“Vivemos em um país muito dividido”, diz o diretor de O Ataque

Roland Emmerich diz que, apesar de não querer entregar um filme puramente político, fez questão de acrescentar elementos da história contemporânea ao filme que estreia nesta sexta no Brasil

Paulo Terron Publicado em 06/09/2013, às 14h43 - Atualizado às 15h22

Rolland Emmerich
Abraham Caro Marin/AP

Em O Ataque, que estreia nesta sexta, 6, Channing Tatum interpreta um candidato a agente do serviço secreto que, durante uma entrevista de trabalho, se vê em meio a um ataque terrorista à Casa Branca e tem de defender e resgatar o presidente norte-americano, interpretado por Jamie Foxx.

Jamie Foxx e Channing Tatum lutam contra terroristas em uma Casa Branca invadida em O Ataque.

As explosões que seguem são uma característica básica da carreira do diretor Roland Emmerich, o homem por trás da destruição generalizada de Independence Day, O Dia Depois de Amanhã e 2012. Durante um evento de divulgação de O Ataque em Cancun, no México, ele conversou com a Rolling Stone Brasil sobre política, mercado cinematográfico e o próximo projeto dele, um filme sobre a Revolta de Stonewall, um marco histórico nos direitos civis homossexuais norte-americanos, ocorrida em Nova York, em 1969.

Você diz não ter pensado em nenhum evento real para fazer o filme, mas a simbologia política é forte. É um trabalho político?

É assim: eu sempre olho primeiro para os personagens. Gosto deles? Da jornada deles?

E depois me pergunto se é um filme que todo mundo gostaria de ver. Tem algo de importante nele? Quando li o roteiro, gostei dos personagens, mas achei que não tinha relação de significado com a nossa sociedade contemporânea. Vivemos em um país muito dividido, os Estados Unidos são extremamente divididos, e eu queria esse elemento no filme. Queria mostrar como algumas pessoas acham que podem fazer coisas ruins só porque têm 50% de apoio por trás delas, dizendo que é o certo a se fazer. Foi isso que eu acrescentei ao projeto. Era importante para mim.

E deixar de lado a relação entre os Estados Unidos e o resto do mundo?

Acho que a Casa Branca meio que representa a sede militar do mundo ocidental. Todo mundo ficaria em alerta [se algo acontecesse com ela]. No fim do filme, quando você descobre quem está por trás de tudo, vê que poderia começar a Terceira Guerra Mundial.

Você pensa na reação de outros países a filmes como o seu? Há um certo nível de antiamericanismo na América do Sul, por exemplo.

Sim, penso muito nisso. Todo mundo sabe que muito do dinheiro do cinema é feito fora dos Estados Unidos. Especialmente os meus filmes, eles estranhamente têm um desempenho muito bom em países estrangeiros – acho que porque os meus temas são universais. Isso vem da história. Por exemplo, a China acabou se tornando um mercado enorme. Então, você quer se dar bem lá. Ao mesmo tempo, há uma cota [para exibição de longas-metragens não-chineses], o que quer dizer que alguém vai assistir ao seu filme e dizer: “Você tem de cortar isto e aquilo”. Como cineasta, você fica meio “uhn...”. E aí vem a pressão do estúdio. Tudo mudou muito nos últimos anos. A relação de Hollywood com o resto do mundo é muito mais importante hoje. No filme 2012 [2009] eu dei sorte por ter aquela frase: "Confiem nos chineses". Foi algo natural, que veio da história: era o único país grande o suficiente para construir algo tão grande [uma espécie de arca gigantesca e moderna, que ajuda as pessoas a sobreviverem ao apocalipse climático].

Seu próximo projeto é sobre a Revolta de Stonewall. O roteiro está pronto?

Não, não. Daqui vou para Nova York me encontrar com o autor, acho que ele termina o roteiro amanhã. Aí vamos jantar e trabalhar uns dois dias no texto, arrumar algumas coisas. É assim que começa. Depois é só esperar que alguém me dê dinheiro para fazer esse filme.

Sem ver o filme, dá para presumir que a extrema direita republicana é a vilã de O Ataque. Foi por isso que você quis ter um presidente negro, para deixar claro desde o começo?

