista e guitarrista do grupo, Adam Franklin, em entrevista à Rolling Stone Brasil. Além de faixas do recente I Wasn't Born to Lose You, o Swervedriver vai passear pelas distorções de álbuns como Raise (1991), Mezcal Head (1993) e Ejector Seat Reservation (1995).

Fã de futebol, Franklin fala sobre torcer pelo Liverpool (e admirar o jogador brasileiro do time inglês, Philippe Coutinho), o atual bom momento do gênero shoegaze (o qual ele ajudou a criar), explica como aconteceu o retorno do Swervedriver aos palcos e como se deu a criação do primeiro disco da banda em 17 anos (I Wasn't Born to Lose You).

“Acho que o maior medo das bandas que retornam depois de muito tempo é lançar um disco e ele ser, basicamente, uma merda”, admite Franklin. O músico também lembrou de como assinou contrato com a lendária gravadora Creation Records (de Oasis, Primal Scream, My Bloody Valentine, The Jesus and Mary Chain), que foi casa do shoegaze e tinha a folclórica figura de Alan McGee. “Acho que ele era assim, tipo um líder de torcida, com todas as bandas.”

A apresentação do Swervedriver no Brasil integra a nova edição do festival do selo independente paulista Balaclava Records, o Balaclava Fest. Além do quarteto britânico, se apresentam no Balaclava Fest 3 alguns artistas nacionais do selo: a banda psicodélica carioca Supercordas (cujo disco mais recente, Terceira Terra, rendeu uma música à nossa lista de melhores de 2015), o duo paulista Quarto Negro e outro duo, o gaúcho Medialunas.

Abaixo, leia a íntegra da conversa com Adam Franklin, do Swervedriver.

É a primeira vez que você vem ao Brasil, certo?

Sim, minha primeira vez. É bom estar aqui.

Tem interesse de conhecer algo na cidade? Estava quente até pouco tempo atrás, mas agora deu uma esfriada.

Meu padrasto deu umas dicas. Ele morou em São Paulo. Mas acho que tudo mudou – ele estava aqui nos anos 1960. E não está frio para mim. Nem perto do frio da Inglaterra. Para nós, está bom, sabe? [Risos]

Pelo seu padrasto, você teve algum contato com a música brasileira?

Não, na verdade não. Conheço um pouco de Mutantes. E, claro, um pouco da clássica música brasileira dos anos 1960, todos aqueles ritmos. Mas não conheço, por exemplo, a cena de rock do Brasil.

Foram 17 anos sem lançar um disco. Como foi se reconectar com os companheiros e a sonoridade de tanto tempo atrás?

A banda se juntou uns oito anos atrás, para um show no Coachella e tudo mais. Mas, por um logo tempo, não tivemos vontade de lançar novas músicas. Só nos juntamos, tocamos as coisas velhas e estava de bom tamanho. E eu estava lançando discos solo durante esse período. Então, tocar com a banda meio que influenciou meus outros projetos a serem mais elétricos. Parecia uma progressão natural fazer um novo álbum [com o Swervedriver]. E foi legal fazer isso com o Steve [George, baixista] e todo mundo, porque estávamos tocando nosso primeiro álbum [Raise] do começo ao fim nos shows exatamente na época em que estávamos gravando o novo disco. Então, meio que sentimos que havia uma certa conexão, porque estávamos em contato com o primeiro disco e queríamos que o novo tivesse a mesma fluência.

E o disco (I Wasn't Born to Lose You, de 2015) foi muito bem recebido.

Adoramos o álbum porque ele realmente atinge todos os extremos da sonoridade do Swervedriver: às vezes é mais space-pop, às vezes mais power pop, ou seja lá o que for. Ficamos felizes com eles.

Não foi estranho voltar a compor com um antigo projeto, só que muitos anos mais velho – em outro estágio da vida?

