Trent Reznor: “Eu estou tentando ser tão puro quanto era quando comecei”

O músico do Nine Inch Nails revela segredos da turnê Tension 2013

GAVIN EDWARDS Publicado em 17/10/2013, às 16h38 - Atualizado às 16h39

Trent Reznor
Steve Mitchell/AP

Na gravação de Hesitation Marks, o primeiro álbum do Nine Inch Nails em cinco anos, Trent Reznor gastou um pouco mais do que o normal. “Investimos em novas caixas de som de alta qualidade no estúdio”, ele conta à Rolling Stone EUA. “Então foi produzido quase como um disco de hip-hop, dando muita atenção à interação dos diferentes níveis de som.” Agora, está levando o som grandioso aos palcos, desde que Nine Inch Nails começou sua turnê, Tension 2013, em Minneapolis, no começo deste mês. Reznor espera ficar na estrada boa parte de 2014 (acompanhado pela mulher e os dois filhos, que completaram dois e três anos). Perguntamos como ele se preparou para a turnê: escutando as gravações. “Eu prefiro não ouvir minha própria música quando não estou trabalhando nela”, ele diz. “Apenas porque é bom me afastar dela.”

Tocando músicas dos álbuns antigos, alguma coisa te surpreendeu?

Sim, eu surtei um pouco com o quão estranho o nosso último disco [The Slip] soa. Não sei se foi um sentimento geral, mas ouvindo, pensei: “Que merda é essa?”.

Como você decidiu que músicas fariam parte do set?

Primeiro, eu pensei no tipo de turnê que seria. Eu brinquei com a ideia de desconstruir o Nine Inch Nails de um jeito semelhante ao que fiz na evento beneficente Bridge School [de 2006, quando ele tocou com um quarteto de cordas]: reinterpretar de uma maneira interessante e um tanto perigosa para mim e apresentá-lo em um ambiente de casa de espetáculo. Bem, essa não foi a turnê que estava sendo vendida – foi o Nine Inch Nails tocando nos festivais. E se eu quisesse fazer algo mais obtuso, teria que me certificar de que isso seria explicado claramente para evitar decepções. Já assisti a muitos shows dos quais saí desapontado e desejei que fossem de outro jeito. Não que seja o dever deles me agradar, mas ao mesmo tempo tento ver as coisas com o olhar como o do consumidor, do fã. Eu não quero apelar para a audiência, mas estar ciente da existência dela.

Por outro lado, o que você acha que as pessoas querem do Nine Inch Nails a essa altura?

Essa é uma boa pergunta – eu não sei. O que estou tentando fazer é estar puro como quando comecei. No processo de escrita das primeiras músicas eu percebi que a única coisa que posso fazer bem é expressar quem eu sou verdadeiramente. Isso é o mais poderoso. Quando eu retorno ao processo de escrita depois de algum tempo afastado, a primeira parte é sempre ser honesto comigo mesmo. Do que estou gostando no momento? De bandas de rock e guitarras, de barulho, ou de batidas dançantes e eletrônicas? É espaço, desordem? Segundo, quando chega a hora de colocar a caneta no papel e expressar sentimentos, quem sou eu no momento? O que eu, como um homem de 47, 48, tenho pra dizer sobre qualquer coisa? Essa redescoberta toma tempo – no meu cotidiano, tento não sentar e pensar em como eu me sinto. Não faço terapia nem frequento grupo de alcoólatras anônimos.

Foi por isso que você deixou o Twitter?

Esse foi o motivo principal. Eu estava experimentando o Twitter quando estava em turnê e em busca de estímulo contínuo. As pessoas viram que “ah, ele talvez tenha senso de humor e não more dentro de um caixão”. Aquilo não encaixava no molde do que a imprensa e eu mesmo havíamos construindo no passar dos anos. Mas o Twitter, mais do que qualquer outra mídia social, pode ser destrutivo quando você dá muita atenção para o que as pessoas estão falando. Muitos dizem “Eu não leio resenhas”. Eu já disse isso e estava mentindo, mal posso esperar pra ler cada palavra. Mas nos últimos anos, parei de ler tudo. Existe poder no desligamento – tem informação demais no mundo. Essa cultura na qual vivemos, aonde você posta sua salada no Instagram ou coloca uma sex tape no ar, é meio vulgar.

Você observa traços da sua personalidade nos seus filhos?

É natural fazer uma projeção sua neles, mas não tenho certeza do quão apurada ela é. Consigo ver um senso de independência real nos dois. O lado birrento é claramente da minha esposa. [Risos.] Esse lance de ser pai é estranho – todas essas coisas que eu nem dava atenção quando as pessoas falavam dos seus filhos, percebi que tinha muita verdade naquilo. Você se ouve repetindo aquelas frases. A mesma coisa acontece quando você fica sóbrio. As merdas que você ouvia das pessoas, você percebe que eram verdade.