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Uma intensa jornada pelo curioso universo musical de Sidoka

Como o trapper de 20 e poucos anos inverteu as regras de mercado, lançou três trabalhos em menos de sete meses e se destaca com uma linguagem própria?

Nicolle Cabral Publicado em 20/08/2019, às 13h50

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Sidoka (Foto: Divulgação)

A primeira vez que eu ouvi algum som do Sidoka foi no dia 2 de janeiro deste ano. No Twitter, percebi um burburinho sobre o álbum chamado Elevate, e pelos primeiros comentários, era um disco de trap de um cara mineiro muito novo, mas que parecia saber o que estava fazendo. Dei play.

O primeiro álbum desse personagem e/ou alterego de nome Sidoka chegou aos 45 minutos do segundo tempo de 2018 nas plataformas de streaming no dia 28 de dezembro. Quem, afinal, lança um disco a três dias do réveillon?

Nos últimos três anos criou-se o hábito de olhar para o som produzido fora do eixo Rio-São Paulo. A cena de música de Belo Horizonte se beneficiou disso, como um solo fértil para o surgimento de revelações do rap, trap e também do funk. Para citar alguns dos nomes, temos: Djonga, Clara Lima, Hot & Oreia, FBC, Delatorvi e Chris MC.

A chegada desse novo artista mineiro merecia atenção, portanto. Havia também uma curiosidade particular por conta da minha proximidade com o estado, no qual nasci e vivi parte da minha adolescência.

"Minha lupa laranja, igual drink escocês", dispara Sidoka, aos 40 segundos de "Scotch", música que abre o tal Elevate, um dos muitos versos curiosos da faixa. O primeiro disco de estúdio do belo-horizontino de nome Nicolas Paolinelli.

Antes disso, o rapper entupia a página de Soundcloud com várias músicas, entre elas, o primeiro rap que escreveu, aos 14 anos, de nome "The Hall Crew" e dedicado ao seu grupo de amigos. Mas ali, Sidoka ainda não tinha um estilo definido, aquele com o qual viria a se tornar conhecido anos depois, como dono de um flow incomparável (na velocidade e na voz estridente). Isso ele só encontrou na primeira mixtape, chamada Dokaz, de 2018.

“[Na época,] eu estudava, trampava e fazia curso. Eu rimava de madrugada e ia emendando. Acordava às 6h da manhã e ia dormir às 3h. Era meio complicado. Até que eu decidi largar o emprego e fazer a minha parada [na música]. Eu usava microfone emprestado de um camarada meu, pedi: ‘mano, me empresta esse microfone aí uma semana que eu vou fazer a minha primeira mixtape’”, conta. “Eu nunca desisti."

Quatro anos depois, o Sidoka é uma das revelações do rap nacional e se projeta, ao lado dos outros MCs citados acima, para fora das fronteiras da sua cidade mineira. E, o melhor, ajuda-os a dar força à cena local.

Em sete meses, ele lançou três projetos. Vieram Elevate, o EP Sommelier, e o segundo disco de estúdio, Language by Doka (de julho de 2019). Ao todo, os trabalhos somam mais de 14 milhões plays no Spotify.

Esses números, alcançados sem surfar no hype produzido pela mídia especializada, parecem trazer uma explicação bastante simples: Doka parece saber o que está fazendo.

Aos 21 anos, ele conseguiu criar uma linguagem própria dentro do gênero. Sabe como poucos no Brasil fazer uso dos adlibs (palavras de improviso muito presentes em tracks gringas que hoje é marca registrada dos rappers). No caso dele, Doka fala o próprio nome (uns gritinhos de "dóka!") no meio das rimas, como uma estratégia de reforçar a existência do seu personagem.

Sidoka também é mestre na arte de encontrar typebeats (sessões instrumentais prontas) disponíveis na internet e usá-los como base para as suas composições. "Já fiz muita coisa em cima de Travis Scott, Young Thug [que toca em São Paulo no dia 30 de novembro]. Hoje em dia penso mais em Lil Baby", admite. "Eu gosto de me manter atual e fazer uma parada diferente a cada momento."

Doka é frenético ao rimar sobre fama, drogas, dinheiro e, claro, sua dama, a protagonista de grande parte das suas lovesongs - aconselho a escuta de "Mi'adama", "Beach Motel", "Sommelier" e "Ela Sabe".

Ao surgir com um visual único, de óculos dos anos 1990, luvas táticas daquelas que deixam os dedos de fora e um cabelo milimetricamente cortado, Doka apresenta para os jovens como um tipo interessante. Quando rima sobre questões tão presentes no dia a dia dessa geração, ele acerta em cheio. É fácil ter 20 e pouco anos e se reconhecer no artista mineiro.

“É uma identificação que o jovem tem comigo, tá ligado? É uma parada que é só nossa, mano, só quem é jovem que entende”, diz. “Esse jeito de viver a vida, as ambições, de fazer o bagulho acontecer, correr atrás do seu sonho”.

Existe, dentro do hip-hop brasileiro, uma cena cada vez mais consistente de artistas que assumem as batidas do trap (mais graves e vagarosas), e têm conquistado bastante destaque nas redes sociais e obtido números impressionantes no YouTube, caso do trapstar Raffa Moreira, Denov, Delatorvi, e entre outros. Sidoka está entre eles.