É como andar de bicicleta: se você fica sem andar por cinco anos, quando você pega para pedalar, você lembra como faz. Recordo-me do primeiro ensaio que fizemos, em 2008, quando voltamos de fato. Nós arrumamos tudo em um cômodo e alguém disse: “Beleza, que música nós vamos tocar?”. Acho que foi “Sunblasted” [do primeiro disco banda, Raise, de 1991]. E, de repente, já estava fluindo. A grande coisa é o som que Jim e eu fazemos com a guitarra, sabe? Por isso que, quando finalmente decidimos gravar um novo álbum – acho que foi em 2013 –, tudo aconteceu muito rápido.

Como foi esse período de criação de I Wasn't Born to Lose You?

Estávamos ensaiando em um pequeno estúdio em Londres, mas não era um estúdio bom. E isso foi ótimo, porque se você consegue fazer o som em estúdio de merda, quando tem a aparelhagem correta, você certamente consegue fazer aquilo melhor.

Quando a banda se separou, você manteve contato com os outros integrantes? Como era a relação de vocês?

Isso é engraçado porque nós nunca oficialmente terminamos a banda. Só ficamos meio desencantados com tudo e falamos: “Vamos dar um tempo”. Logo depois daquilo, eu mudei pros Estados Unidos. Ficamos meio longe uns dos outros. Mesmo assim, nos víamos na Inglaterra, às vezes no aniversário de alguém, em algum casamento ou, infelizmente, em um funeral. Mas nunca falávamos da banda. Talvez sobre os resultados do futebol, sabe? Mas nada de mais. Sempre nos demos bem. Nunca houve uma animosidade ou algo do tipo.

Lembro-me de uma vez, na Inglaterra, em que teve um jogo da Copa do Mundo. Na verdade, a Inglaterra estava jogando contra o Brasil! Você se lembra? Em 2002, Ronaldinho fez o gol de cobertura em David Semean! Mas, enfim, Steve estava lá com a esposa dele e conversamos: “Ah, nós vamos fazer alguma coisa?”. Mas ainda estávamos meio: “Ah, não tenho tanta certeza”. Era bom dar uma pausa e essa pausa só foi se prorrogando.

Vocês sentiram medo de lançar um disco novo por correr o risco, de certa forma, de “manchar” a sólida reputação da banda com os fãs?

Acho que é o maior medo das bandas que retornam depois de muito tempo. Lançar um disco e ele ser, basicamente, uma merda. Isso realmente aconteceu. Você pensa: “Isso é foda!” [se refere a uma composição], mas então você toca aquilo e é meio decepcionante. E nós não queríamos isso. Estávamos cientes de que tinha que ser um disco matador. Era estranho ler resenhas e críticas que nos tratavam como uma banda “revival” e tudo mais. Queríamos mostrar que nossos cérebros criativos ainda estavam funcionando.

Não apenas vocês, mas outras bandas identificadas com o shoegaze, como o My Bloody Valentine, Slowdive e Ride, voltaram a tocar juntos novamente. É uma boa época para se estar em uma banda de shoegaze?

Acho que sim. A coisa boa disso tudo é que houve uma “desculpa”. Na época, a coisa que ficou conhecido como shoegaze não durou muito tempo. Começou talvez em 1990 e em 1993 você já podia dizer que estava morto, sabe? E a imprensa musical da Inglaterra já havia voltado os olhos para o britpop ou sei lá o que. Acho que por muito tempo, as pessoas estiveram interessadas. Uma vez vi a capa de uma revista de segundo escalão dizendo: “O que aconteceu com o shoegaze?”. E ficamos sabendo que várias bandas no mundo tinham sido influenciadas por isso. O mais curioso é que, quando o MySpace existia, as bandas podiam escolher o “gênero” deles – como reggae, rock, blues –, e shoegaze era uma das opções lá [risos].

Falando desse período, entre 1990 e 1993, vocês estavam criando – junto às outras bandas – esse “gênero” ou “subgênero”, o shoegaze. Vocês devem ser tratados como “deuses” pelos fãs desse tipo de som.

