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Jogando pra Ganhar

Arlindo Chinaglia aprovou a Lei Seca. Atual presidente da Câmara dos Deputados, agora ele quer moralizar a política e os políticos

Por Andrea Jubé Vianna Publicado em 14/10/2008, às 12h19

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Ilustração Fraga
Ilustração Fraga

"Pare de gritar! pare de gritar, Vossa Excelência!" [tumulto no plenário]. "O que é isso? Por favor, senhores, não façam uma coisa dessas, pelo amor de Deus! " Esbaforido, o então presidente da Câmara, Aldo Rebelo (PCdoB-SP), tentava evitar que os deputados Arlindo Chinaglia (SP), líder do PT, e Inocêncio Oliveira (PR-PE) se atracassem. Aldo teve de suspender a sessão, enquanto outros apartavam a briga. Nesse episódio, ocorrido em 2005, eles votavam a medida provisória 252, que ficou conhecida como "MP do Bem". Inocêncio criticou o projeto, dizendo que tinha virado "MP do mais ou menos" e cutucou a onça, porque Chinaglia estava convicto de que a medida traria alívio fiscal a vários segmentos do setor produtivo, como a cadeia do leite e a indústria tecnológica. Irritado, o então líder do PT rebateu Inocêncio, acusando-o de fazer "discurso de ocasião". O plenário, por muito pouco, não virou ringue.

Essa cena ilustra bem o perfil de Arlindo Chinaglia, atual presidente da Câmara dos Deputados. Um perfil que angaria defensores e críticos, tanto à direita quanto à esquerda: de um lado, a firmeza de princípios, a lealdade incondicional às suas convicções políticas e ideológicas; do outro, certa animosidade, um jeito explosivo que o predispõe ao confronto quando desafiado. "Mas quando vê que se excedeu, dá um jeito de pedir desculpas", acode o vice-líder tucano Bruno Araújo (PE), um deputado da oposição. Foi assim com o deputado José Múcio Monteiro (PTB-PE), hoje ministro do governo Luiz Inácio Lula da Silva. Em 2007, logo no primeiro dia em que ocupava cargo de líder do Governo na Câmara, Múcio levou uma descompostura de Chinaglia. Durante uma reunião em que buscavam uma saída para o imbróglio da CPI do Apagão Aéreo, que o governo não queria ver instalada, Múcio deu uma sugestão que não agradou. Ouviu do presidente, um tom acima, que deveria "ler melhor o regimento da Câmara". No mesmo dia, à noite, durante a sessão plenária, Chinaglia se redimiu: "Peço desculpas, publicamente, ao líder José Múcio. Fiz tudo de boa-fé, mas talvez tenha sido, pela tensão, ríspido, quando não deveria". Múcio aceitou a bandeira branca: "Se resultar no entendimento, senhor presidente, não há problema".

A paz acabou selada também com Inocêncio, seu antagonista no quase pugilato de 2005. Hoje, os dois convivem cordialmente. Ocupam cadeiras vizinhas na bancada do plenário reservada à Mesa Diretora e dividem a condução das sessões. Chinaglia na cadeira de presidente - que já foi de Inocêncio - e o pernambucano, ao seu lado, como vicepresidente da Casa.

Ouvimos, não de um, mas de uma dezena de deputados, de correntes políticas diferentes, que Chinaglia é arrogante, bronco, malcriado e explosivo. Talvez seja verdade, já que todos pediram para não serem identificados. Mas daí veio a pergunta lógica: se ele é assim, antipatizado, por que foi eleito para o cargo, para falar em nome de 513 deputados? "Porque é de um rigor ético a toda prova", resume um nome da oposição.

Em fevereiro de 2007, Chinaglia venceu a disputa contra Aldo Rebelo, que tentava a reeleição. Assumiu com a tarefa de continuar o trabalho iniciado pelo comunista: resgatar a imagem da Casa e fortalecer a instituição. A Câmara estava desgastada por uma série de escândalos de corrupção iniciados em 2005. Começou com denúncias de compra de votos em troca de apoio aos projetos de interesse do governo. Em seguida, veio a máfia das ambulâncias, que atingiu um quinto do parlamento. Por último, o escândalo do "mensalinho" (cobrança de propina pela concessão de um restaurante), que derrubou, em setembro de 2005, o então presidente Severino Cavalcanti (PP-PE).

Há quem diga que, sob o aspecto rude, existe um sujeito afável. Talvez a melhor descrição de Arlindo Chinaglia venha do deputado Chico Alencar (PSOL-RJ), com quem participou da fundação do PT em 1980: "Debaixo desta neve mora um coração", define Alencar, citando um verso de "Luiza", de Tom Jobim. A neve, explica, espelha ao mesmo tempo a farta cabeleira branca do presidente da Câmara e a aparência de frieza.

Você lê esta matéria na íntegra na RS Brasil 25, outubro de 2008