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Rock in Rio 2019: Cansado de festa, Black Eyed Peas traz ao Brasil contestação e revolta [ENTREVISTA]

Além do Rock in Rio, o grupo também fará show em São Paulo no Itaipava de Sol a Som

Yolanda Reis Publicado em 04/10/2019, às 10h58

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Black Eyed Peas (Foto: Divulgação)

Desde a última visita do Black Eyed Peas ao Brasil, muita coisa mudou. Em 2011, além de Will.I.Am, Taboo e Apl.de.ap, Fergie ainda fazia parte do grupo. Naquela época, a banda estourava nas rádios de todo o mundo com “Don’t Stop The Party,” “Just Can’t Get Enough,” “Boom Boom Pow” e “I Gotta Feeling”. Eram de longe o grupo mais festeiro das paradas musiciais do início da década.

Fergie saiu do grupo em 2017. E em 2018, o Black Eyed Peas lançou um disco depois de oito anos quieto. Surpreendeu. Masters of the Sun Vol.1  veio para reinventar o grupo - e, ao mesmo tempo, levá-lo à origem. Nesse álbum, o trio deixou de lado toda a vibe de festa pela qual eram conhecidos há uns bons anos para apostar em um disco maduro, adulto, consciente, contestador. Igual ao que fazia quando, em 2003, estouraram  no mundo inteiro com “Where Is The Love?,” quando abriam a música se perguntando “o que tem de errado com o mundo?”

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Mas para Taboo, isso não tem nada a ver. O Black Eyed Peas, disse ele em entrevista à Rolling Stone Brasil, “sempre foi sobre passar mensagens importantes, desde 'Where Is The Love?' até agora, no Master of the Sun com ‘Big Love.’ É isso que nos destaca.”

“Antes de ter músicas sobre festas, a gente já tinha ‘Where is the Love?’ Então, em Masters of the Sun sentimos, no fundo do nosso coração, que queríamos falar de problemas sociais,” argumentou o rapper, furioso, quando perguntei porque tinham resolvido voltar a falar desses problemas. “Queremos consciência social e sermos conscientes também. E talvez as pessoas não gostem disso, sabe? Talvez, todo mundo prefira fazer festas e se divertir. E nós podemos fazer isso, mas também podemos falar sobre algumas coisas que muita gente prefere se afastar, assim como fizemos em 'Where is the Love?'. Isso sempre foi parte do nosso DNA!,” completou.

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Mas não só contestação ergueu Master of the Sun Vol. 1. O disco é, acima de tudo, uma celebração da carreira do Black Eyed Peas, e reúne tudo o que mais gostaram de fazer até então, como explicou Apl.de.ap. "Meio que fizemos desse disco o nosso aniversário de 20 anos. Olhamos para como tudo isso começou, e como tudo aconteceu. Usamos essa história como um guia para ajudar a chegar onde estamos agora. E nesse processo, viajamos o mundo enquanto fazíamos a música que amamos ouvir e adoramos fazer com toda a nossa alma. Então, para o nosso aniversário, queríamos reviver esses momentos, essa nostalgia, e esse som.”

É com esse disco novo e maduro que o Black Eyed Peas volta ao Brasil em 2019. Tocarão nesta sexta, 4, no Itaipava de Sol a Som, em São Paulo, e no sábado, 5, durante o Rock in Rio, no Rio de Janeiro. E Taboo garantiu que está animado para usar o palco do festival para mostrar as músicas do Masters of the Sun Vol.1- até usou a turnê na Europa e nos EUA para treinar: “estamos felizes de ver como nosso show se desenvolveu. Estamos em turnê faz alguns meses agora, então pudemos definir bem como será nosso show, como é a parte vocal [sem a Fergie] e nossa apresentação no geral. Então será incrível.”

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Confira a entrevista completa com Taboo e Apl.de.ap, do Black Eyed Peas:


Rolling Stone: Oi! Meu nome é Yolanda, prazer. 

Taboo: Joana?

Apl.de.ap: Não, Yolanda. 

T: Joanna!

A: Joanna! 

[Cantando]: Yolanda! Joanna! Yolanda! [Risos]. Ok, pode fazer a sua primeira pergunta.

RS: Vocês vão voltar para o Brasil! 

T: Sim, isso é muito legal, já faz um tempo que estivemos aí. Muita coisa aconteceu e muita coisa mudou desde aquela vez. Muita coisa boa, com certeza, e algumas que tivemos que superar. Mas, acima de tudo, ficamos agradecidos de podermos voltar. Já faz nove anos desde a última vez [faz oito, a última visita foi em 2011], e sempre tivemos uma boa conexão com o país. E sabemos que todos os olhos estarão voltados para o Rock in Rio, mas estamos felizes de ver como nosso show se desenvolveu. Estamos em turnê faz alguns meses agora, fazendo algumas apresentações na Europa, então pudemos definir bem como será nosso show, como é a parte vocal e nossa apresentação no geral. Então será incrível.

RS: Vocês lançaram, no final de 2018, Masters of the Sun Vol. 1, depois de oito anos. E é bem diferente de tudo que vocês gravaram antes. Quando decidiram que era hora de mudar?

A: Bom, a gente está junto há mais de 20 anos, então meio que fizemos desse disco o nosso aniversário de 20 anos. Olhamos para como tudo isso começou, e como tudo aconteceu. Usamos essa história como um guia para ajudar a chegar onde estamos agora. E nesse processo, viajamos o mundo enquanto fazíamos a música que amamos ouvir e adoramos fazer com toda a nossa alma. Então, para o nosso aniversário, queríamos reviver esses momentos, essa nostalgia, e esse som

T: E a gente conseguiu criar um álbum que tem um som bem anos 1990 em pleno 2018. Usamos de inspiração vários dos nossos rappers favoritos. A gente cresceu ouvindo esses artistas e amamos e apreciamos.

