Um exercício de linguagem cinematográfica, Steve Jobs apresenta bem as muitas facetas do empresário

O mago da tecnologia, interpretado por Michael Fassbender, é mostrado em três momentos cruciais da carreira no longa de Danny Boyle

Paulo Cavalcanti Publicado em 14/01/2016, às 10h31 - Atualizado às 12h41

Steve Jobs - filme
Divulgação

Em 2013 estreou Jobs, com Ashton Kutcher no papel do empreendedor visionário que revolucionou a informática e ajudou a formatar o mundo moderno. O filme não foi bem recebido, mas não era tão ruim – tratava-se de uma biografia convencional, que seria muito mais valorizada se fosse uma produção da HBO. Já Steve Jobs, dirigido por Danny Boyle, é um produto muito mais ambicioso. Não se trata de uma cinebiografia, mas sim de um recorte sobre momentos-chave da trajetória do ex-CEO da Apple, que morreu em 2011 aos 56 anos, vitimado por um câncer no pâncreas.

Galeria: a história musical de Steve Jobs.

O longa é também um exercício de linguagem cinematográfica. O filme é dividido em três segmentos que são independentes entre si. É como se estivéssemos assistindo a três médias metragens independentes, cada um com um começo, um desenvolvimento central e um clímax. Boyle usa cenas de noticiários de TV para amarrar as três partes. Cada uma delas mostra Jobs apresentando um produto diferente. A partir daí, sabemos mais sobre ele e as relações que mantém com todos ao redor.

No primeiro segmento, que se passa em 1984, em Cupertino, Califórnia, ele apresenta o Macintosh. Esta parte é filmada em 16 milímetros. O segundo tem ação em São Francisco, em 1988. Depois de ser demitido da Apple, ele apresenta o incompreendido computador NeXT. Tudo é filmado em 35 milímetros. No último, que se passa em 1994 também em São Francisco, Jobs revela o iMac, marcando sua volta triunfal a empresa que fundou, mas da qual acabou sendo dispensado. Estas mudanças na cinematografia são importantes para mostrar as diferentes atmosferas de cada época.

No papel de Jobs, Michael Fassbender é brilhante, magnético e convincente. Mas o filme não endeusa o empresário. Pelo contrario, é difícil simpatizar com ele. O roteiro de Aaron Sorkin não suaviza. Jobs é cínico, frio, arrogante, trata as pessoas mal, é um péssimo pai, menospreza os colegas de trabalho e despreza quem um dia o ajudou a subir na vida. Também manipula a mídia a seu favor e sabe ser puxa-saco quando é necessário. Ao mesmo tempo, é carismático e, como é um bilionário poderoso, consegue atrair todo mundo. Mesmo a princípio fracassando em seus negócios, ele transforma os percalços em sucesso. Depois, faz questão de esfregar isso na cara das pessoas que um dia não acreditaram em seus projetos grandiloquentes.

Ao redor de Jobs estão Joanna Hoffman (Kate Winslet), a gerente de marketing da Apple, que é a melhor amiga e confidente do personagem. Mesmo vendo Jobs agir de forma desprezível, ela atua como consciência e tenta injetar um pouco de bom senso e humanidade nele. Jeff Daniels vive o executivo da Apple John Sculley, que é o que chega mais perto de uma figura paternal para Jobs. Seth Rogen se sai muito bem longe da comédia como o trágico Steve Wozniak, cofundador da Apple e amigo de Jobs desde que eles eram dois sonhadores durangos construindo bugigangas em uma garagem na Califórnia na década de 1970. Ele permanece uma figura humilde e despretensiosa enquanto vê o parceiro que tanto ajudou se tornar uma espécie de Deus inalcançável. Ele só quer que Jobs reconheça publicamente a equipe que criou o Apple II, o equipamento que inicialmente fez o nome da empresa. Mas Jobs não cede. Acha que seus antigos empregados e colaboradores não passavam de um bando de peões de obra – e nisso inclui Wozniak.

O confronto final entre os dois, quando Wozniak fala na cara de Jobs tudo o que pensa dele, é de afundar na cadeira. O empresário despreza a patética Chrisann Brennan (Katherine Boyer Waterston), sua ex-namorada e uma perdedora de carteirinha. E não assume a paternidade de Lisa (vivida por Makenzie Moss aos cinco anos, Ripley Sobo aos nove e pela carioca Perla Haney-Jardine aos 19), a filha que teve com Chrisann, embora ele se empenhe para que a menina, que logo se revela brilhante, não passe necessidades.

Mas Jobs, mesmo sendo confrontado violentamente por todas estas pessoas, aprende muito pouco. Ele acha que as relações humanas estão em segundo plano. Para ele, os algoritmos matemáticos são a solução pra as grandes questões da vida. Steve Jobs era assim mesmo: ele tinha uma fé quase budista que seus produtos iriam transcender e ajudar na evolução da humanidade. "Quero que os computadores sejam vistos como um amigo que você tem em casa, não como aquele monstro de 2001 - Uma Odisseia no Espaço", ele diz em uma parte do filme. Em compensação, permanecia indiferente ou hostil em relação às pessoas como meros indivíduos (se compara a Julio César, um imperador cercado de inimigos).

Edição 62 – O Steve Jobs Que Ninguém Conheceu.

Steve Jobs é um filme claustrofóbico, que se passa em locais fechados como salas de reunião, corredores e bastidores. Mas o diálogo afiado criado por Sorkin tem alguns momentos de humor negro que aliviam a tensão. O longa não mostra os últimos anos de Jobs, quando, segundo testemunhas ele virou uma pessoa mais sensata e razoável, bem mais fácil para se conviver. Neste período ele ajudou a desenvolver o iPod, o iTunes e teve mão na criação da Pixar. E o filme também não mostra a luta dele contra o câncer que o matou. Mesmo assim, cumpre um bom trabalho ao apresentar várias facetas de uma pessoa tão complexa quanto o mago da tecnologia.