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Thiago Pethit ressurge, 5 anos depois, como um trágico orfeu dos trópicos em novo disco

Com o álbum Mal dos Trópicos (Queda e Ascensão de Orfeu da Consolação), artista faz uma análise sobre sua jornada e sobre os nossos tempos sombrios

Pedro Antunes Publicado em 18/03/2019, às 09h00

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Thiago Pethit (Foto: Rafael Barion)

Thiago Pethit pede cinco minutos a mais para o começo da entrevista. Precisava terminar de passar um cafézinho, ele explica. Sete minutos depois, reaparece: "Pronto, querido. Cigarro aceso, café na xícara", escreve, por mensagem.

O artista vive uma fase de dar tempo às coisas.

A cada um dos goles de café quente, feito na hora, e baforadas no cigarro, fundas a ponto de serem ouvidas do outro lado da ligação telefônica.

Pethit, agora, é outro. Ou melhor, tinge-se como um novo personagem, uma espécie de orfeu trágico, vindo do inferno para morrer por mais um amor perdido na mais nova narrativa criada pelo artista, também ator, roteirista, outras mil coisas, no quarto disco dele, chamado Mal dos Trópicos (Queda e Ascensão de Orfeu da Consolação), lançado nesta sexta-feira, 15.

Um artista/performer intenso, Pethit caminha de certa forma entre o real-Pethit e o personagem-Pethit. São duas identidades que se misturam, a cada disco. No fundo, a criação dele parece nascer diante do espelho. Pethit se vê refletido, ali, e e cria a partir daquele sujeito enxergava a sua frente. Desde Berlim, Texas, o primeiro álbum, de 2010, a Rock'N'Roll Sugar Darling, seu último disco antes do recesso, de 2014. E, claro, com o retorno com Mal dos Trópicos.


As múltiplas personalidades dentro dele, cada uma como um reflexo do seu interior em determinado momento do tempo/espaço, se escancaram para quem se propõe o exercício de ouvir a obra de Pethit, disco a disco, na ordem cronológica de lançamento. Um Pethit-personagem que nasce cândido, com Berlim, Texas, de 2012, percebe-se quebrado em Estrela Decadente, de 2014. Então, descobre um bon vivant de intensidade flamejante com o roqueiro Rock'N'Roll Sugar Darling.  

Quem, então, é o Pethit-personagem de hoje, de 2019, de Mal dos Trópicos. A resposta está no uso do subtítulo do disco, destacado entre parênteses. Queda e Ascensão de Orfeu da Consolação. Pethit, é um trágico orfeu contemporâneo, solitário, melancólico e desesperadamente intenso.

Zika vírus e o recesso

Para entender o nascimento desse novo personagem, é preciso voltar a 2016 e ao Pethit-real. Naquele ano, Pethit percebeu ter cruzado o limite físico e psicológico ao sair em turnê pelo Nordeste, de cinco shows em cinco dias, e encerrar essa maratona em São Paulo, com a participação na pré-estreia do filme Amores Urbanos, de Vera Egito, no qual atua.

Mas Pethit estava infectado pelo zika vírus e todo o processo foi imensamente doloroso. "Eu me entregava pra caralho. É claro, nos shows, isso diminuía. A dor nas juntas, a febre, mas depois, aquilo me pegava. Foi quando eu percebi que havia passado do limite", conta o artista.

Nos quatro meses seguintes, Pethit fez somente os shows os quais não pode cancelar. Tratou de se colocar mais tempo em casa, no silêncio, ao violão. Surgiram ali algumas canções desse Mito do Orfeu contemporâneo, em uma levava jazzística, suave, para sarar o artista quebrado.

Dessa leva, sobreviveram a Mal dos Trópicos "Rio" e "Orfeu". A segunda canção conceitua, basicamente, quem é o personagem da vez no álbum, uma adaptação do Orfeu mitológico para os tempos modernos.


"São canções com minha voz com mais destaque", avalia Pethit, ao citar como o início do projeto, três anos atrás, sobreviveu até a versão final, com o disco pronto.

