WandaVision: Uma comédia romântica sobre a inevitabilidade do luto [ENTREVISTA]

Em entrevista à Rolling Stone Brasil, o diretor Matt Shakman falou sobre como os traumas da Feiticeira Escarlate inspiraram a estrutura, linguagem e estética da série

Julia Harumi Morita | @the_harumi Publicado em 04/03/2021, às 14h00

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WandaVision (Foto: Reprodução/ Marvel Studios /Disney)

[Atenção: esta publicação contém spoilers do oitavo episódio de WandaVision]

Em casa, na rua ou até mesmo nas paisagens de Wakanda. Sem você perceber, uma onda gigantesca se forma e te derruba. O movimento é rápido e não é possível identificar de onde ele veio, apenas sentir o corpo dolorido jogado no chão. 

Você se levanta e recupera o ar, mas é atingido por outra onda. Exausto, você reúne forças e se levanta novamente, com os pés trêmulos. Ao olhar para cima, uma nova onda te engole e você passa acreditar que um dia irá se afogar de vez.

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É com essa imagem que Wanda Maximoff descreve o luto dela após testemunhar a morte dos pais e do irmão Pietro Maximoff. No oitavo episódio de WandaVision, a protagonista revela o mistério que cerca a cidade de Westview.

Diante da desesperança, Wanda cria involuntariamente a própria realidade. Os personagens, os cenários, os eventos - não podemos nos esquecer dos pequenos dilemas para criar verossimilhança - se materializam direto das memórias e das idealizações mais profundas da personagem. Contudo, mais tarde, ela percebe que não consegue fugir do luto. 

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Com uma narrativa certeira, a Marvel dá continuidade às histórias do MCU de forma inédita ao retratar a perda por meio de uma comédia inspirada em sitcoms sobre famílias - temáticas e elementos que ganham intensidade em tempos de pandemia. 

Na próxima sexta, 5, o Disney+ disponibilizará o último episódio de WandaVision, o qual deve responder as perguntas restantes sobre o futuro da Feiticeira Escarlate, dos moradores de Westview e, claro, das visitantes Monica Rambeau e Agatha Harkness

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Antes do aguardado lançamento do nono episódio, a Rolling Stone Brasil conversou com Matt Shakman, diretor e produtor executivo da série, sobre as escolhas criativas que resultaram na narrativa inovadora de WandaVision, a transformação da linguagem ao longo dos episódios e o que podemos esperar do capítulo final. Confira:

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RS Brasil: Há quanto tempo a Marvel planejava dar mais destaque para a Feiticeira Escarlate e explorar a magia dentro do MCU? 

Matt Shakman: [Os fãs das HQs] sabem quem é a Feiticeira Escarlate e outros têm questionado por muitos anos se Wanda Maximoff se transformará na Feiticeira Escarlate como nos quadrinhos. 

Agora, no último episódio, nós mostramos que essa é a história que estamos seguindo. A magia é algo que faz parte das HQs da Marvel e está se tornando cada vez mais presente no MCU também - claro, o Doutor Estranho sendo o exemplo primordial disso e Wanda e Agatha Harkness se juntando a ele em termos de magia no mundo da Marvel.

RS Brasil: É impressionante o fato de que a série continuou as histórias que conhecemos no MCU, trouxe novas referências das HQs e inseriu easter eggs de sitcoms. Como foi trabalhar com tantas referências em episódios curtos?

Matt Shakman: Cada HQ foi construída a partir das que vieram antes, então, é claro que queríamos levar em conta todo o trabalho criativo que foi feito para podermos construir nosso próprio mundo, o qual honraria o que veio antes, mas também continuaria a história de uma nova maneira. 

[...] O que eu gosto dos estúdios da Marvel é que eles não fazem adaptações diretas de nenhuma HQ, mas eles sempre criam novas histórias, as quais são criadas para este momento.

