A volta de Beavis & Butt-Head e a possibilidade de um fracasso histórico

Será que o humor ofensivo ainda tem espaço, em meio a tantas lutas constantes contra todo e qualquer tipo de preconceito?

Igor Brunaldi Publicado em 27/07/2020, às 07h00

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Beavis & Butt-Head (foto: reprodução/ MTV)

Criado pelo animador, ilustrador, artista, músico, roteirista e ex-físico Mike Judge, o desenho animado Beavis & Butt-Head com certeza deixou uma marca permanente na história da indústria das animações dos anos 1990 e começo da década de 2010. 

Seja por ter basicamente originado o formato de vídeo de reacts (tão popular nos dias de hoje) ou pelo abuso do humor politicamente incorreto (tão inaceitável nos dias de hoje), não há como ignorar o impacto que esses dois jovens roqueiros tiveram na cultura pop ao longo dos quase 20 anos em que foram exibidos pela MTV.

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Agora, nove anos após a transmissão do último episódio, o Comedy Central (canal que abriga desenhos como South Park e Ugly Americans) anunciou o retorno de Beavis and Butt-Head para pelo menos mais duas temporadas.

Ao mesmo tempo que essa volta pode ser incrível, pode ser também que ela resulte em um enorme desastre, devido a todas as complicações que envolvem trazer de volta à tona uma obra muito amada em outros tempos e por outra geração.

E de certa forma, se analisarmos essa situação da forma mais crítica possível, a ressurreição do desenho tem muito mais a perder do que ganhar. E não é muito difícil entender por que.

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Por um lado, digamos que o criador, que vai participar como roteirista e produtor dos novos episódios (além de obviamente voltar a emprestar a voz para os protagonistas), decida manter o humor polêmico que consagrou a animação. Esse rumo com certeza vai chamar a atenção dos autointitulados "fãs raiz", e eles, por sua vez, vão elogiar e enaltecer Mike Judge por ter se mantido fiel aos princípios que os levaram a amar o desenho lá atrás, em 1993.

Ao mesmo tempo, permanecer nesse caminho controverso significa lançar em pleno 2020 novos episódios de um desenho carregado de piadas machistas, homofóbicas e até xenofóbicas. Como qualquer um que se informa um mínimo sobre o mundo atual sabe, esses não são mais tópicos aceitos na esfera do humor. Pelo menos não da forma escrachada que Beavis & Butt-Head fazia.

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Em outras palavras, ignorar (ou até muito pior, tirar sarro de) todo o avanço que a sociedade teve ao longo dos anos nessas esferas sociopolíticas, e todas as lutas fervorosas e diárias para combater todo e qualquer tipo de preconceito, pode até cativar o "fã raiz", mas com certeza vai repudiar o grupo denominado "fãs nutella". E isso nos leva ao outro lado da situação.

Se por acaso a equipe do Comedy Central decidir de fato levar em consideração as mudanças que aconteceram desde a época em que o desenho estreou (e isso significa abolir o humor ofensivo, além de remodelar toda a mentalidade dos protagonistas), então Judge e companhia serão massacrados por comentários dos "fãs raiz" acusando-os de se renderem à "geração mimimi".

Esse é, inclusive, o momento perfeito para que o desenho reflita, através de um amadurecimento dos personagens, o passar do tempo e o caráter atual do mundo, assim como usar dessa popularidade que tem para deixar claro que a comédia não precisa se apoiar em estereótipos e no preconceito.

E isso não é tarefa fácil para uma animação que utilizou tanto dessa técnica ao longo de oito temporadas.

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Ainda assim, mesmo se conseguirem executar essa transformação da melhor forma possível (como por exemplo os dois amigos reagindo e refletindo sobre as babaquices da juventude), o desenho não estará totalmente a salvo de não reverberar com uma nova audiência, o que seria a catástrofe final, já que a repaginação do humor certamente significaria a perda de grande parte daqueles que amavam o programa.

Então fica evidente que a reconstrução quase completa se mostra essencial para que Beavis & Butt-Head seja bem recebido nesse início da década de 2020. Cada uma das decisões tomadas pela equipe criativa tem peso primordial para o sucesso dos novos episódios. Ou para o fracasso.

No fim das contas sobra apenas uma questão: será que não era melhor ter deixado os dois metaleiros lá no passado?


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