Virada Cultural agita o fim de semana em São Paulo

Evento traz novamente programação diversificada, indo de rock independente a música cubana

Por Fernanda Catania, Patrícia Colombo e Paulo Cavalcanti Publicado em 17/05/2010, às 15h24

A cantora Céu fez ótima apresentação na virada

Ver Galeria
(4 imagens)

Atualizada às 16h

A Virada Cultural está acontecendo neste fim de semana, em São Paulo, novamente selecionando atrações diversificadas. Cena comum é ver grupos de amigos com seus mapas em mãos, pedindo informações a respeito das localizações dos palcos aos quais se pretende ir. Em meio a tanta gente, é até normal sentir um pouco de vertigem dada à intensa movimentação encontrada na região central de São Paulo durante o evento - diferenciando-se de forma gritante dos demais dias do ano, em que durante a madrugada poucas almas são vistas caminhando pelas ruas. Mas tudo tem um preço: se o clima de festa é satisfatório, os aspectos de limpeza nem tanto, uma vez que embalagens de bebida passam a ser encontradas no chão em uma quantidade crescente ao longo da noite.

No quesito pluralidade sonora - certamente uma das características mais interessantes da Virada -, se em determinado local, como o palco da Cásper Líbero, existe a oportunidade de conferir as novidades da cena nacional independente, em outro, os moradores de São Paulo podem curtir o melhor da música cubana, como foi o caso do palco montado na Praça Júlio Prestes, no qual se apresentaram Barbarito Torres e Ignácio Mazacote, duas lendas da história musical da terra de Fidel Castro. Veja abaixo como foram alguns dos shows que rolaram na noite de sábado, 15, e na madrugada deste domingo, 16:

Palco Júlio Prestes - Barbarito Torres e Ignácio Mazacote, às 18h

Os cubanos remanescentes do grupo Buena Vista Social Club, Barbarito Torres e Ignácio Mazacote, acompanhados de banda, trouxeram ao país o suingue da música latina, em gêneros como bolero, guajira e conga. Se Torres se destaca pela intimidade que tem com o alaúde cubano (inclusive tocando o instrumento de costas - como aparece no documentário sobre o Buena Vista, dirigido por Win Wenders), Mazacote ganha o público não só por sua voz, mas também pelo carisma. Brincalhão, divertiu-se com os fotógrafos e investiu nos passos durante as execuções das músicas. Entre as canções apresentadas, estiveram "Dos Gardenias", "Chan Chan", "Veinte Años" e "Adiós, Adiós".

Palco Av. São João - Grande Mothers Re:Invented, às 20h

Os ex-membros de banda de Frank Zappa, que pertenceram a diversas formações do Mothers of Invention, tocaram às 20h no palco de rock, localizado na Av. São João entre as regiões da República e Santa Cecília. Excelentes músicos, eles reproduziram com maestria as intrincados e matemáticos acordes característicos da música de Zappa, além de reviver o clima anárquico que caracterizava os shows do Mothers of Invention. O destaque é o vocalista e saxofonista Napoleon Murphy Brock, que além de possuir bons dotes musicais, é um divertido showman. Deve ter sido meio difícil para os músicos selecionarem canções do extenso catálogo de Zappa, mas o que tocaram, agradou. Em uma hora de apresentação, eles executaram canções de álbuns como Roxy & Elsewhere, Hot Rats e We're Only In It For the Money. Dentre as músicas, destaque para "Montana", "More Trouble Every Day", "Chunga's Revenge", "Lonely Little Girl", "Florentine Pogen" e a instrumental "Peaches En Regalia", uma das mais lembradas de toda a carreira de Zappa.

Palco Cásper Líbero Independentes BR (Mauá) - Black Drawing Chalks, às 21h

Aproximadamente às 21h o Black Drawing Chalks subiu ao palco para passar o som. O público presente já aproveitava para pedir para que o show - marcado para às 21h30 - "começasse logo". Logo quando os goianos começaram a tocar "The Legend", uma roda de bate-cabeça abriu no meio da "pista", permanecendo por lá durante toda apresentação. As músicas mais animadas da noite foram "Everything is Gonna be Fine", "My Favorite Way" e "Free From Desire". A empolgação da banda era tanta, que, após tocarem a última da noite, "Big Deal", o guitarrista Renato Cunha desceu do palco, bebeu um pouco da bebida alcoólica de um dos homens que assistia ao show no gargarejo e distribuiu palhetas ao público.