Queríamos fazer um álbum que seria como um trailer, no qual você poderia tocar o disco todo de uma vez, mas você não precisaria, porque tem partes diferentes. Existe tipo a parte um, a parte dois e a parte três em quase todas as músicas, então o beat muda, você tem umas transições musicais incríveis que te levam numa jornada musical. Eu acredito que esse álbum não é um monte de música. Queríamos fazer dele um disco com um tema, com muita reminiscência do nosso trabalho inicial e que fosse bem aceito. Teve uma temática de uma cena bem anos 1990, então tem essa imagem retrofuturista. 

RS: As letras estão bem diferentes, também. Vocês deixaram de lado a vibe festeira e começaram a focar em problemas sociais. Por quê? O que chamou a atenção de vocês que mudou isso?

T: [Irritado]: O Black Eyed Peas sempre foi sobre passar mensagens, desde “Where is the love?” até agora, no Master of Sun com “Big Love,” então é isso que nos destaca. Antes de ter músicas sobre festas, a gente já tinha “Where is the Love?” Então, em Masters of the Sunsentimos, no fundo do nosso coração, que queríamos falar de problemas sociais. Nós não somos políticos, e nem nada disso, queremos somente consciência social e ser conscientes também.

Talvez as pessoas não gostem disso, sabe? Talvez, todo mundo prefira fazer festas e se divertir. E nós podemos fazer isso, mas também podemos falar sobre algumas coisas que muita gente prefere se afastar, assim como fizemos em “Where is the Love?”. Isso sempre foi parte do nosso DNA!

Se você me perguntar qual música mais representa o Black Eyed Peas, eu vou te dizer que é “Where is the Love?” e não “Don’t Stop The Party,” porque mesmo que eu ame “Don’t Stop The Party,” eu sinto que o que colocou o Black Eyed Peas na frequencia do mundo todo foi “Where Is The Love?” e nunca podemos fugir de ser isso: uma banda que pode falar de problemas sociais e não ter medo das pessoas que ficam falando ‘ah,vocês não vão fazer mais músicas sobre festas?’. 

Mas está tudo bem! Dá para ter uma música com mensagem e que ainda seja alegre e com uma vida de festa. Esse é o que acho o melhor aspecto de Masters of the Sun. A gente não tem, realmente, músicas pop. É mais uma introspecção do que está acontecendo, todos os problemas acontecendo no mundo todo.

A: Também existe um senso de responsabilidade para a gente usar a nossa voz para falar do que está acontecendo, espalhar a ideia e a consciência de tudo que acontece. Quem nem nas nossas escolas, sabe, um monte de tiroteios, e é um problema que afeta a comunidade toda. E tentamos usar nossa música como um veículo para para conscientizar as pessoas sobre o que está acontecendo.

RS: O hip-hop, no cenário musical mainstream, está mais relevante do que nunca. Aparecendo na mídia como, eu acho, nunca antes. Como é ver uma música que vocês trabalham em todo lugar, as pessoas falando sobre, e todo o mundo ouvindo?

T: Acho que é muito bom ver a cultura do hip-hop ser abraçada pelas massas. É muito diferente do som que rolava quando a gente estava crescendo. É muito legal ver como a nova geração idolatra as redes sociais, o soundcloud, o YouTube, e usa esses veículos para criar consciência sozinhos, e além de tudo ser a própria gravadora, o próprio distribuidor, e criar uma marca própria sem ter que se submeter a uma contrato com uma gravadora grande. Acho boa essa responsabilidade que os jovens têm de criar o próprio negócio.

É uma era muito diferente agora do que quando a gente surgiu, e você meio que tem que viajar no tempo para entender que hip-hop é esse. Vai ter muita gente falando coisas negativas e pessimistas, dizendo ‘ah, esse não é meu tipo de hip-hop.’ Mas eu não quero ser aquele cara velho e chato que fica enchendo o saco de crianças por tentar fazerem o que gostam, sabe? Ou ficar tentando forçar o que o hip-hop é para eles. Eu fico só grato que o hip-hop ainda está vivo e é um som, uma música alternativa, na qual estão insistindo e trabalhando e levando para um nível superior

RS: No último disco, vocês tiveram muitos feats. Com quem mais vocês querem gravar, e o que podemos esperar no futuro?

T: No nosso novo álbum, a gente tocou com a Anitta, aí do Brasil, em um álbum que vai sair muito em breve. E vamos tocar essa música no Rock in Rio. Estou animado!. Temos muitas colabs, mas não quero te contar os nomes [risos] É pra ser surpresa!

Itaipava de Som a Sol:

Local: Ginásio do Ibirapuera – São Paulo
Endereço: Rua Manoel da Nóbrega, 1.361 – Ibirapuera – São Paulo
Data: 04 de outubro (sexta-feira)
Portas: 19h30
Black Eyed Peas: 21h30
Classificação etária: 14 (quatorze) anos desacompanhados. Menores de 14 (quatorze) anos poderão comparecer ao evento desde que acompanhados dos pais e/ou responsáveis legais. Informação sujeita à alteração, conforme decisão judicial.


A Rolling Stone Brasil está no Rock in Rio 2019 a convite da Natura Musical