Tudo sobre Beggar's Banquet, disco que há 50 anos recolocou os Rolling Stones nos trilhos

Com "Sympathy for the Devil", álbum deu início à uma fase de ouro da banda de Mick Jagger e Keith Richards

Paulo Cavalcanti Publicado em 06/12/2018, às 15h38

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Keith Richars e Mick Jagger, dos Rolling Stones (Foto: Rolling Stones:50 / Reprodução)

Um ano antes de lançar Beggar's Banquet, há exatos 50 anos, os Rolling Stones pareciam perdidos. De fato, 1967 não foi nada fácil para Mick Jagger e companhia. A começar pelas acusações de envolvimento com drogas que Jagger, Keith Richards e Brian Jones.

Eles encararam a justiça britânica e por pouco não foram condenados e presos. Em meio à crise judicial, o empresário e produtor dos Stones, Andrew Loog Oldham decidiu abandonar o barco e deixar os Stones.

Por fim, os Beatles haviam lançado, naquele ano, o histórico Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band. Os Rolling Stones, em uma resposta perversa à inventividade do Quarteto de Liverpool, criaram Their Satanic Majesties Request.

Mas a tentativa foi muito mal-sucedida. A opinião na época é que os Stones não tinham relação com a contracultura e estavam musicalmente perdidos.

E, aí, veio o agora cinquentão Beggar's Banquet, lançado nos Estados Unidos em 6 de dezembro de 1958, que ajudou a colocar a banda inglesa nos trilhos.

Tudo começa por um bom produtor
Depois do massacre de Their Satanic Majesties Request, cuja produção foi assinada pela própria banda, os Rolling Stones saíram em busca de um novo produtor. Encontraram em Jimmy Miller a pessoa para isso.

Logo no primeiro trabalho veio "Jumpin' Jack Flash". Com ele, os Stones ganharam uma pegada suja, angular, unindo distorção e groove.

Mensagem social - e cínica
Os Stones se reuniram para gravar o próximo álbum no Olympic Studio no dia 17 de março de 1968. Em termos de som, o álbum descartaria de vez os experimentos psicodélicos do ano anterior e iria voltar ao básico do blues, country e folk, tudo embalado com um som semi-acústico.

Naquele período, havia muita agitação social no mundo todo e os Stones capturaram este estado de espírito de inquietude. O álbum que viria se chamar Beggar’s Banquet (O Banquete dos Mendigos), tinha uma certa vibração “socialista” e proletária, mas sempre passando pelo filtro irônico e cínico dos Stones.

Simpatia pelo Demônio
Foi neste disco que foi lançada "Sympathy for the Devil", um dos maiores clássicos da carreira da banda. Para escrevê-la, Jagger se inspirou no livro O Mestre e a Margarida, do soviético Mikhail Bulgakov, e no filósofo francês Charles-Pierre Baudelaire.

Nesta faixa clássica, Mick Jagger assume a posição do demônio, que interfere em acontecimentos mundiais, trazendo caos e desgraça. Com levada percussiva, uma ideia de Keith Richards, ela foi inspirada no samba, brasileiro, como confessaram.

Com o sucesso da canção, responsável por abrir o disco, a banda ficou estigmatizava – parte da opinião pública os chamava agora de “satanistas”.

O último esforço de Brian Jones
Guitarrista dos melhores, Brian Jones também ficou incomodado com a avalanche de críticas que o álbum psicodélico dos Stones havia recebido. Defendia um "Stones raiz", com canções fincadas no blues e no rock.

Mas Jones, que morreu em 1969, já não estava bem naquele ano. Sua dependência química era cada vez maior. Foi preso duas vezes em 1967, mais duas em 68. No estúdio, ele parecia um fantasma. Nos palcos, errava.

Canções banidas das rádios
Não bastasse a polêmica envolvendo "Sympathy for the Devil", Beggar's Banquet teve mais canções banidas pelas rádios.

Outra canção que causou forte comoção, por exemplo, foi “Street Fighting Man”, um rock ardido que clamava “o que mais pode um pobre rapaz fazer a não ser tocar numa banda de rock and roll, já que na sonolenta cidade de Londres não tem lugar para um lutador de rua?”. As rádios imediatamente se recusaram a tocá-la a faixa, acusando-a de incitar violência nas ruas e o vandalismo.

“Stray Cat Blues” também foi outra canção banida, já que trata de sexo com menores. O resto do álbum também tinha outras canções de alto calibre como o blues ancestral “Prodigal Son” (do bluesman Robert Wilkins); o folk “Factory Girl” e o enigmático rock “Jigsaw Puzzle”.

Já “Parachute Woman” era um feroz hard blues que contrastava com a clareza da linda balada acústica “No Expectations”, onde Brian Jones brilhava na slide guitar. O encerramento ficou a cargo de ”Salt of The Earth”, onde eles cantavam “vamos beber às pessoas que trabalham duro”. A canção, com direito a um coral gospel, começava com um solo vocal de Keith Richards.

Capa com xingamentos foi vetada
A capa do disco também causou controvérsia. Os Stones queriam na frente do lançamento uma imagem de um vaso sanitário dentro de um banheiro pichado – a parede incluía até alguns palavrões.

Depois de uma briga que durou meses com os executivos da gravadora Decca, a banda capitulou e a capa acabou sendo uma estampa branca, com o nome Beggar’s Banquet estampado como se fosse um convite formal para algum tipo de evento. A capa com as pichações saiu somente na edição em CD e em vinil nos anos 1990.

Fantasiados de mendigos
O álbum foi lançado oficialmente no dia 6 de dezembro de 1968, com grande aclamação. A banda deu uma festa para lançar o álbum e os músicos e convidados foram fantasiados, adequadamente, de “mendigos”.

O LP sacramentou a fama de “malditos” dos Stones, mas a sua excelência também os elevou a um novo patamar. Eles entravam em uma fase de ouro, que posteriormente iria incluir os álbuns Let it Bleed (1970), Sticky Fingers (1971) e Exile on Main St (1972).

Melhores de todos os tempos
Em 2003, a Rolling Stone EUA lançou sua lista de 500 maiores álbuns de todos os tempos e, nela, Beggar's Banquet. O álbum dos Rolling Stones estava na 54ª posição.