O trap é habitat de origem de Doka, é claro, mas ele passou a ser notado fora dessa subcultura, quando foi convocado pelo gigante do rap mineiro Djonga para participar do disco O Menino Que Queria Ser Deus, lançado em 2018.

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Na música "UFA", Djonga anuncia: "Liga pro Sidoka pra trazer aquele flow". A voz do rapper é colocada em um looping antes da entrada de Doka, malemolente e inconfundível. "Pode pá, então, fiote / Pode crer que eu to além / Nossa tropa é louca, ela contém / Tô fazendo acontecer por isso sempre ela vem / Então fica mais um pouco / Ô, mina, vem."

A participação de Doka em "UFA" é ainda maior, o que pouca gente sabe, aliás. O refrão cantado alto pelo público diante de Djonga em cada show - "Sei que sou / Mais que penso e penso, jow / / Se eu jogo, eu venço, e tá tenso, ôh / Nós é jogador, então faça um favor" -, na verdade nasceu de uma música de Sidoka, chamada "Nativo" e lançada em 2017, um ano antes de O Menino Que Queria Ser Deus, o segundo álbum do Djonga.

"Estou me encaixando, fazendo o meu", avalia Doka, sobre a conquista de espaço na cena com um estilo próprio. "Eu gosto de ser eu no bagulho”, diz, sobre manter a originalidade. Como, por exemplo, decidiu - possivelmente contra qualquer regra mercadológica conhecida - lançar três projetos grandes em menos de sete meses.

A justificativa é bastante simples, na verdade: "Geralmente, quando eu ouço um beat, que recebi ou encontrei, já começo a escrever em cima dele na hora". Embora produza em uma velocidade alucinante, Doka também tem encontrado formas de transformar seu estilo em algo cada vez mais particular.

E isso é perceptível quando colocamos, lado a lado, os seus dois discos, Elevate e Language By Doka, separados por sete meses, distintos em timbres e na linguagem.

O EP Sommelier é um ponto de transição interessante entre esses dois momentos do artista Doka, e também uma versão mais romântica dele, por contar com uma presença arrasadora de lovesongs, como "Ela Sabe" e "Scarlett".

Se em um intervalo de tempo pequeno, a diferença é perceptível, quando se faz o exercício de voltar até as primeiras músicas lançadas por ele, ainda em 2015, e compará-las com o material mais recente, as rimas fluem líquidas, como se Doka fosse capaz de alterar o estado físico daquilo que canta.

O interessante é que ele ainda mantém um certo mistério em torno de si, mesmo tão presente no Twitter, uma centena de milhares de seguidores no Instagram e letras que, por vezes, falam sobre a sua própria vida.

Com esses elementos linguísticos que ele mesmo criou, Doka alimenta um personagem que vai além dos seus discos e mixtapes. Ele se descreve, nas suas músicas e no Twitter, assim: "É o pai dela de luva refletida", "Juliet da cor de limão", de "Cabelinho na régua" e mais importante, "chefe antes dos 20".

"Eu sou um pergaminho, vocês nunca vão me decifrar", já anunciava em Elevate, no final do ano passado, com a música "Hydra". Com o mesmo tom debochado do verso, ele responde à mesma pergunta: "Sidoka é o menino louco. Um doido que foi atrás do sonho dele, mesmo passando por tudo o que passou. Ele representa a força de vontade, a autoestima e essa posição de fazer acontecer”.

Embora saiba que parte considerável do seu público seja de São Paulo, Sidoka só conseguiu se apresentar em solo paulistano em maio deste ano, no dia 18, no Morfeus Club. A casa estava abarrotada, segundo contaram: trezentas pessoas, a capella, cantaram o repertório da noite, tirado do disco Elevate e do EP Sommelier.

Depois dessa data, ele agendou alguns outros shows no interior de São Paulo e no Rio de Janeiro. Na madrugada do dia 7 para 8 de junho, Sidoka faria uma apresentação no Bar do Seu Vidotti, em Campinas.

Era 1h da manhã, já do dia 8, quando entrei em um carro com os amigos para percorrer os 96 Km de São Paulo até lá. A previsão é que Doka apareceria no palco às 3h. Surgiu só 4h30, todo de preto.

Cantava "Scotch", a mesma primeira música que escutei pela primeira vez, como uma daquelas ironias do destino. Foi a partir dela, afinal, que iniciou-se uma jornada para decifrar quem era esse personagem - e uma boa quantidade de noites viradas em bares entre discussões sobre versos, expressões e tuítes do Doka.

Diante dele, rodeada de pessoas como eu, de 20 e poucos anos, entendi Sidoka melhor. Existe uma comunhão que não é explicada pelo mercado, pelos números ou coisa do tipo.

Ninguém talvez seja capaz de decifrá-lo mais do que isso, de forma definitiva. Quem é aquele por trás do par óculos de lentes espelhadas, que existe nas nas entrelinhas do dialeto próprio e quando o flow desacelera? Afinal, quem é Doka?

A verdade? Não faz diferença alguma.

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