Win Butler revela influências secretas por trás de Reflektor, novo disco do Arcade Fire

O frontman diz que mais colaborações com James Murphy podem estar no futuro da banda: “Temos mais trabalho a fazer”

PATRICK DOYLE Publicado em 27/10/2013, às 15h10 - Atualizado em 02/11/2013, às 11h28

Win Butler

O vocalista do Arcade Fire manteve esse corte por um bom tempo. Aqui, ele aparece no festival Bonnaroo, em junho de 2011.
AP

As gravações de Reflektor do Arcade Fire têm sido cercadas de segredo – até agora. Em uma das suas primeiras entrevistas neste ano, o frontman Win Butler se abre a respeito do processo de quase três anos de construção do novo álbum (que sai dia 28 de outubro) e das aventuras em países estrangeiros que o inspiraram.

Butler divide as histórias por trás das músicas incluindo “Here Comes the Night Time” e "Reflektor", revela as variadas influências, desde Søren Kierkegaard até o filme de 1959 Orfeu Negro, e discute as viagens para o Haiti e Jamaica que mudaram a vida dele. “Eu estava vendo e aprendendo e aderindo à minha própria vida, nas letras”, diz Butler à Rolling Stone EUA. “Estou não estou tentando contar histórias de outras pessoas. Estamos apenas tentando permitir que uma experiência te mude”.

Você já falou sobre de como os álbuns The Suburbs e Funeral estavam enraizados a certo lugar e período. É o caso de Reflektor?

Bem, ir ao Haiti pela primeira vez com Regine foi o começo de uma grande mudança na maneira como eu via o mundo. Normalmente, eu acho que a maioria das suas influências musicais são definidas até os 16 anos. Teve uma banda que me mudou musicalmente [no Haiti], me abriu a esse enorme, vasto mundo de cultura e influência ao qual eu nunca havia sido exposto, realmente mudou a minha vida.

Quais foram as experiências mais marcantes lá?

Ir pro Carnaval pela primeira vez e ver “rara music”, que é tipo uma música de rua com todos esses instrumentos de sopro e percussão africanos... Eu lembro de estar na praia às 3h, e tinha um baterista voodoo tocando, e ele estava dançando há quatro horas com crianças e adolescentes... Viver esse tipo de experiência musical faz com que você se sinta um charlatão tocando em uma banda de rock. É, tipo, “Ah, ok. Tem música folclórica viva e pulsante que sobrevive no mundo moderno”. Eu sempre ouvi discos folclóricos, mas viver aquilo me lembrou de todo o sentido da coisa.

Ficou óbvio que alguns dos ritmos do disco vieram dessas experiências. Você trouxe alguma letra de lá?

Acho que nada tão direto. A música mais haitiana do álbum é “Here Comes the Nigh Ttime” que tem uma batida “rara”, mas é uma junção do rara haitiano e da influência jamaicana. Passamos algum tempo na Jamaica, mas parece uma música do The Cure, é uma mistura. Quero dizer, não é que nossa banda esteja tentando tocar música haitiana. Só senti que nos abrimos a uma nova influência. Bob Marley provavelmente sentiu a mesma coisa quando ouviu Curtis Mayfield pela primeira vez.

O álbum é duplo e realmente funciona como um todo.

Acho que gastamos mais tempo organizando a sequência dos álbuns do que a maioria das pessoas gasta fazendo os álbuns. Nosso processo leva uma eternidade ao ponto de que chega a ser loucura. Nós convivemos com as músicas durante um tempo e tentamos descobrir como elas funcionam juntas. Esse álbum é muito longo. Queríamos fazer um álbum curto e acabamos com 18 músicas que duravam em torno de seis a oito minutos, então pensamos: “Acho que não conseguimos cumprir a ideia de fazer um disco curto”. Dividindo em duas metades, possibilita que você experimente os dois mundos.

Você pode me falar um pouco sobre as duas partes de “Here Comes the Night Time”? Elas são muito diferentes uma da outra, mas construídas de maneira muito intensa.

Elas são meio que opostas. A segunda, na verdade, foi escrita primeiro e quase começa a segunda parte do álbum – como se fosse depois do Carnaval. As duas foram muito influenciadas pelo por do sol em Porto Príncipe, e é muito intenso porque a maior parte da cidade não tem eletricidade e todos estão correndo pra chegar em casa antes do anoitecer.

