Veteranos e revelações no Bridgestone Music Festival

Com dois shows por noite, a terceira edição do festival reuniu músicos cultuados e revelações do jazz

Por Antônio do Amaral Rocha Publicado em 24/05/2010, às 23h49

Ahmad Jamal esbanja energia aos 80 anos de idade

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A primeira noite do Bridgestone Music Festival, na última quarta, 19, com o Citibank Hall não muito lotado, apresentou o quinteto do trompetista e compositor Christian Scott, que em alguns momentos lembra o mestre Miles Davis. Foi a grande atração de uma noite cheia de estrelas. Christian, apesar da pouca idade, 27 anos, tem tudo para se tornar o queridinho dos apreciadores do gênero pela simpatia e desenvoltura com o seu instrumento. Um dos temas executados foi "K.K.P.D.", sigla para "Departamento de Polícia da Ku Klux Klan", uma referência de como a polícia de Nova Orleans trata a comunidade negra. No palco, Christian fez questão de contar a história do tema. Sua banda é formada por Milton Fletcher (piano), Kriss Funn (contrabaixo), Jamire Williams (bateria) e Mathew Stevens (guitarra). Graças à maneira quase visceral e enérgica com que Christian encara o trompete, é possível até ouvir algo de pop em sua música.

Ainda na noite de abertura do festival, o pianista e tecladista Uri Caine e banda - formada por Zach Danziger (bateria), James Jenus (contrabaixo), Elizabeth Pupo (percussão) e a cantora Bárbara Walker - fizeram uma música de mais difícil apelo, pelo excesso de solos e improvisos, a ponto de o primeiro número ter durado mais de 20 minutos. Nos improvisos, temas de funk, soul e gospel. O baixista James Genus tem uma habilidade impressionante e a cantora Barbara Walker é uma frontwoman de respeito, e, apesar da curta participação, até interpretou um tema de samba, durante seis minutos, com uma vocalização interessante (uma temeridade em terras brasileiras). Mas não fez feio.

Na quinta-feira, 20, foi a vez de Dee Alexander & Evolution Ensemble. Acompanhada por um trio de cordas (Tomeka Reid, cello; Junius Paul, contrabaixo e James Senders, violino, mais a percussão de Ernie Adams), Dee esbanja simpatia e técnica vocal. De registro grave, a cantora de Chicago, que segue divas como Dinah Washington e Nina Simone, fez um repertório que incluiu diversas correntes da música negra, como o blues, o soul, o rhythm & blues. Há quem diga que há algo de religioso nas interpretações da cantora.

A seguir, subiu ao palco o veterano pianista Ahmad Jamal, a grande estrela desta edição do Bridgestone, já conhecido dos brasileiros de outros encontros jazzísticos. De técnica impressionante, com temas longos, Jamal é o que se pode chamar de generoso com seus músicos. Todos brilham e o velho pianista pilota todos eles, apontando as entradas. Apesar da idade - 80 anos -, o músico não se submete a ficar sentado ao piano: toca em pé, anda pelo palco, senta novamente e ora parece nem estar ali. Mas, sempre atento, sinaliza cada solo dos outros elementos (James Cammack, contrabaixo, Manolo Badrena, percussão e Herlin Riley, bateria). Uma hora de música de qualidade, com longos silêncios e tensões entre um acorde e outro. Em alguns momentos, o piano é quase que martelado, em outros é tocado com uma sutileza que deixava o público em suspensão.

O show do The Overtone Quartet marcou o terceiro dia de maratona, na sexta, 21. A banda foi formada em 2009, liderada pelo baixo acústico do veterano Dave Holland (que já tocou com Miles Davis e Chick Corea), mais três cobras do gênero, Jason Moran (piano), Chris Potter (safoxone) e Eric Harland (bateria). O que se destaca é o espírito de coletivismo nas execuções. Todos brilham na mesma medida, evidenciando literalmente o espírito de liberdade proposto pelo free jazz. O ponto alto foi uma demorada interpretação de Holland para um tema do seu baterista Eric.

A última atração da sexta teve um acento latino, com a banda Escalandrum, liderada pelo baterista Daniel Piazzolla, neto do mago Astor Piazzolla, mestre argentino do tango. A banda - completada por Mariano Sivor (contrabaixo), Damián Fogiel (sax alto), Martín Pantyrer (clarinete baixo), Gustavo Musso (sax soprano) e Nicolás Guerscheberg (piano) - apresentou pela primeira vez temas do nuevo tango, uma homenagem ao pai do gênero, fundidas com a liberdade e o improviso que o jazz permite.

O último dia de festival, no sábado, 22, teve a cantora Melissa Walker com Christian McBride, um contrabaixista de categoria, acompanhados pela harmônica de Gregoire Maret, pelo piano de Xavier Davis e pela bateria de Uliysses Owens. Melissa é uma grande intérprete e apresentou repertório do disco In the Middle of the All. Houve espaço até para "Flor de Liz", mas o arranjo foi tão desconstruído que ficou difícil ouvir algo que lembrasse o tema de Djavan.

A última atração desta edição do Bridgestone apresentou o clarinetista e saxofonista Don Byron, acompanhado do New Gospel Quartet, formado por Brad Jones (contrabaixo), Pheeroan Aklaff (bateria), DK Dyson (vocais) e tomou emprestado o pianista Xavier Davis da banda de Melissa Walker. Don Byron brilhou mais tocando clarinete, especialmente quando solou uma fuga de Bach, arrepiante. O passeio que deram pelo rhythm & blues e até pela música étnica foi especialmente divertido. Apesar de certa dificuldade do público em aceitar de início a cantora DK Dyson, bastante espalhafatosa, sua presença acabou sendo marcante.