E segue: "Eu estava fazendo uma bossa nova e me perguntava o que faria com aquilo. Só depois fui entender o Orfeu e fui pensar sobre os nossos tempos. Isso me guiou esteticamente. As ideias do mal, de algo amaldiçoado, foi se dando com o tempo, não estavam na minha primeira imagem. Foi acontecendo com os últimos anos no Brasil. Foram me levando também para essa sonoridade mais suja, com trip hop, noir, algo mais fantasmagórico."

Na produção, Diogo Strausz

"Cheguei em 2018, no começo do ano, com as músicas prontas, o que não estava pronto, estava esboçado. Eu sabia qual seria a cara do disco, mas entendia que seria difícil. Até hoje, ao ouvi-lo, acho engraçado porque parece tão coeso, como se tivesse sido simples chegar a esse resultado", conta Pethit. "Mas, na época, eu pensava como iria explicar o que eu quero nesse disco, que fosse sinfônico, que fosse trip hop, mítico, com tantos temas, tantas referências, tanta informação."

O parceiro de Pethit nessa empreitada foi Diogo Strausz, músico e produtor de trabalhos plurais e caminhos estéticos diversos. "Foi a primeira vez que pude me encontrar com um produtor cinco vezes para um café, para conversarmos, antes de entrarmos no assunto do disco", recorda Pethit. "Queria aprender quem ele era."

Mal dos Trópicos é um disco cozinhado a banho-maria, vagarosamente, por conta disso. "Foi um disco de muito diálogo", ele relembra. Os gravações se deram de junho a dezembro de 2018, no estúdio de Strausz, no bairro paulistano da Mooca. Entre as participações especiais estão as irmãs Beraldo, Maria (no clarinete) e Marina (flauta).

Tudo ali é grandioso, com os arranjos assinados por Strausz. As canções trazem dois violinos, viola, dois cellos, contrabaixo, clarinete, dois trombones, trombone baixo, trompa e trompete. A exceção é de "Orfeu", a mais diminuta delas nesse sentido, mas com um belíssimo piano de armário executado por Zé Manoel.

"Ele [Diogo] mandou muito bem. Fico até meio impressionado com os arranjos. Impressionado por mim e com ele. Ouço e penso: 'nossa, que legal o que fizemos. E que complicado também'", brinca.

Fantasma nas ruas do centro de São Paulo

O Orfeu de Pethit em Mal dos Trópicos voltou do inferno, de onde tentou resgatar a amada Eurídice, como no mito, mas se encontra na São Paulo de hoje - aliás, a versão é beeem 2019, com todo o caos e sombras político-sociais - durante o carnaval.

Perambulando, meio fantasmagórico e solitário, pela atual São Paulo, vagueia sem destino, revivendo fantasmas dos amores passados. Sente vazio, enquanto espera ser devorado vivo pelas canibais bacantes, também figuras mitológicas, para poder renascer, ter a chance de um novo começo.

"Quando vem a noite / Eu sou o amante / Que você devora / De trás para frente / Feito Bacante / Lambendo seus dentes / Pra mastigar meu coração / Pelos bares da Consolação", canta Pethit em "Orfeu".

De certa forma, cada personagem dos quatro discos de Pethit é uma evolução do anterior. "[O disco Rock'N'Roll] foi viver um carnaval, um momento mais rock and roll. Pela questão estética daquele disco, eu queria provocar com aquele disco. Era algo mais dionisíaco. Tinha algo de sexual, de libido. E o show puxava muito para esse lado. O rock and roll funcionava como um elemento sexy e poderoso nesse sentido", explica Pethit.

Ele segue: "Essa entressafra [período de cinco anos entre os discos] foi o período no qual a Eurídice e ia para o Hades" - aqui, Pethit-real mantém da trajetória de Pethit-personagem como uma versão revisitada do Mito de Orfeu.

E o trip hop encontrou Heitor Villa-Lobos

Era fundamental que Mal dos Trópicos (Ascensão e Queda do Orfeu da Consolação) fosse sonoramente incomum. A linguagem escolhida ali ditaria o clima dessas canções tão imagéticas, bastante narrativas, de Pethit.