Palco Av. São João - Big Brother & the Holding Company, às 22h

Logo depois do Grande Mothers, entrou no palco dedicado ao rock mais uma banda cover/tributo de luxo: o Big Brother & the Holding Company. Como todos sabem, o grupo de São Francisco revelou Janis Joplin na metade da década de 60. Mas como o Big Brother já existia antes de Janis entrar e roubar a cena, eles decidiram continuar mesmo depois que ela os deixou. O guitarrista Sam Andrew, um dos poucos membros da formação original, até hoje lidera a banda e ao seu lado sempre coloca uma cantora que tenha um timbre similar ao de Janis. Eles costumam usar várias vocalistas, mas aqui no Brasil veio Sophia Ramos. O vocal de Sophia realmente é bem parecido com o de Janis, embora o visual e a postura de palco não tenham absolutamente nada a ver com a lendária cantora falecida em 1971. Foi melhor assim, já que os fãs tiveram a chance de apreciar um show que não apelou para a mera caricatura. O Big Brother de hoje é uma bem entrosada banda de hard/soul psicodélica e as versões que eles fizeram para "Summertime", "Me and Bobby McGee" e "Down on Me" não deixaram a desejar.

Bulevar São João - Booker T., às 23h

Nos anos 60, o tecladista e bandleader Booker T. Jones liderou a banda que acompanhava os artistas da gravadora Stax, de Memphis. O Booker T. & The M.G.'s surgiu como uma mera banda de estúdio, mas aos poucos ganhou status, lançando discos próprios e emplacando vários hits. Ironicamente, nos shows, Booker T. nunca foi o ponto focal da banda - esse trabalho ficava com o guitarrista Steve Cropper e com o baixista Donald "Duck" Dunn. Como esses músicos não estão mais com ele, Booker T. viu os holofotes voltados para sua pessoa. Ele é um sujeito modesto e discreto e isso ficou refletido no palco. No show que começou com cerca de 30 minutos de atraso no Bulevar São João, Booker T. mostrou aos brasileiros seu lado de showman e ganhou o público pela simpatia. Obviamente ele tocou várias canções em seu orgão Hammond B3, incluindo algumas de seu mais recente álbum, Potato Hole, lançado no ano passado. O grande hit "Green Onions" foi logo a terceira do show. Mas Booker T. depois foi para a frente do palco e tocou guitarra, cantando com uma voz agradável canções como "Born Under a Bad Sign", "Sittin' on the Dock of the Bay" e "Ain't No Sunshine". Pena que o microfone estava muito baixo e a voz de Booker T. tenha se perdido em meio ao burburinho que tomava conta do local. No final do show, ele voltou para o orgão e encerrou tudo com mais uma boa dose de groove e balanço.

Palco Samba, República - Baile do Simonal, às 23h

Às 23h, a sensação era de estar em uma das baladas de samba rock do bairro da Vila Madalena. Isto porque uma multidão de "novos hippies" invadiu a praça da República para assistir à reunião de Max de Castro e Simoninha, no projeto em que a dupla homenageia o pai, Simonal. Com um sorriso no rosto, Simoninha era o mais animado da dupla, conversando com o público e pedindo para a plateia acompanhá-lo nas letras durante todo show. Vestindo óculos escuros brancos, os irmãos conquistaram a plateia com sambas famosos, como "Zazueira", do Jorge Ben Jor, "Meu Limão, Meu Limoeiro" e "Nem Vem Que Não Tem", ambas do Simonal, entre outras.

Palco Júlio Prestes - Céu, à 0h

No palco da Julio Prestes - certamente o mais bonito da Virada - Céu roubou a cena com seu charme único e uma blusa branca brilhante, que ofuscava até aqueles que tentavam enxergá-la de longe no telão. Com um show manso e apaixonante, tocou faixas famosas como "Insônia", "Cangote" e "Grains de Beauté", e homenageou nomes como Adoniran Barbosa ("Iracema"), e Bob Marley ("Concret Jungle", regravada em seu primeiro disco, homônimo). Para finalizar, Céu gritou: "Viva Bob Marley!", recebendo uma resposta positiva do público, que, além de acompanhar o hit em coro, gritou e bateu palmas freneticamente.