No aeroporto do Haiti tem sempre três grupos de missionários com camisetas iguais que dizem “Deus ama o Haiti”. E você conversa com algumas dessas pessoas e pergunta: “O que vocês estão fazendo aqui”? E eles dizem “Ah, estamos aqui para ajudar o Haiti! Vamos pintar casas”! E você, “Bem, porque você não contrata um haitiano para pintar as casas? Eu garanto que eles adorariam pintar uma casa”. Então eu não sei, é uma mistura de missionários com Porto Príncipe.

É desses missionários que você está falando em “Here Comes the Night Time”?

É. Tem uma parte que diz “Os missionários, eles nos dizem que fomos deixados para trás, fomos deixados para trás mil vezes”.

No que estava pensando quando escreveu esse trecho?

No absurdo que é você poder ir para um lugar como o Haiti e ensinar para as pessoas sobre Deus. Tipo, o oposto parece ser verdade, na minha experiência. Eu nunca estive em um lugar com mais crença e conhecimento sobre Deus.

Teve mais alguma coisa que você aprendeu sobre si mesmo no Haiti que você sente que transpareceu nessas músicas?

O Carnaval foi bem transformador porque a tradição do Mardi Gras em Nova Orleans é muito influenciada pelo Haiti – você pode encontrar pequenos focos da energia original – mas boa parte foi transformada em férias, bacanal, mostrar os peitos e esse tipo de coisa. Mas [no Carnaval] existe sexo e morte e pessoas se vestem de escravo com óleo de motor no rosto e correntes, e têm essas criancinhas com roupas de peixe-bola e fantasiadas de garrafas de Coca-Cola. Tem dragões que cospem fogo de verdade na multidão.

Para mim, vestir uma máscara e dançar e estar numa multidão – acontece toda uma inversão da sociedade. Para muitos dos meus amigos e pessoas com quem cresci, a única situação e que você consegue se sentir à vontade de verdade dançando é se você está com seus melhores amigos e muito bêbado. Você sabe o que eu quero dizer – sentir a ruptura entre o espírito e o corpo, o sexo e a morte não sendo coisas completamente diferentes. [Você] se sente uma pessoa mais completa, acredito.

Em “Reflektor”, você também canta, “Nós nos apaixonamos quando tínhamos 19, agora estamos encarando uma tela”.

Não é que esteja romantizando. Eu acho que a vida é extremamente difícil e que é mais incrível ver pessoas que não têm acesso à comida ou a água limpa darem uma festa. Não é que esteja tentando cantar sobre as experiências delas. Estou vendo e aprendendo e aplicando à minha própria vida, nas letras. Eu não estou tentando contar histórias de outras pessoas. Estamos apenas tentando permitir que a experiência te mude.

Você parece estar cantando sobre temas como isolamento, morte e depressão.

O filme Orfeu Negro é um dos meus filmes favoritos de todos os tempos, se passa no Carnaval do Brasil. O mito de Orfeu é, originalmente, um triângulo amoroso, uma história tipo Romeu e Julieta. A letra não é, literalmente, sobre minha vida. Eu me sinto como uma esponja, de certa forma. Se as pessoas ao meu redor estiverem passando por algo, é muito difícil não sentir empatia. Conforme eu fico mais velho, vejo as pessoas em estágios diferentes de suas vidas. Você não tem mais 15 anos. Não é mais, “Eu te amo, baby”, é tentar entender homem e mulher profundamente. Eu nunca quis cantar sobre “Oh, baby baby”. O primeiro disco é sobre o relacionamento com seus pais e seus vizinhos e eu sempre tive interesse em relações centrais.

No último disco, você estava cantando sob a perspectiva dos pais. O que você acha que as músicas têm em comum?

Eu estudei a Bíblia e filosofia na faculdade e eu acho que de certa forma esse tipo de coisa ainda é o que faz meu cérebro funcionar. Tem um artigo de Kierkegaard chamado The Present Age que eu li muito que é sobre a era da reflexão. É de [1846] e parece que ele está falando dos tempos modernos. Ele fala sobre a imprensa e a alienação, e você lê e pensa, “Cara, você não tem ideia do quão insano vai ficar”. [Risos].

O que você achou relevante nesse ensaio de Kierkegaard?