Pethit queria algo sinfônico, vindo do universo musical do compositor carioca Heitor Villa-Lobos (1857 - 1959) - daí vieram assustadores arranjos de cordas -, mas também contemporâneo e noir. Com isso, chegou o trip hop e à bateria eletrônica sampleada de outras obras. Nem tente perguntar a Strausz de onde ele tirou alguma delas, porque a resposta será: "Estará escrito na minha lápide", brincou ele, em contato com a Rolling Stone Brasil.

Interessante perceber como Mal dos Trópicos nasce solar, com "Abre-Alas", e desce em uma espiral de descontentamento e desencanto, já a partir de "Noite Vazia", a segunda música do disco.


Pethit é um compositor de amores perdidos dos melhores. Libidinoso e, também, solitário. Ele diz que não escreve sobre o amor. Sua caneta, por sua vez, encontra formas engenhosas e doloridas de desenhar o nada, o não-desenhável, o vácuo e o vazio.

"O amor é a única coisa que nos humaniza, né?", ele reflete, vagarosamente - talvez ainda segurasse a fumaça do cigarro, inalada pouco antes, dentro dos seus pulmões. "E a ausência de amor é o que nos humaniza também."

Aos poucos, Mal dos Trópicos vai se abrindo e se entregando a amores. Como diz em "Me Destrói": "Penso em você a toda hora / São quatro e meia e o sol derrama / Teu cheiro em tudo e eu na lama / Pelos quatro cantos do meu quarto / Na minha cama, no meu tabaco / Te guardo / Te aguardo / Você não vai voltar / A ser meu bem".

Arrasado, Pethit se arrasta enquanto tenta recolher os próprios cacos e encontra uma São Paulo, um Brasil, igualmente destruído lá fora. Pethit fala, sim e muito, de política em Mal dos Trópicos.

Mas Mal dos Trópicos é cíclico, vê a luz, por fim. "Samba do Orfeu (Mal dos Trópicos)", a última do disco, é parte importante disso. Ela recorre a temas e sensações de todo o álbum para, com a adição da percussão de samba, trazer luz, enquanto soturnamente Pethit pede: "Devore-me".

Disco amaldiçoado?

O pedido para ser devorado se repete em "Mal dos Trópicos", a penúltima canção disco. "Eu quero ver o fogo pegar samba", diz Pethit na faixa também, como um mantra. Em certo momento, ele pede: "A tragédia tem final mas antes o Brasil precisa de Bacantes".

Tal qual Orfeu, o País também precisa renascer, seguno Pethit. Como o plano de fundo para uma narrativa tão pessoal, o artista insere o contexto sócio-político brasileiro, da sensação de navegar na tormenta, numa noite que dura mais do que algumas horas.

"Fomos gravar as vozes no período das eleições", ele recorda. "Eu tinha feito paralelos do que eu escrevia com o que ocorria no Brasil, mas foi algo que guardei para mim", conta o artista. "Agora, estamos vendo as coisas se concretizarem. Eu espero que as Bacantes realmente apareçam!"

Ele relaciona o Mito do Orfeu também ao Brasil, de modo que o sequestro da Eurídice, que deu início a toda a história do personagem, com o impeachment da então então presidente Dilma Rousseff.

"Meu país está em guerra / E as leis na minha terra / Nem um deus será capaz de mudar", canta Pethit em "Teu Homem".

Nas gravações, Strausz percebeu tudo. "Você tá falando e as coisas estão acontecendo", disse o produtor a Pethit. "Esse disco é amaldiçoado!", diz Pethit, ao telefone. "Talvez esses temas de luto e choro soassem dramáticos demais caso [Fernando] Haddad tivesse ganhado [as eleições presidenciais, no fim de 2018]."

Ao criar uma espécie de ópera-rock que busca preencher o deserto deixados pelos amores, Pethit se entrega mais uma vez, para ser devorado pelo seu Pethit-personagem, o Orfeu dos trópicos, melancólico, perdido e desolado. Dentro de um universo musical tão particular, não existe "dramático demais".

Ouça Mal dos Trópicos (Queda e Ascensão de Orfeu da Consolação), de Thiago Pethit: