Traições e US$ 1 milhão em drogas: os 50 anos do Fleetwood Mac

Conheça a cinquentona banda que criou "The Chain", música que está na abertura da novela das 21h da TV Globo, O Sétimo Guardião

Paulo Cavalcanti Publicado em 27/11/2018, às 14h55

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O Fleetwood Mac (Foto: Divulgação)

O Fleetwood Mac é até hoje um das bandas mais influentes da história da música pop. Não é por acaso que "The Chain", um dos maiores sucessos do grupo norte-americano, lançado em 1977, está na abertura da novela O Sétimo Guardião, atração das 21h da TV Globo.

São cinquenta anos de história. De uma banda de blues tipicamente inglesa, liderada por Peter Green, mas que, sem ele, se mudou para os Estados Unidos e partiram para criar um pop extremamente luminoso.

Para marcar as cinco décadas do Fleetwood Mac sai pela gravadora Warner a coletânea 50 Years – Don’t Stop, disponível nos formatos físicos e digital. O disco compila todas as fases do Mac, juntando faixas da época blues com Peter Green (“Albatross”, “Black Magic Woman”, “Need Your Love So Bad”, “Oh Well”) com as pérolas radiofônicas gravadas pelas formações posteriores como “Sara”, “Rhiannon (Will You Ever Win)”, “Gypsy” e outras.

AINDA NA ATIVA

No momento, o Fleetwood Mac está novamente na estrada, com um line up ligeiramente reformado. Para a grande maioria dos fãs, contudo, nada supera a formação clássica da década de 1970 que incluía Mick Fleetwood (bateria), John McVie (baixo), Stevie Nicks (vocal), Christine McVie (teclado, vocal) e Lindsey Buckingham (guitarra, vocais).

A música que o Fleetwood fez em todas as suas encarnações, sempre foi precisa e sofisticada, a pura definição do pop adulto que iria tomar conta das FMs de todo mundo. O Fleetwood Mac não só vendeu uma infinidade de discos. O grupo também criou uma indústria. Mas por trás das pilhas de discos de platina e do som refinado, houve muita angústia, discórdia, tragédia e excesso.

ALUCINÓGENOS E RELIGIOSIDADE 

As drogas tiveram um peso enorme no estado de dissipação em que os artistas viviam. Ainda nos anos 1960, Peter Green, então líder, sucumbiu ao LSD.  O virtuoso da guitarra deixou a banda que havia fundado em 1970, ao ser diagnosticado com esquizofrenia.

Green também se revoltou contra a indústria musical e dizia que não queria mais fazer parte daquilo. Por muitos anos, o paradeiro de Green era desconhecido. Ele só foi reaparecer no final dos anos 1970. Mas ele não foi a única baixa da formação original. Jeremy Spencer, o outro guitarrista do Mac, também era adepto do uso de substâncias lisérgicas. Em uma viagem pelos Estados Unidos, envolveu-se em culto religioso chamado Children of God. Spencer nunca mais voltou ao Mac.  

DIVÓRCIOS, TRAIÇÕES E O DISCO CLÁSSICO

Sem o líder Green, o grupo, passou a ser liderado por Mick Fleetwood e John McVie. E foram obrigados a se reinventarem. Para isso, recrutaram novos músicos e remodelaram completamente o som que faziam. Os planos incluíam mudar de país e fixar morada nos Estados Unidos.

Parecia até outra banda. Agora o som era suave, pop, tipicamente californiano. Com tais mudanças, o Fleetwood Mac tramou um dos discos mais bem sucedidos de todos os tempos, um trabalho que vendeu milhões e definiu a sonoridade da década de 1970: Rumours, lançado em 4 de fevereiro de 1977. Os bastidores da criação deste marco da música pop poderiam facilmente se transformar no roteiro de um filme.

O núcleo da banda era constituído por dois casais: John McVie e Christine Perfect (depois McVie), e Linsey Buckingham e Stevie Nicks. O grande problema é que à época da gravação de Rumours, os casais haviam se separado, e isto não aconteceu de maneira nada amistosa.

Afinal, iniciados ainda nos 1970, os pares não eram muito adeptos da monogamia, digamos assim. Ao longo da primeira metade de década, as traições eram constantes. Brigas, tensões, Rumours foi criado em um ambiente polvilhado por pólvora. Não é por acaso que um dos hits se chama "Go Your Own Way", algo em, tradução livre, como "siga seu caminho" - quer um recado mais claro do que esse?

Coube ao baterista Mick Fleetwood ficar no papel de “isentão” e servir de mediador entre os amantes briguentos, ou então não teria disco algum.

COCAÍNA EM ESCALA ÉPICA

Em seu livro Play On, Fleetwood recordou aqueles dias complicados e abriu o jogo. Para aliviar o baixo astral, havia a cocaína. Afinal, na Califórnia dos anos 1970, a droga era farta. E os integrantes do Fleetwood Mac enfiaram o pé na jaca com gosto.  Stevie Nicks supostamente teria gasto U$ 1 milhão com o pó.

Ela só conseguiu se livrar do vício em 1986 depois que um cirurgião plástico falou que o nariz dela estava desintegrando. O próprio Mick Fleetwood se afundou no vício e logo estava falido, mesmo com os milhões que entravam na sua conta bancária.

No final, toda a situação complicada valeu a pena artisticamente. Rumours era uma autêntica obra-prima, uma crônica dolorida sobre infidelidade e a separação dos casais. Mas apesar das letras serem amargas e cheias de ressentimento, o som era ensolarado e canções como “Go Your Own Way”, “Dreams”, “Don’t Stop” e outras ganharam as rádios do mundo todo.

ETERNA NOVELA

Mesmo se detestando, os integrantes não poderiam se separar naquele momento que tinham achado o pote de ouro. A banda ainda lançou álbuns milionários como Tusk, Mirage e Tango in The Night. Mas eventualmente, depois da troca de alguns membros, o Fleetwood Mac terminou em 1995 após o lançamento de Mask.

Depois de quase 20 anos separados, Mick Fleetwood, John McVie, Stevie Nicks e Lindsey Buckingham voltaram em 2003 para o álbum Say You Will – Christine McVie não quis participar. O disco fez sucesso, a banda caiu na estrada e debandou novamente.

Os músicos depois voltaram a se falar e no começo deste ano resolveram voltar, agora com Christine. Mas o sangue ruim voltou a circular e Buckingham saiu novamente, citando conflitos criativos e financeiros.

No mês passado, ele até processou os ex-companheiros. Em seu lugar estão Mike Campbell (ex-Tom Petty  and Heartbreakers) e Mick Finn (ex-Crowded House). Agora com 50 anos de existência, o Fleetwood Mac cristaliza sua saga que junta música primorosa com alto drama e rusgas internas.