Uhn... [risos] Sim. Sou declaradamente um apoiador de Obama, sou liberal e achava desde o começo que o meu presidente deveria ser negro. Começamos a filmar durante a segunda candidatura do Obama, e as pessoas me perguntavam o que aconteceria se ele não fosse reeleito. Eu dizia: “Olha, espero que isso não aconteça, mas eu ainda poderia dizer que gostaria que o Obama estivesse na Casa Branca”. Foi uma decisão extremamente simples. [pausa] E aquele outro filme [Invasão à Casa Branca, de tema parecido e lançado no primeiro semestre] tem o Aaron Eckhart como presidente. [revira os olhos]

Muitos sites criticaram você pela escolha de uma frase atribuída a Abraham Lincoln – “A América nunca será destruída pelo lado de fora. Se hesitarmos e perdermos nossas liberdades, será porque nós nos destruímos”. O argumento é que ele nunca teria dito isso. O quanto você se preocupa com realidade histórica?

Em primeiro lugar, não é verdade que ele não disse isso. Não acho que a ter uma base histórica está no topo das coisas a se fazer no cinema, sabe? Aprendi isso com William Shakespeare. Ele é o maior dramaturgo de todos os tempos, certo? Nas peças históricas dele nada é correto. Absolutamente nada! Há coisas risíveis em algumas peças, e isso não as faz ruins. Pelo contrário, as faz fantásticas porque faz você pensar no hoje. Penso que manter a verdade histórica é algo relevante até certo ponto, mas o drama e a estrutura do roteiro são muito mais. Mas sou obcecado por história! Quase só leio livros históricos.

Como será no seu projeto sobre Stonewall? Ele vai ter liberdade ou será estritamente histórico?

Tentei deixar a rebelião exatamente certa, porque ela ocorreu de uma forma divertida e muito legal. Eu não saberia o que mudar ali. Coloquei personagens históricos, pessoas que existem, mas sobre quem sabemos pouco – muitos dos rebeldes são desconhecidos porque moravam nas ruas, outros morreram de Aids depois. E há personagens criados. É uma história que ainda tem relação com o que acontece hoje.

É difícil imaginar um filme seu que não tenha efeitos especiais grandiosos...

Você não acreditaria, mas pensamos em usar muito chroma key [recurso em que se filma em frente a uma tela, acrescentando elementos mais tarde, digitalmente] em Stonewall. É a única forma de se fazer. Seria muito caro filmar no [bairro nova-iorquino Greenwich] Village. Então, filmaríamos um pouco lá, acrescentando elementos da época em tela azul. Esse é um lado legal de se fazer filmes gigantes e cheios de efeitos especiais, você não precisa se preocupar. Em algum lugar do mundo existe uma empresa que faz os efeitos que você precisar, seja na Índia ou na China. E aí trabalha com norte-americanos só para fazer os ajustes finais. É interessante ver como as pequenas empresas se dedicam. Em O Ataque, trabalhamos com uma da minha cidade Natal, Stuttgart, e eles tiveram um resultado incrível. Inacreditável. Então, não precisa ser caro. Sempre digo: Anônimo ficou mais barato devido aos efeitos especiais, não mais caro.

É diferente fazer um filme em um espaço limitado?

Não muito. Só me deixa um pouco mais preocupado, acho que mudo a posição da câmera mais vezes. Em O Ataque, o roteirista James Vanderbilt usou alas diferentes da Casa Branca, ambientes que normalmente não são utilizados – há um incêndio na cozinha, por exemplo, uma perseguição nos jardins. Sempre temos lugares interessantes para brincar.

Você se preocupou em fazer o presidente norte-americano usar uma arma, atirar?

Já tínhamos visto um pouco disso no filme Força Aérea Um [de Wolfgang Petersen, 1997], mas era mais uma briga física. No nosso realmente é diferente. Mas precisamos lembrar que aqui, tudo só acontece porque o presidente está buscando a paz. Ele quer a paz no Oriente Médio, quer se livrar de um gasto militar enorme e usá-lo para infra-estrutura, educação. É isso que faz as forças obscuras atacarem.