É interessante. Tocamos o primeiro show [de retorno] e pensamos: “Bem, estivemos parados por um bom tempo. Acho que não vai ter ninguém jovem nos shows”. E quando olhamos nas primeiras filas, estava cheio de pessoas que claramente nunca haviam visto a banda anteriormente – gente com 20 e poucos anos. Isso é muito bom, porque seria terrível tocar para plateias com apenas gente de 40 anos, sabe? Os jovens estão lá – e isso é ótimo.

Tem uma história antiga de que vocês pensaram em entregar uma fita demo para J Mascis, do Dinosaur Jr., ou para alguém do Sonic Youth, mas ela acabou com Alan McGee. É engraçado como um pequeno momento pode ter sido tão definidor para a carreira de vocês.

Fizemos nossa primeira demo, era uma fita cassete, e escolhemos dez gravadores de Londres para entregar o material. Lembro de eu e o nosso primeiro baterista andando pelas ruas de Londres para entregar a fita em um escritório. Mas, descendo a rua, vimos um cara alto e loiro e outro com um grande cabelo preto, e logo percebemos que se tratava de Thurston Moore [guitarrista e vocalista do Sonic Youth] e J Mascis. Pensamos: “Porra! Vamos entregar essa única fita que temos para eles e não alguém de gravadora”. Mas como tínhamos apenas uma fita, pensamos: “Precisamos assinar com uma gravadora”. Então a entregamos à Creation Records No começo, nem imaginamos que eles estariam interessados na gente, pensamos que a coisa deles era outra. Mas depois, Alan McGee ligou e disse: “Quero contratar vocês”. Ele não queria nos ver tocar, não tinha dúvidas de nada, só queria lançar aquele material. Então, sim, a história provavelmente teria sido diferente, se tivéssemos assinado com outra gravadora, possivelmente nem seríamos tratados como shoegaze, porque ele sempre foi ligado à Creation Records, sabe? Mesmo que nosso som fosse mais conectado à música norte-americana daquele período, de todo jeito.

Alan McGee é uma figura até meio folclórica, um ícone da indústria musical britânica daquela época. Como ele era quando assinou vocês?

Ele era incrível. Era uma mistura de imaturidade com entusiasmo. Ele falava: “Ei, caras, o que vocês fazem é fantástico, vocês têm que seguir em frente, é brilhante!”. Acho que ele era assim com todas as bandas, tipo um líder de torcida. Ele deixava todo mundo transbordando de confiança.

Você falou sobre futebol antes, mas que para que time você torce?

Liverpool. Temos três brasileiros no elenco atualmente. Lucas, Coutinho e Firmino.

Entre os brasileiros, de quem você mais gosta?

Acho que Coutinho. Ele é muito bom, se desenvolveu muito essa temporada. Acho que em relação ao Lucas, quando contrataram ele, as pessoas não gostavam muito dele. Ele teve uma temporada de estreia difícil. Mas se tornou um desses meio-campistas essenciais. Com o [novo técnico, o alemão ex-Borussia Dortmund Jürgen] Klopp chegando agora, pode ser bom para eles, porque ele vai escolher as pessoas com quem quer trabalhar.

Você tem alguma ligação com algum time no Brasil?

Não. Tem muitos times por aqui. Mas claro que todo mundo conhece o Santos, por causa do Pelé. Mas tem muitos times aqui. Mas um fato engraçado é que há um fã do Swervedriver que jogou contra o Brasil. O nome é dele é Scott Brown, ele atua pela seleção da Escócia. Ele é amigo de um amigo de um amigo de um amigo que, aparentemente, gosta de Swervedriver.

Bom show para vocês no domingo, 1º.

Obrigado. Acho que vai ser muito bacana porque a maioria das pessoas na plateia nunca nos viram tocar. Talvez alguém que viajou até a Europa ou Estados Unidos para nos ver. Nosso setlist tem algumas das músicas novas, mas também muitas músicas velhas. Tocamos um pouco de cada disco, e acho que isso dá uma fruição à apresentação. Então, é isso, acho que vai ser bacana.