Opinião: por que ir à Virada Cultural?

Tomados os devidos cuidados, o evento pode oferecer um momento de reflexão sobre a importância da região central da cidade como local de convivência e, mais importante, de confluência

Pedro Antunes Publicado em 17/05/2013, às 13h47 - Atualizado em 18/05/2013, às 12h25

Virada Cultural
Diego Ciarlariello

Ruas tão cheias de história e deixadas de lado 364 dias por ano. O centro velho de São Paulo definha, mesmo que as autoridades tomem atitudes (equivocadas?) para ressuscitá-lo. É completamente desaconselhável perambular pela famosa esquina entre as avenidas Ipiranga e São João durante a noite. Em um dia do ano, contudo, isso é possível.

Você já foi à Virada Cultural? Vale a experiência. Ruas fechadas, gente caminhando nas ruas, não há carros e ônibus. Grupos seguem em busca dos melhores shows e ambulantes vendem cervejas a preços mais justos do que vemos em festivais por aí – mas fique longe do vinho, ou o que quer que seja aquilo, ok?

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São poucas as cidades do mundo que recebem, pelo menos uma vez por ano, essa tonelada de cultura em atrações gratuitas em sua região mais histórica. Ano passado, a cantora francesa Nadeah, que foi uma das atrações da Virada, estava ansiosíssima para poder ver e entender o que é a Virada Cultural. “Não temos isso em Paris”, disse ela, realmente curiosa para poder ver de perto o que aquele jornalista lhe contava ao telefone.

A Virada é o evento cultural mais democrático da maior cidade do país. E isso não é pouco, não. Ali, a mistura é intensa: número de zeros do salário, cor, bairrismo, time de futebol, nada diferencia um dos outros. Afinal, a ideia ali é apenas se divertir.

Claro, as questões de segurança são importantíssimas e todo cuidado é pouco quando se está por lá. Mas é o mesmo conceito usado dentro de qualquer grande aglomeração de pessoas, seja ela gratuita ou paga: não deixe o celular no bolso enquanto caminha pela multidão, coloque a mochila para frente, preste atenção em quem está ao seu redor. Qualquer um pode entrar na Virada, bem ou mal intencionado. Vale o bom-senso. Evite grandes muvucas, não se enfie em confusão.

Que outro lugar daria a chance para que o público pudesse se emocionar com um show do novato do soul Charles Bradley, que chorou ao se apresentar em 2012, ou a loucura punk rocker do Suicidal Tendencies às 8h de um domingo, na Avenida São João? Neste ano, a festa tem Lobão, Gal Costa e o retorno do Racionais MC's.

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Tomadas as precauções devidas, a Virada não decepciona. É o único evento cultural da cidade que conta com o funcionamento do metrô 24 horas. Pode-se ir e vir na hora que você quiser. Quer assistir a um show de rock? Tem. Pagode? Tem também. Soul, funk, brega, música eletrônica? Tem, tem e tem. É democrática ao extremo. Plural e única, a Virada Cultural unifica tribos, seja de tupinambás ou de tapajós.

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Mas é o centro o grande protagonista do evento paulistano. A região, vilã durante todo o ano – com seu trânsito, calor e excesso de gente durante o dia, e sombria e perigosa à noite –, sobrevive e ganha novas cores. É como se aquela boemia de décadas atrás voltasse apenas por uma noite. É uma visão romântica, claro, que tende a esquecer da sujeira das ruas e os incômodos para se usar os banheiros, mas é preciso entender a magia que acontece ali.

A Virada oferece a possibilidade de se observar: olhar para cima, reparar em uma paisagem pela qual passamos todos os dias, mas que não vemos verdadeiramente. Construções imponentes, como o Edifício Martinelli, o reformado e iluminado Theatro Municipal, o Shopping Light, o Prédio da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), o Edifício Itália, todos antigos, lindos e desprezados pelo cotidiano apressado.

É um evento que oferece um momento de reflexão sobre a própria sociedade, que se esquece da característica do centro como um local de convivência e, mais importante, de confluência. O ponto de encontro das zonas sul, norte, leste e oeste.

O centro pode ser tão saboroso e único quando outra região da cidade. Não precisa ser chique ou refinado. Ele só não pode morrer e deixar para trás tanta história. E, por enquanto, a Virada é o seu grande momento, é quando o centro recebe a função de protagonista, 364 dias depois de viver o ostracismo de um mero figurante.