Marco inesperado

Visto como apogeu da contracultura, Woodstock começou como uma aventura de negócios - e acabou se tornando símbolo do ideário "paz e amor"; lançamentos marcam os quarenta anos do festival

Por Paulo Cavalcanti Publicado em 17/08/2009, às 17h32

Woodstock virou símbolo da geração "paz e amor"

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Santana, integrantres do Jefferson Airplane, Graham Nash e outros artistas relembram suas apresentações em Woodstock.

Relembre a atrações do primeiro dia de festival, 15 de agosto de 1969.

Relembre a atrações do segundo dia de festival, 16 de agosto de 1969.

Relembre a atrações do terceiro dia de festival, 17 de agosto de 1969.

Greil Marcus foi até Woodstock - e relatou suas experiências na edição 42 da Rolling Stone EUA, em setembro de 1969.

Leia trecho do livro Woodstock, de Pete Fornatele, recém-lançado no Brasil.

"Era muita gente, todo este clima de nudismo", relembra Jorge Mautner, que passou poucas horas no festival.

Enquete: que show você mais gostaria de ter visto em Woodstock?

O mito de Woodstock às vezes é maior que o próprio festival. E olha que o festival não foi pouca coisa. O evento foi vendido como o apogeu da contracultura, mas na verdade começou com uma aventura de negócios como outra qualquer. Os investidores John Roberts e Joel Rosenman queriam aplicar dinheiro em algum evento ligado a música. Colocaram um anúncio no jornal, que foi lido por Michael Lang e Artie Kornfeld, dois jovens empreendedores relacionados ao mundo das artes. O improvável quarteto teve como ideia abrir um estúdio de gravação, mas logo tudo se materializou em um festival de música. Apesar do nome, o evento na verdade foi realizado em Bethel, Nova York, a 65 quilômetros de Woodstock, nos dias 15, 16 e 17 de agosto de 1969, na fazenda de um sujeito chamado Max Yasgur.

Os organizadores foram atrás dos maiores nomes do rock e conseguiram praticamente todo mundo que era relevante na época. Mesmo com algumas negativas e desistências, o line-up foi impressionante. Cerca de 186 mil ingressos foram vendidos, mas quando todos viram que o público estava chegando às pencas ao local e quebrando as cercas, o evento acabou se tornando, à força - mas pacificamente -, gratuito. Os organizadores cederam os direitos de gravação do festival para o grupo Warner e perceberam que com isso poderiam recuperar o prejuízo - o que realmente aconteceu. O que não esperavam é que cerca de 400 mil pessoas chegassem ao local (há quem diga que mais de um milhão de pessoas tentaram chegar a Woodstock - boa parte desistiu no meio do caminho, por conta do congestionamento). Obviamente, não existia infra-estrutura para tanta gente, mas quem estava lá fez o melhor possível. Várias comunidades hippies ajudaram com alimentação, saúde (cuidando de quem sofria ferimentos durante a maratona) e higiene.

Depois que o festival acabou, o governador Nelson Rockfeller declarou estado de calamidade pública na região. Mesmo assim, Woodstock sacramentou o slogan de "paz e amor". Apenas duas pessoas morreram - uma de overdose, e outra atropelada por um trator. Mas o importante é que Woodstock levou o rock a era moderna. O estilo se transformou num negócio milionário. Afinal, se 400 mil jovens se dispuseram a enfrentar a chuva, a fome e o desconforto para ver seus artistas favoritos, então existia um mercado gigantesco a ser explorado. O filme homônimo, dirigido por Michael Wadleigh e editado por Martin Scorsese, estreou em 1970 e levou os sons e imagens de Woodstock para os quatro cantos do mundo. E logo saíram os discos com a trilha, que incluíam um LP duplo e outro triplo.

Woodstock nas lojas

Os 40 anos não estão sendo esquecidos. A Warner Home Video lança uma caixa com quatro DVDs, incluindo o filme e inúmeras apresentações que foram cortadas da edição final. Há performances de Canned Heat, Creedence Clearwater Revival, Grateful Dead, entre outros. Já a Warner Music lança em CD as trilhas originais. A Sony/BMG vem com a serie Woodstock Experience, com títulos de Sly & Family Stone, Santana, Janis Joplin, Johnny Winter e Jefferson Airplane. Os CDs são duplos e incluem um álbum clássico dos artistas já citados e as atuações na íntegra em Woodstock. Já quem quiser ler sobre o festival tem como opção Woodstock, de Peter Fornatele (Agir - leia trecho aqui). O radialista nova-iorquino cobriu o festival e entrevistou praticamente todos os artistas presentes. Seu livro, no formato de história oral, apresenta um painel multifacetado daqueles três dias de agosto de 1969. Já Aconteceu em Woodstock (Editora BestSeller) de Elliot Tiber e Tom Monte, foi adaptado pelo diretor Ang Lee (saiba mais). O filme estreia em breve no Brasil.