Palco Arouche - Sidney Magal, à 1h

Ao que parece, o tempo não passou para os quadris de Sidney Magal. O cantor fez apresentação animada e lotou o Largo do Arouche. O setlist não só contou com clássicos de sua carreira, como "O Meu Sangue Ferve por Você" e "Sandra Rosa Madalena", como misturou Rita Lee (com "Baila Comigo") e Luiz Caldas ("Haja Amor") num pote só. Passinhos, jogadas de cabelo e gestos estavam lá, arrancando gritos do público. Ao final, Magal fez a linha Roberto Carlos e presenteou algumas das mulheres com rosas vermelhas.

Bulevar São João - The Temptations Experience featuring Glenn Leonard, à 1h

O vocalista Glenn Leonard fez parte do grupo The Temptations no período 1975/83. Era uma fase em que o Temptations já não tinha mais grande sucesso comercial. A constante mudança de integrantes também desestabilizou o grupo. Quando saiu do grupo original, Leonard montou seu próprio Temptations, embora faça questão de dizer que o que faz é um tributo. O Temptations oficial ainda existe com apenas Otis Williams como membro original. Naturalmente Leonard tem medo de tomar um processo se não deixar claro que seu grupo é uma homenagem. O Temptations de Leonard entrou no Bulevar São João por volta de 1h30 deste domingo, 16, e agradou o público com seu show tipicamente Las Vegas, com os integrantes cantando apenas hits reproduzindo fielmente as coreografias originais. Qualquer coisa que tenha a estampa Motown já significa jogo ganho e o grupo mandou ver em grandes clássicos como "Get Ready", "The Way You Do The Things You Do", "Cloud Nine", "Papa Was A Rolling Stone", "I Can't Get Next To You", "I´m Losing You" e outras. Mas a maior resposta do público veio mesmo com as baladas, exemplificadas por "Just My Imagination" e "My Girl". O único problema foram os microfones. Assim como na apresentação do Booker T., os microfones dos vocais estavam muito baixos e em alguns momentos simplesmente pararam de funcionar.

Palco Samba, República - Elza Soares e Sandália de Prata, às 3h

A outra porção samba rock da noite ficou a cargo da Sandália de Prata. O grupo comandou a maior parte da apresentação - já que Elza Soares se uniu à banda somente em meia hora dos 90 minutos de show. "Bala com Bala", eternizada por Elis Regina, e "Na Subida do Morro", dos Originais do Samba, estiveram no setlist. A cantora deu as caras às 4h, e soltou o vozeirão por 30 minutos, abrindo e fechando sua passagem com Jorge Ben - nas faixas "O Vendedor de Bananas" e "Bebete Vambora". Tendo machucado recentemente o tornozelo, Elza passou o show apoiada em uma cadeira. "Mas já estou ótima. Quase no salto 15", brincou. Apesar do problema, a diva não perdeu oportunidade de mostrar que o acidente pode ter acontecido, mas parte de seu rebolado permanece intacto.

Palco Júlio Prestes - Living Colour, às 3h

O show da banda norte-americana Living Colour animou o público, que aparentava estar cansado com as 9 horas de Virada. Faixas como "Glamour Boys" e "Time's Up" estiveram presentes. Mas os responsáveis por animar a plateia foram mesmo os caras da banda. O vocalista Corey Glover conversava o tempo todo com o público e William Calhoun, vestindo a camisa da seleção brasileira de futebol, fez um solo demorado de bateria, usando baquetas que piscavam luzes coloridas. Por fim, o Living Colour tocou "Elvis is Dead", que ganhou uma versão aportuguesada ("Elvis está morto"), emendando uma versão de "Hound Dog", do próprio Presley. Antes de descer do palco, Glover pulou nomeio da multidão, para alegria dos fãs e infelicidade dos seguranças ali presentes.