Vaca Amarela 2013: hip-hop de Projota e lisergia do Boogarins se destacam na segunda noite do festival

Rock também foi bem representado com a participações de Corazones Muertos, Overfuzz, Porcas Borboletas, Dry, Cassino Supernova e Space Truck

Pedro Antunes, de Goiânia Publicado em 16/11/2013, às 14h32 - Atualizado às 16h10

Projota, no festival Vaca Amarela 2013.

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O palco Ygua, um dos teatros do Centro Cultural Martin Cererê, em Goiânia, fervia em gritos e suor quando o rapper Projota disse os últimos versos de “A Rezadeira”. Em comunhão com o público, o paulistano encerrou o segundo dia do festival de música independente Vaca Amarela. O que se viu e ouviu nesta sexta-feira, 15, contudo, não foi apenas hip-hop, mas, sim, um encontro de estilos distintos, que convergiram em uma programação balanceada e cheia de grandes surpresas.

Vaca Amarela 2013: festival mostra a força da cena do rock goiano e festeja com Nevilton e Bonde do Rolê. Veja a nossa cobertura do primeiro dia de evento.

Rap e rock ditaram as regras do dia, com suas diferentes texturas e subgêneros. Enquanto Projota seguiu, por exemplo, por um caminho mais tradicional, unindo versos de amor, ódio e superação com batidas cadenciadas e noventistas, Patrick Horla, que subiu ao palco mais cedo, às 21h30, mostrou uma performance mais agressiva, com letras raivosas e uma banda poderosa à tiracolo. O gênero ainda teve Faroeste e Calango Nego – a última mostrou repertório eclético, unindo samba, reggae e música eletrônica à sonoridade deles.

Com exceção de Projota, todas as outras três atrações são goianas e foram recebidas por um público afetuoso. A segunda noite do Vaca Amarela 2013 mostrou o poder de fogo do hip-hop local dentro da cena de música independente: plateia e rappers falavam a mesma língua, vivem a mesma realidade e, quando as batidas começavam, os teatros entravam em combustão.

Justamente por isso, a escalação de Projota se encaixou tão bem ali. Mesmo com um atraso de 50 minutos, o rapper encarou um público aquecido (e como estava quente dentro do Ygua!) e com as letras todas na ponta da língua do início ao fim da apresentação de pouco mais de uma hora. “O Projota Vai Tocar”, da mais recente mixtape do rapper, Muita Luz, foi escolhida para dar início à festa. A faixa é ainda mais poderosa ao vivo. Voz (dele e da plateia) e as batidas dão um acabamento mais cru à canção.

“Obrigado por ouvir o que esse pretinho tem a dizer”, falou Projota ao microfone, em certo momento. Em dois momentos da performance, o rapper paulistano partiu para o improviso, sem acompanhamento de batida. Ele citou o MC Daleste, funkeiro assassinado neste ano, e levou o público ao delírio com as três palavras repetidas por ele como um mantra: “foco, força e fé”.

“Toda rima minha tem que ser de efeito”, diz Projota.

Projota faz rap com o cotidiano difícil, como em “Fogo”, mas parece ter aptidão para versar sobre o amor, seja em forma de desilusão ou declaração. “Mulher” foi pedida pelo público feminino e, quando tocada, as vozes dela ganharam do rapper em potência.

De lisergia ao rock pesado

O curioso é que o mesmo público que entrava nos teatros do Martin Cererê para as apresentações de hip-hop também era visto nos shows com pegada roqueira. E isso se deu desde o início da tarde, às 18h, quando o centro cultural abriu as portas pela segunda vez no festival deste ano.

Todos os ingressos se esgotaram rapidamente e um grupo de pessoas sem bilhete tentou invadir o espaço. Eles acabaram espantados com uma pancada de chuva que caiu no início da noite de sexta. A água, contudo, não estragou a festa de quem estava lá para curtir o festival.

Os serviços também continuaram funcionando bem, com filas moderadas para a compra de ficha para a cerveja, mas nada preocupante. O espaço ainda trouxe boa variedade de comida, com pizza, hambúrguer e cachorro-quente, um estande da Ray-Ban e lojas para comprar os discos das bandas que passaram pelo festival.

As cabeleiras de headbangers começaram a se mexer com a performance do Space Truck, trio esperto que une Rush a Led Zeppelin com bastante atitude. Da vertente mais pesada, ainda vieram Dry, com um rock agressivo e veloz, Overfuzz, que já haviam feito uma apresentação competente ao lado da Dizzy Queen, no dia anterior, e a meio argentina, meio brasileira Corazones Muertos. A banda encerrou as atividades do palco Pygua, pouco antes da entrada de Projota no outro teatro, e exibiu riffs violentos e letras raivosas.

A brasiliense Cassino Supernova e a mineira Porcas Borboletas, mesmo não sendo locais, colocaram o público para dançar. Os primeiros subiram ao palco às 20h30 e mostraram um rockabilly irreverente e repaginado. Gorfo, o vocalista, conduziu o público por narrativas divertidas e contemporâneas, além de mostrar bom domínio de palco.

Já o Porcas Borboletas aposta em um rock mais eclético, sem parecer genérico. A banda mostrou bastante força ao vivo, unindo ska, reggae, às guitarras poderosas – muito como os paulistanos Titãs, no começo dos anos 80. Grande destaque para “Menos”, faixa do segundo disco da banda, cantada por Enzo Banzo, uma canção post-punk que parece unir Arnaldo Antunes e Public Image.

Entre tantos gêneros roqueiros do segundo dia de festival, a lisergia do Boogarins foi única. A banda recém-criada e com um disco na bagagem, As Plantas Que Curam, fez uma apresentação primorosa, cheia de texturas nos embates de guitarra entre Fernando Almeida (também vocalista) e Benke Ferraz, o vertiginoso baixo de Raphael Vaz e a bateria pulsante de Hans Castro.

O quarteto goiano formado por músicos já rodados na cena independente da cidade fez a estreia no festival Vaca Amarela pouco depois de receber uma resenha elogiosa do disco de estreia pelo site norte-americano Pitchfork, o que certamente atraiu ainda ouvidos mais curiosos.

Uma das melhores revelações da música indie nacional em 2013, a banda colocou a plateia em transe com “Lucifernandis”, que traz riffs e baterias velozes enquanto Dinho canta a trajetória da garota do título. “Infinu”, “Erre”, “Hoje Aprendi de Verdade” e “Doce” vieram na sequência, intercaladas com jams hipnotizantes.

Tal é a força das canções hipnóticas do quarteto, eles foram capazes de proporcionar uma viagem sinestésica que parece ter se prolongado por horas, ainda que tenha durado apenas 30 minutos.

A segunda noite do festival Vaca Amarela provou mais uma vez que o rock de Goiânia e um surpreendente hip-hop estão vivos e pulsam cheios de novidades saborosas.