Arctic Monkeys troca as baladas por faixas de rock cheias de guitarra, em retorno a São Paulo

Apresentação da banda foi marcada pela garoa fina e pelo topete volumoso do vocalista Alex Turner
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por Pedro Antunes
15 de Nov. de 2014 às 13:00

Nada reluzia mais do que aquele topete. E, sob a garoa fina que caiu levemente na capital paulista, ele brilhava mais resplandecente do que nunca. Alex Turner, o dono do penteado menos indie entre os indies, voltou a São Paulo com o Arctic Monkeys, na noite desta sexta-feira, 14, quase como quem testa a popularidade da banda por aqui - já que nesta terceira passagem, o mainstream é mais do que uma realidade para todos os integrantes do grupo de Sheffield, na Inglaterra.

Relembre: Arctic Monkeys (quase) encerra o Lollapalooza 2012 com hits e músicas novas.

A banda, anteriormente, havia vindo em momentos bastante distintos. A primeira vez, em 2007, trazia um grupo que gozava da fase de heróis do garage rock britânico, com o sujo-mas-nem-tanto Favorite Worst Nightmare, o segundo disco deles, que chegou naquele ano. Um disco carregado pela força de hits como “Brianstorm”, “Teddy Picker”, “Fluorescent Adolescent” e “505” – todas executadas na noite de sexta-feira.

A segunda passagem, mais recente, ocorreu no Jockey Club, durante uma apresentação segura na primeira edição da versão brasileira do festival Lollapalooza, em 2012, quando Turner e companhia levaram menos público do que o headliner do dia anterior, Foo Fighters, mas foram aprovados, encerrando uma noite diante de 55 mil pessoas sem afrouxar as guitarras.

Frontman do Arctic Monkeys responde às críticas do The Orwells: “Eles deveriam sair e tentar transar em vez de nos ver toda noite”.

Na época, o topete de Turner já possuía vida própria, mas ainda não havia descoberto a maturidade. Com AM, mais recente disco do grupo – e disparadamente o mais ousado e “fora da caixinha” –, lançado em 2013, a banda deixou de lado a guitarra, buscou mais grooves graves e pesados e se calcou na harmonia invejável de Turner, que compõe como poucos desta geração de roqueiros surgida no Reino Unido, pós-Myspace, em uma época repleta de sucessos que, como o próprio Arctic Monkeys, vieram diretamente nas redes.

Alex Turner e Miles Kane tocam música do Last Shadow Puppets; assista.

Em um clima praticamente londrino, debaixo de uma garoa gelada, o Arctic Monkeys tocou na capital paulista depois de 12 anos de estrada, cinco discos na bagagem e com a experiência de tocar ao redor do planeta para plateias cada vez mais agigantadas. Em São Paulo, foram 30 mil e havia até espaço para um pouco mais, principalmente na pista especial montada logo em frente ao palco.

“Amo o fato de que mesmo com 20 anos de estrada, conseguimos tocar músicas novas”, diz vocalista do The Hives, que abriu o show para o Arctic Monkeys

Existia um certo clima de fim de festa – talvez porque a banda não tenha outra turnê agendada e, depois da apresentação no Rio de Janeiro, neste sábado, 15, na HSBC Arena, Turner (voz e guitarra), Jamie Cook (guitarra), Nick O'Malley (baixo) e o sempre carismático Matthew Helders (bateria) voltarão para as respectivas casas e desfrutarão de merecidas férias.

Lollapalooza 2013: leia a cobertura completa do terceiro e último dia de festival.

Algo para manter em mente neste show foi: não confunda falta movimentação no palco com falta de quentura e calor humano. O Arctic Monkeys, de maneira bastante peculiar, faz uma apresentação pragmática, porém eficiente e roqueira, deixando as baladas de derreter os corações pelas guitarras e riff mais pesados.

AM dominou a apresentação – e mostra como os músicos estão pensando no presente (e futuro, por que não?), sem cair na facilidade de recorrer aos hits da carreira de mais de uma década de idade. Foram nove da safra mais recente, enquanto Favourite Worst Nightmare (2007) foi lembrado quatro vezes, Suck It and See (2011) e Whatever People Say I Am, That’s What I’m Not (2006), tiveram três faixas e Humbug (2009), apenas duas.

Arctic Monkeys faz cover de “Feels Like We Only Go Backwards”, do Tame Impala; assista.

O Arctic Monkeys de hoje está mais perto da maturidade do que da adolescência rebelde e cabeluda. E o visual de Turner, sem-querer-querendo, expõe o que a banda é hoje no palco. Um grupo azeitado e experiente. Adulto e formado. Com preferências a momentos musicais mais elaborados, cheios de camadas e densidades, à velocidade máxima e ansiosa da juventude ou a doçura das canções de amor. Agora, os próprios romances são mais complexos do que nos anos anteriores. A pergunta é: “Why'd You Only Call Me When You're High?” – ou “Por que você só me liga quando está chapado(a)?”, em tradução literal. Dramas de adulto. O Arctic Monkeys cresceu – e não luta contra isso. A maturidade agradece.

Veja a lista de músicas do show:

“Do I Wanna Know?”
“Snap Out of It?”
“Arabella”
“Brianstorm”
“Don't Sit Down 'Cause I've Moved Your Chair”
“Dancing Shoes”
“Teddy Picker”
“Crying Lightning”
“No. 1 Party Anthem”
“Knee Socks”
“My Propeller”
“All My Own Stunts”
“I Bet You Look Good on the Dancefloor”
“Library Pictures”
“Why'd You Only Call Me When You're High?”
“Fluorescent Adolescent”
“505”

Bis:
“One for the Road”
“I Wanna Be Yours”
“Mardy Bum”
“R U Mine?”

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