Você lê como se ele tivesse sido escrito aqui, basicamente. Ele compara a era da reflexão com a era passional. Tipo, se houvesse um pedaço de ouro no gelo fino, na era passional, se alguém tentasse pegar o ouro, todos estariam torcendo por ele, “Vai! Você consegue”! E na era da reflexão, se alguém tenta andar sobre o gelo fino, todos iriam criticá-lo e dizer, “Que idiota! Não acredito que você vai andar sobre o gelo fino e se arriscar”. Então meio que te paralisa na hora de agir, e isso ressoou em mim – querendo tentar fazer algo no mundo em vez de apenas discutir o assunto.

Essa foi a primeira ideia que ajudou a definir o tom do álbum?

Sim, “Reflektor” foi definitivamente uma faixa na qual trabalhamos por dois anos. Provavelmente, nós fizemos as primeiras sessões há dois anos e meio. Gravamos um pouco em Louisiana com os percussionistas haitianos e ficamos com aquilo. É um processo inacreditavelmente longo. Acho que fomos para a Jamaica com 60 músicas. Fomos com Markus Dravs para a Jamaica há um ano e meio e então James Murphy veio por duas semanas em agosto de 2012, para te dar uma ideia de quão longo foi o processo.

Vocês ficaram um tempo no Castelo Trident, na Jamaica.

O castelo foi construído em 1979, mais ou menos, por esse jamaicano excêntrico que queria a companhia da realeza. E meio que funcionou. Depois de cinco anos, ele não conseguia mais pagar a conta, então ficou vazio por muitos anos. Conheci um cara que estava planejando em transformar aquilo em um hotel, então alugamos o lugar por pouco dinheiro e não havia nada ali. Trouxemos algumas camas e um piano e equipamento. Então ficou uma vibe incrível, porque você pensa, “Isso é um velho castelo de verdade”.

Muito do processo de escrita aconteceu ali?

Sim, boa parte da escrita e das gravações, também. Parte de "Here Comes the Night Time" foi gravada ali.

Tem uma influência do gênero dance que transparece em faixas como "Reflektor" e "You Already Know". O que levou vocês nessa direção?

Remete a ter tocado no Haiti. Você está tocando para pessoas que sequer ouviram falar dos Beatles. Na parte rural do Haiti, eles nunca tinham ouvido "I Wanna Hold Your Hand”. Eles nunca ouviram Elvis. Então, se você não conhece esse contexto rock and roll, o que faz com que aconteça a conexão? Tem elementos rítmicos das músicas e a emoção nos vocais – você é capaz de se conectar com pessoas que não falam a mesma língua ou dividem a sua cultura.

Você sabe, “Headlights Look Like Diamonds" está no nosso primeiro EP e parece muito com as músicas dance do New Order, e New Order é provavelmente uma das nossas maiores influências desde começo. Essa é uma das coisas que sempre nos conectou a James Murphy. LCD para mim é New Order e B-52 e nós temos muitas influências em comum e fazemos coisas completamente diferentes com elas. Regine é o tipo de pessoa que dança. A qualquer minuto, se você consegue fazer Regine dançar, você está no caminho certo, então eu acho que apenas queríamos fazer um disco que permitisse que Regine dançasse.

James surpreendeu vocês com o que ele fez com as faixas?

Nós estamos tentando trabalhar juntos desde Neon Bible. Eu imagino que nós iremos trabalhar juntos no futuro. Foi muito positivo para ambos os lados. Sinto que ainda temos trabalho a fazer.

A essa altura, o Arcade Fire é capaz de produzir sons tão diferentes – o que você faz agora que nunca pode fazer antes?

Bem, eu estou muito animado para ouvir a banda daqui um ano, depois de ter saído em turnê. Estamos tocando com esses percussionistas haitianos ao vivo, coisas miraculosas aconteceram na parte rítmica. Acho que todos nós crescemos como músicos. Então estou muito animado. Nós temos a sensação quando estamos tocando: “Caramba. Poderíamos ser muito bons. É. Poderíamos mandar bem nesse meio musical”.

Parabéns por se tornar pai, também – como está?

Está uma loucura.

Você pode me falar a respeito da turnê?

É uma ótima pergunta. Eu não sei.

Você não sabe?

Eu realmente não sei. Vamos tocar na Austrália em janeiro... Fale comigo semana que vem. Só estou tentando chegar a próxima semana.