Honestamente, acho que WandaVision ressoou um pouco mais por causa da pandemia em que estamos. Todos nós estamos lidando com perdas e tristeza, e como seguir em frente com isso. Não pretendíamos que essas fossem as circunstâncias, mas a história criou ressonância.

Em termos de sitcoms, tentamos olhar sitcoms que fossem sobre a família, algo pelo qual Wanda está faminta. Ela está tentando criar o que perdeu. Como vimos no último episódio, ela assistia sitcoms com a família para aprender inglês e essa era uma forma deles se relacionarem como uma família. Ela está apenas recriando isso.

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RS Brasil: Eu percebi que o primeiro episódio é bem misterioso, com falas e cenas de duplo sentido que formam uma narrativa escondida para o espectador descobrir. Mas o último episódio foi mais explicativo. É como se nós acompanhássemos Wanda no processo de conscientização sobre os próprios traumas. 

Matt Shakman: Sim, essa é uma explicação muito bem dita. Quando assistimos o primeiro episódio, a própria Wanda não tem certeza de como ela está naquela realidade. Mas, quando ela cria aquele ambiente no episódio oito, recria o Visão e ele diz 'Wanda, bem-vinda ao lar ', você descobre que ela mergulhou totalmente naquele mundo e está em um estado de negação ao ponto de não saber como chegou lá.

Ela está tão confusa quanto o Visão sobre como o mundo funciona, onde estão as alianças de casamento, o que é aquele coração no calendário e tudo mais. Então estamos descobrindo o mundo assim como Wanda e Visão estão descobrindo.

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RS Brasil: O último episódio mostrou que o maior inimigo de Wanda são os próprios traumas dela. Como foi desenvolver uma história que não possui um vilão tradicional da Marvel, mas um grande conflito interno? 

Matt Shakman: Você sabe, uma das coisas que manteve o seriado coeso foi a ideia de explorar a perda e o luto. Isso estava [estabelecido] desde o início e permitiu o visual, o estilo e os experimentos que fizemos - sitcoms dos anos cinquenta, sessenta e setenta, todas essas coisas se mantêm juntas por causa da narrativa da perda de Wanda

Isso foi algo planejado por Jac Schaeffer, Kevin Feige e Mary Livanos quando eles conceberam a ideia sobre o que seria a série. Então quando eles surgiram, o tema principal a ser explorado já estava estabelecido. Isso me atraiu tanto como cineasta, porque adoro poder brincar com estilo e tom, e fazer sitcoms vintage. Mas, é claro, tudo precisa ser adaptado para algo na série que realmente toque o coração.

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RS Brasil: Outra coisa interessante é o formato de lançamento. No meio de tantas maratonas de streaming, vocês decidiram retomar o modelo televisivo e fazer as pessoas esperarem por novos episódios a cada semana. Como essa escolha foi feita? 

Matt Shakman: Bom, eu amo que a televisão faz lançamentos a cada semana. É como eu cresci. Eu amo a expectativa de esperar o próximo episódio sair. Eu trabalhei em Game of Thrones e foi muito divertido fazer parte desse tipo de conversa e de empolgação que os fãs tinham  quando o episódio era lançado, quando falavam sobre ele e esperavam pela próxima semana. 

Acho que é uma coisa maravilhosa para o público experimentar. Nós também somos uma série sobre a televisão, somos uma série sobre a história da televisão, somos uma carta de amor à televisão. A ideia de lançar semana após semana apenas faz sentido.

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RS Brasil: Tem muita coisa para acontecer, mas temos apenas mais um episódio. Então o que podemos esperar do final? 

Matt Shakman: Bem, sempre soubemos quais histórias queríamos contar e [isso] ajudou a focar no que precisávamos. O final é satisfatório, surpreendente, emocionante e comovente também. E o seriado é tantas coisas: é um mistério, um romance, um estudo da perda, uma comédia… tem tudo isso, então esperamos que as pessoas gostem. Espero que as pessoas achem satisfatório.

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